quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Compras, livros e dias felizes.

O Natal, por mais crise que se sinta, é também, inevitavelmente tempo de compras, e para mim, é o momento de cumprir este exercício fantástico que é descobrir aquilo que dentro das minhas posses, consiga expressar a quem gosto, todos os meus melhores e maiores sentimentos.
Com efeito surpresa, um cocktail de “pensei em ti”, “gosto muito de ti” e “não te dispenso no novo ano que vai entrar”.
O sítio onde mais gosto de fazer estas pesquisas, confesso-vos, é nas livrarias, pelas melhores razões do mundo e mais uma, o vício que me ficou da infância e juventude.
Passo a explicar.
Quis um dos acasos mais felizes da minha vida que a minha tia avó Maria Teodora, uma das heroínas da minha história, fosse empregada de limpeza na única livraria que existia em Vila Viçosa e me tivesse levado muitas vezes com ela para o trabalho, o que fez com que eu tivesse desenvolvido uma relação de profunda amizade com a proprietária da Livraria Escolar, a D. Joana Ruivo, outra das grandes heroínas da minha história.
E assim apoiado por estas duas mulheres que me ofereceram muito do que sou, comecei a ter o privilégio do convívio diário com os livros. A livraria começou a ser a minha segunda casa, o sítio para passar os meus tempos livres e as minhas férias.
A Vila Viçosa dos anos setenta não oferecia muitas ligações ao mundo mas a sorte ofereceu-me esta casa cheia de janelas com vistas rasgadas para os horizontes mais fantásticos.
E eu aproveitei esta oportunidade, sobretudo nas muitas ocasiões em que lia os livros que a bolsa de outra forma não me permitiria adquirir, não os abrindo demasiado para não deteriorar as lombadas, folheando-os com cuidado para não estragar e amarrotar as folhas e fixando a página onde a leitura tinha terminado, para poder continuar a leitura na vez seguinte.
Quantos livros, quantos heróis, quantas viagens, milhões de sonhos…
Como para além de mestres de vida, os livros também são agregadores de gente e inspiradores de conversas, de debate e troca de ideias, a quantas tertúlias fantásticas pude assistir, e o tanto que pude aprender ouvindo gente interessante a discutir o mundo numa altura de estações quentes por força da primavera memorável de 1974.
Compreenderão portanto o meu vício por livrarias e sobretudo este “síndrome de abstinência” que quase me impele a galgar para o outro lado do balcão, sempre pior nesta altura em que me recordo da fase em que já estudante em Lisboa, sempre voltava à Livraria todos os Natais, para aconselhar, falar, discutir e vender livros.
E tudo isto pela saudade.
A saudade das pessoas e sobretudo destas duas mulheres fantásticas de quem já falei e que sendo solteiras e sem quaisquer filhos, foram minhas mães porque em mim plantaram e fizeram crescer vida.
A saudade de um lugar que deixou de ser livraria para passar a ser salão de cabeleireiro, cumprindo assim a sina deste tempo em que os aspectos exteriores contam sempre mais do que o conteúdo.
As saudades de um tempo simples, moldado por gente simples, mas um tempo imensamente feliz, um tempo a que sempre chamarei “o meu tempo”.

1 comentário:

  1. "Compras, livros e dias felizes" diz o título desta bela crónica. Acrescentarei apenas que, "compras", só por compras, não serão um bem determinante nesta fase por que passamos; "dias felizes", quantos mais melhor e todos devemos ser obrigados a tê-los e a produzi-los; "livros", como alguém disse "com um livro nunca estamos sózinhos". E é tudo. Boas festas.

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