sábado, 28 de julho de 2012

O nacional "poucochinho"


Se há características que reconheço em nós portugueses, e com as quais pouco ou nada me identifico, elas são a falta de ambição e a resignação.
A primeira encarna em si um pessimismo crónico e doentio que jamais assume o sucesso como destino, muitas vezes não é pela falta de vontade, garra e querer, que até existem, mas é tão só para jamais nos termos de arriscar a explicar o insucesso quando antes manifestámos publicamente a vontade de vencer. É que não faltarão vozes que no coro trágico da moral lusitana, a gritar e a condenar: soberba.
Alinhados com este comportamento, não posso deixar de me manifestar chocado por em plenos Jogos Olímpicos, não haver um único atleta português que assuma que vai a Londres para ganhar uma medalha.
“Não prometo nada”, “é muito difícil”, “depois logo se vê”…
Esta mentalidade é a melhor semente para não colher nada. Estas frases são a vacina que previne a condenação do insucesso que é sempre colocado com maiores probabilidades de ocorrer do que o êxito.
Quem trabalhou afincadamente para vencer, tem de assumir ser favorito.
O José Mourinho é o melhor treinador do mundo porque contraria esta mentalidade do “poucochinho”. Afirma-se especial, reconhece que é o melhor e jamais alguém o ouvirá dizer que vai tentar ganhar um jogo. Ele afirma que o vai ganhar.
E a resignação anda de braço dado e está casada com esta falta de ambição.
Contentamo-nos com muito pouco e vivemos bem com este muito pouco, porque dos pobres é o reino dos Céus e porque assumir a vitória e reconhecer o seu prazer, aliás, reconhecer qualquer forma de prazer, é sinal de soberba e de um exibicionismo que um dia acabará, porque “Deus é grande e não dorme”.
Os atletas vêm de Londres com péssimos resultados, mas já tinham avisado e prevenido a malta, não os condenem. E quando afirmam que o importante foi estar lá?
Eu conheço formas mais simpáticas e baratas de ir a Londres.
E quando saímos do desporto e entramos pela política?
É igual:
- Roubar?
- Todos roubam. E apesar deste estar condenado pelos tribunais, voto nele porque até tem feito um bom trabalho.
Ou então:
- O político mentiu e afinal não é doutor?
- Então mas já sabemos que os políticos são mentirosos. É a sua arte. São todos iguais.
E é assim em todas as áreas e assim não vamos a lado nenhum que não seja a mediocridade reinante.
Só existe um caminho para inverter tudo isto: aprendermos a ser exigentes, reavivando o rigor no critério que separa o bem do mal, o sério do desonesto, o certo do errado.
Ser exigentes e ambiciosos, tendo o máximo orgulho em sê-los.
Com garra, com alegria, sem medo das consequências da nossa revolta e indignação, e com o máximo prazer. 

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Ολυμπιακοί Αγώνες


Em Agosto de 2007 visitei Olímpia, na Grécia, e pude constatar o facto de se tratar de um local onde tudo dispensa legendas e onde as pedras, imponentes e resistentes às agruras do tempo e da história, nos falam dos jogos que paravam a guerra, e onde os Homens competiam para alcançar a glória de quem chega mais longe, voa mais alto e é mais forte: os Jogos Olímpicos.
Hoje, a chama há alguns meses acesa precisamente em Olímpia em frente ao Templo de Hera, alumiará o Estádio Olímpico de Londres, onde as nações dos cinco continentes se encontrarão para competir, sob o mesmo lema de citius, altius, fortius, mas infelizmente já sem o compromisso de parar as guerras, todas as guerras.
Os primeiros Jogos Olímpicos de que me recordo são os de 1976, em Montreal, os Jogos da Nadia Comaneci e da medalha de prata do Carlos Lopes nos 10.000 metros, atrás de um supersónico e super-suspeito Lasse Virén.
Daí até hoje, guardo grandes memórias de momentos olímpicos, e o difícil hoje, foi escolher um, bem significativo para aqui partilhar.
Escolhi um que talvez não sendo dos mais conhecidos, foi importante para nós portugueses e foi daqueles em que mais senti vivo o espírito olímpico.
Foi num domingo, dia 5 de Agosto de 1984, decorriam os jogos de Los Angeles, e fez-se história, porque pela primeira vez, 88 anos depois dos primeiros jogos da era moderna, se correu a primeira maratona feminina nuns Jogos Olímpicos.
Do pelotão de heroínas desta primeira maratona olímpica, saiu vencedora a norte-americana Joan Benoit, que desde cedo se isolou em direcção à meta no Estádio Olímpico, e a medalha de prata foi conquistada pela norueguesa Grete Waitz.
Rosa Mota, campeã europeia em 1982 e quarta classificada nos mundiais de 1983, parecia condenada ao mesmo destino do primeiro lugar fora do pódio, correndo durante muito tempo na quarta posição. Porém, com genica e com uma garra incrível, acelera o passo e ao quilómetro 38, a pouco mais de 4 da meta, ultrapassa ligeira a norueguesa Ingrid Kristiansen. A imagem é fantástica e mostra a alma de campeã da “Menina da Foz”, franzina, a passar por uma “gigante” nórdica, impotente perante tanto querer.
Rosa Mota conquistou a medalha de bronze, e esta foi a primeira medalha olímpica ganha por uma mulher portuguesa.
Tinham passado cerca de vinte minutos desde que a vencedora cortara a meta, quando a realização acompanha a imagem de uma atleta suíça, que em grande esforço e cambaleando, não desiste e se faz dramaticamente à meta para cumprir o seu sonho, porque a maior vitória é sempre a que nos é dada pela superação de nós próprios. A atleta chama-se Gabrielle Andersen, ficou na 37ª posição, a 24 minutos da vencedora, e foi o maior exemplo de coragem, tenacidade e perseverança que até hoje pude observar num atleta.
Imediatamente atrás da fantástica atleta suíça, na 38ª e 39ª posição, cortaram a meta duas mulheres portuguesas, Rita Borralho e Conceição Ferreira, e fizeram-no de mão dada, celebrando dessa forma a alegria pelo cumprimento do seu objectivo, com amizade e rivalidades à parte.
Numa tarde quente na Califórnia, correu-se uma maratona e as mulheres provaram ao mundo o que é o desporto, e o que deveria continuar a ser.
Há alguns anos atrás, tive o privilégio de conhecer a Rosa Mota e não resisti a falar-lhe desta e das suas outras vitórias que como seu fã fui registando na memória e jamais esqueço. Sorriu com a espontaneidade que a caracteriza e com a simplicidade das pessoas grandes, limitou-se a comentar:
- Gostei muito. Foi um momento muito bonito.
Foi realmente e oxalá se repita muitas e muitas vezes.
E para terminar, explico que o título deste texto é “Jogos Olímpicos”, vai escrito em grego, em homenagem à nação que é pátria dos Jogos e que hoje e sempre abrirá o desfile de todos os países participantes na competição.
Os tecnocratas dos Mercados e do Euro, que a colocaram no “lixo”, jamais poderão apagar a história da Grécia, o berço da civilização e do pensamento moderno.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Natividade e Francisco


No verão de 1974, enquanto saboreávamos uma liberdade nova e estando eu nas minhas férias grandes entre a segunda e a terceira classe, fiz com os meus avós, Natividade e Francisco, uma das viagens mais fantásticas e memoráveis da minha vida.
Os sonhos, aqueles mágicos e que nos movem, são sempre redigidos pela ambição que existe em nós, ultrapassado o óbvio, o possível, e galgada a fronteira que nos abre à aventura, e por isso, para um rapaz de oito anos nascido e criado em Vila Viçosa, terra da qual se tinha afastado nunca mais de duzentos quilómetros para vir até Lisboa, esta foi indiscutivelmente uma viagem de sonho.
Partimos numa madrugada de Agosto, daquelas que anunciam os dias quentes do Alentejo, num autocarro repleto de conterrâneos, famílias de Calipolenses, que tal como nós os três, se ofereceram nesse verão, um passeio de uma semana pelo centro e norte de Portugal.  
Pela primeira vez na minha vida, visitei locais tão significativos da identidade lusa como o Jardim do Paço, em Castelo Branco; a Serra da Estrela; o Bom Jesus e a Sé de Braga; o Sameiro; o Castelo, o Centro Histórico e a Penha de Guimarães; o Solar de Mateus; o Douro Vinhateiro; o Monte de Santa Luzia, em Viana do Castelo; a Ribeira do Porto; a Serra e o Palace do Buçaco; o Luso; O Portugal dos Pequenitos e a Universidade de Coimbra; o Santuário de Fátima; as Grutas de Santo António; as Portas do Sol, em Santarém, e muitos outros sítios que antes só tinham chegado a mim pelos livros e pela televisão, tendo por isso, todos eles, um lugar cativo no território dos sonhos.
Já tive a sorte de voltar muitas vezes a estes locais, e conto ainda voltar muitas mais, mas a indestrutível e inesquecível primeira vez, foi esta com os meus avós.
Recordo-me que dormimos em Viseu, Guimarães, Viana do Castelo, Porto, Coimbra e Santarém, nunca em hotéis ou pensões, porque a falta de orçamento aguçou-nos o gosto, a nós e a todos os outros, para dormir na rua, sempre junto ao autocarro e junto uns dos outros, nos colchões de esponja transportados, devidamente enrolados com lençóis e mantas, no tejadilho do veículo que nos proporcionou esta aventura de volta a Portugal em “campismo ambulante”.
Em todas as localidades da pernoita, já tinham sido devidamente identificados, os locais de acesso público para a higiene diária, jamais descuidada.
As refeições, simples e muito à base das sopas e açordas da nossa terra, eram confeccionadas com os produtos comprados nos mercados por onde íamos passando, com a ajuda de um fogão a petróleo que era lento mas que nunca nos condenou a comida crua.
Preparávamos as refeições e comíamo-las nos parques de merendas, nunca deixando de as partilhar com todos os outros parceiros de aventura.
Como era hábito na altura, tirávamos fotografias que ficavam armazenadas nos rolos até à revelação feita no regresso a casa, e enviávamos para a família e amigos, postais ilustrados que pela demora do correio, chegavam sempre muito depois de nós.
Durante a viagem, no autocarro, aproveitava-se o tempo para cantar as modas alentejanas, com a ajuda de gaitas-de-beiços e pandeiretas de papel, estas últimas daquelas que tinham gravadas imagens de um traje típico ou de um lugar de Portugal, existindo sempre alguém com gosto e jeito para contar anedotas, que assumindo-se como herói nesta pré-história da “stand-up comedy”, agarrava no microfone existente no veículo da Setubalense, dos Belos de Vila Nogueira de Azeitão, e dava um espectáculo que a todos punha a rir.
A inspiração para o humor e a intensidade do riso, eram sempre alimentadas pelos tintos e brancos, maduros ou verdes, que era obrigatório provar, ou não fosse o vinho, uma marca indelével do nosso grande Portugal 
Não me recordo de quaisquer discussões ou zaragatas entre companheiros de viagem. Tristezas, já todos tínhamos muitas durante o ano, e estes dias tinham nascido definitivamente para serem especiais.
Hoje é dia 26 de Julho, dia do meu patrono, São Joaquim, e de Santa Ana, a sua mulher. Joaquim e Ana são os pais de Maria e por isso os avós de Jesus Cristo.
Hoje é o dia dos avós.
Homenageio os meus avós, eternamente vivos em mim nesta como em outras grandes memórias, e em muito do que sou. Natividade, Francisco, Joaquim e Francisca.
Com a sua simplicidade ensinaram-se como se pode ser grande pelos valores, e com o seu amor sem limites, tornaram especial, o mundo que me ofereceram para eu crescer.
Ao luar de Agosto, deitado entre os meus avós num simples colchão de esponja, acariciado e protegido por eles, na rua e a olhar o céu e as estrelas, garanto-vos, fui rei, fui a criança mais feliz do universo.
Avós, ou o privilégio de se ser amado infinitamente.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Os quarenta


Na vida, a década dos quarenta encerra em si segredos que a tornam mítica e especial, talvez por ser uma real fronteira entre idades. Na melhor das hipóteses e imaginado que dobraremos os oitenta, ela constitui o verdadeiro ponto intermédio da nossa existência.
Depois da década dos dez ter sido a da Explosão Hormonal, a dos vinte, a da Autonomia Familiar, e a dos trinta, a da Consolidação Orçamental, cheguei à década dos quarenta com essa curiosidade nascida da informação contraditória veiculada pelos mais velhos: “a vida começa aos quarenta” versus “com os quarenta chega o caruncho”.
Quanto ao facto da vida começar aos quarenta, é mentira, o que é verdade é que há uma vida que começa aos quarenta. É uma vida nova e diferente, que em alguns aspectos até aprecio bastante.
Confesso que gosto de me ver ao espelho e, perdoem-me a falta de modéstia, o grisalho da barba e do cabelo, assenta-me realmente bem. E nem é preciso socorrer-me dessas novas técnicas que melhoram o visual. Há dias descobri que duas amigas da minha idade, utilizam a “pintura à pistola” para ficarem bronzeadas, pelo menos até ao duche seguinte.
Depois, a experiência adquirida nas vivências intensas das outras décadas, sim porque nunca fui de adiar nada, oferece-me um charme especial a que gosto de dar uso.
Mas, o problema é mesmo a chegada desses sinais de envelhecimento que pé ante pé vão entrando no nosso dia-a-dia.
Aos quarenta e quatro recebi a confirmação oficial do Homem doce que sou: diabetes.
Açucares postos de lado, comprimido de manhã e à noite, picada diária no dedo, ginásio por prescrição médica…
Pela diabetes e pela necessidade de controlar todos os factores de risco cardiovascular, dei hoje por mim a fazer uma Prova de Esforço numa clínica nos arredores de Lisboa.
Depois de ter estado sentado na sala de espera a ouvir a Maya atender chamadas para aconselhar vidas com base nos astros, num programa que é ele próprio um factor de risco cardiovascular, fui recebido por uma enfermeira de lâmina de barbear em riste, que depois de me mandar despir, me rapou zonas do peito a seu belo prazer, colocando-me de seguida autocolantes e dez eléctrodos que me deram a sensação, ao subir para o tapete rolante, de ser um homem bomba pronto a rebentar a qualquer momento.
A caminhar na passadeira em passo acelerado, cheio de fios e de eléctrodos, a ouvir os “pipipis” dos aparelhos e a ver na minha frente um LCD que mostrava a Júlia Pinheiro aos gritos a entrevistar uma adolescente viciada em sumos gaseificados, senti o gosto horrível do envelhecimento e, não fosse eu um homem optimista, e teria saído dali a correr para comprar anti-depressivos.
Mas houve mais…
Terminada a prova e após um duche agradável, saí da clínica envolto em fios, com uma braçadeira e um aparelho que me mede automaticamente a pressão arterial de meia em meia hora durante o dia, e de hora a hora durante a noite.
A experiência é fantástica e não tivesse eu treinado muito o “1,2,3 macaquinho do Chinês” e quando o apito soa, teria dificuldade em permanecer quieto e calado durante alguns segundos.
Avisei os meus colegas de que estou preso de movimentos, que paro anormalmente de falar por alguns momentos e de que não se assustem, pois o aparelho que trago à cintura, apesar de parecer, não é um detonador, não havendo portanto risco de explosão.
Por ter a braçadeira não consigo usar o telemóvel com o braço esquerdo, o que me coloca um problema pois desde o fim-de-semana que estou com problemas no ouvido direito e tenho alguma dificuldade em ouvir.
Fui há pouco à casa de banho e tivesse sido grande o aperto, e o minuto que demorei a gerir fios e equipamento, até me poder sentar na sanita, seria mais do que suficiente para motivar algum acidente desagradável.
É mau demais e é muita coisa junta, pelo que, definitivamente, se alguém vos vier com a história da “Ternura dos Quarenta”, não hesitem e mandem logo prender… o Paco Bandeira.
Assim, como assim…
Da minha parte, prometo, não vou desistir.
Farei as provas que forem necessárias, ligar-me-ei aos eléctrodos todos do universo, tomarei todos os comprimidos e mais um, mas enfrentarei esta chegada da velhice com um sorriso tão intenso que por certo a vai desmotivar de me fazer qualquer mossa.
E sempre, com muito charme, claro.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

As quatro cruzes de pedra


Em Vila Viçosa e a uns três quilómetros do centro da vila, existe na direcção de Pardais, passando o Aldeamento de Peixinhos, um lugar chamado de Fonte Cebola.
Só tem acesso por uma estrada de terra batida e tal como todo o campo ao redor da minha terra, obviamente aquele que ainda não foi esventrado para retirar mármore, tem o marcado viço que legitima o adjectivo que por ser assaz adequado, dá justo nome à “Princesa do Alentejo”.
Corre por estes lados um ribeiro, e foram as suas águas cristalinas, o pretexto para que eu pela primeira vez visitasse este lugar, algures pelo inicio dos anos setenta, acompanhando a minha avó Francisca num dia dedicado à lavagem da roupa.
Acima do ribeiro há um monte, alva construção que domina todo o vale, com traça marcada de Alentejo, que impressiona desde logo pelo facto de na sua fachada principal, fronteira ao vale, ostentar quatro cruzes em pedra, todas iguais, semelhantes a muitas que ainda hoje podemos ver em algumas fachadas do centro da vila e que, salvo raríssimas excepções, sinalizam crimes violentos e grandes desgraças ocorridas no passado.
Entre as operações de lavagem, corar ao sol, enxaguar e secagem da roupa, sempre com piquenique / almoço à mistura, foi a minha avó quem primeiro me falou da razão de ser destas quatro cruzes em pedra.
Anos mais tarde, a consulta às Memórias de Vila Viçosa escritas pelo Padre Joaquim Espanca, confirmou a exactidão da história narrada pela minha avó e que passo a contar.
No final do Século XVIII, um soldado aquartelado na Vila, enamorou-se pela filha casadoira da família que habitava o Monte da Fonte Cebola. Mas, no decurso do namoro, mais se encantou, e de forma irreversível, pelo ouro e dinheiro que estavam na posse desta família.
Cego de ambição, fez cúmplice um camarada de armas e pela calada de uma noite de um Outono tardio, atacou a família de forma muito violenta, num crime que não lhe saiu perfeito e como planeado, porque o filho mais novo do casal conseguiu escapar por um buraco que ligava uma das divisões da casa ao galinheiro.
Foi este rapaz que mais tarde conseguiu identificar os criminosos, devidamente condenados, e que contou a história dessa noite trágica, a história por detrás das quatro cruzes.
Foi morto o pai, a mãe, a filha mais velha e que era a namorada do homicida e também, uma perdiz, que estando numa gaiola e não se calando durante toda a cena muito violenta, foi também brutalmente morta por um dos homens.
O pai, a mãe, a filha e a perdiz. As quatro cruzes, todas iguais, do Monte da Fonte Cebola.
Hoje, Século XXI, entristece-me a legitimidade com que são feitos apelos para que não tratem mal e não abandonem os animais. Porque a violência existe e é irracionalmente brutal, proporcionando um espectáculo dantesco a quem circula pelas nossas estradas.
Hoje e sempre me encherá de orgulho ser de uma terra que já há quase trezentos anos reconhecia e não fazia distinção de valor entre todas as criaturas insufladas de vida pelas mãos do Criador.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Um herói maior da liberdade


Recordo-me da tarde do dia 11 de Fevereiro de 1990. Era domingo e a RTP interrompia a sua programação para acompanhar em directo da África do Sul, a libertação de Nelson Mandela.
Depois de em Junho de 1989, a revolta na Praça de Tiananmen ter aberto brechas no regime totalitário da Republica Popular da China, e depois das revoluções com mais ou menos veludo que em Novembro e Dezembro de 1989 tinham derrubado a “cortina de ferro”, deitando abaixo o Muro da Vergonha, de Berlim e da humanidade, confesso que nessa tarde acreditei que a última década do Século XX seria a incubadora de uma liberdade certa para todos na viragem para o terceiro milénio.
Mandela tinha estado preso exactamente o mesmo número de anos que o Muro de Berlim tinha estado em pé: 28 anos, e a sua heroicidade, feita de resistência, luta e convicção, teve e tem a dimensão gigantesca da humanidade inteira, pois jamais será admissível que a diversidade, quer seja étnica, religiosa ou outra, diversidade que é expressão da riqueza da própria humanidade, sirva de pretexto para a discriminação entre Homens nascidos iguais e com iguais direitos.
O Século XX, o das duas mortíferas guerras mundiais, parecia pois querer despedir-se em grande, com paz e com liberdade, aquela liberdade que nós Portugueses saboreávamos desde Abril de 1974.
A sair então da universidade, acreditei que o mundo se tornava diferente e que com o meu trabalho e o meu empenho, tudo se encaminhava para um tempo novo.
Breve ilusão.
O petróleo foi o mote para a invasão do Kuwait pelo Iraque em Agosto de 1990, a qual motivou o ataque das forças ocidentais à pátria de Saddam Hussein em 17 de Janeiro de 1991, na que ficou conhecida como a Primeira Guerra do Golfo.
Num ano apenas, a paz, a igualdade e a liberdade, deram lugar nas notícias aos mísseis, às vítimas, aos ataques e contra-ataques da guerra.
E o Século XX despediu-se da mesma forma como chegou o XXI: guerra e terrorismo.
Entre os Homens e a paz que gera liberdade, intromete-se permanentemente o poder político e económico, a ambição cega que promove a desigualdade e mata à partida a felicidade, que é o legitimo destino da humanidade.
Pela recorrência dos factos, parece ser este o irreversível destino do mundo.
Recuso-me a aceitar e a reconhecer esta ideia.
Tenho fé, em Deus e nos Homens, e acredito que a força das nossas convicções, todas unidas, gerará a energia que transformará o nosso tempo.
Jamais desistirei de acreditar. Desistir é a marca dos fracos de carácter, dos impotentes de alma.
Nelson Mandela cumpre hoje 94 anos.
Olho para ele e para o seu exemplo e reforço e alimento, a legitimidade da minha fé e da minha convicção.
Mais, à simples escala da minha pequenez, elas são o cumprimento da minha obrigação de honrar a luta dos heróis maiores que com a vida me demonstraram que é possível fazer diferente, é possível viver melhor, é possível e legítimo ter esperança e acreditar.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Olisippo prodigialiter estas


Gosto deste cheiro a verão que a manhã me oferece quando abro a porta e saio de casa. Os sentidos, todos eles reunidos, dispensam o termómetro e garantem-me que os quarenta graus serão hoje uma realidade.
O humor eleva-se automaticamente e quando entro no carro e ligo o rádio, não resisto a deixar-me embalar pelos Xutos & Pontapés, agarrando-me à voz do Tim para com ele cantar o “Mundo ao Contrário”. Muito a propósito.
A crise, o preço dos combustíveis ou as férias de verão, libertaram a A5 e dez minutos são suficientes para que o Túnel do Marquês me conduza à Rotunda, a esta hora ainda sem trânsito e sem gente.
Paro no semáforo, olho o Parque à esquerda e a Avenida que à direita nos oferece a cor e a luz dos indícios de Tejo.
Lisboa no verão, a minha cidade ou a cidade perfeita.
Subo a colina de “A Canção de Lisboa” e chego ao Campo Santana.
O Dr. Sousa Martins continua no seu pedestal e abaixo, perdida no mar das lápides de pedra dos seus devotos, uma mulher deixa levar-se pela fé, imperturbável à passagem das ambulâncias que passam para “alimentar” o Hospital de S. José, ali tão perto.
É cedo, demasiado cedo, e atraído pelo prazer e conforto da cafeína, entro na primeira pastelaria que vejo aberta.
Saúdo os presentes, três pessoas, e sinto o gosto único de entrar naqueles estabelecimentos, típicos nos bairros da cidade, que são salas de visita da família lisboeta.
Estão todos na casa dos sessenta anos, os dois funcionários e a cliente, que percebo, pagou com a bica, o preço da portagem para uma manhã longe da solidão do seu domicílio.
Os funcionários, alinhados atrás do balcão, têm ambos bigode e é pela cor deste último, natural e sem artifícios, que reforço a ideia do abuso do Restaurador Olex com que fiquei logo que olhei para as suas cabeças. Vestem camisas de cor branca, limpíssimas, mas daquelas que de tantos anos de máquina de lavar, já ganharam o estatuto da quase transparência.
Falam animadamente da inauguração da estação de metro do aeroporto, que hoje ocorre, e por aí se deixam levar até à beleza das nossas estações de metro, o conforto das carruagens, a forma como a juventude destrói e suja os assentos e as paredes das mesmas, as máfias de imigrantes que actuam em roubos mais ou menos violentos e que têm um campo de treinos algures no país:
- Não se sabe onde, mas a polícia anda a investigar.
Afirma um dos funcionários.
- Será por certo num daqueles sítios no Alentejo onde nunca ninguém vai.
Sugere a mulher.
Há muito que buscam a minha cumplicidade através dos constantes olhares, e me convidam a entrar na conversa, mas esta história do campo de treinos das máfias de leste ser no Alentejo, pôs-me definitivamente em silêncio.
Que mania esta a de considerarem a minha planície, o “faroeste” nacional? Afinal de contas a história do deserto a sul do Tejo não foi uma ideia isolada.
Entretanto, não entram mais clientes na pastelaria, mas os homens estão de pinças de bolo em riste, preparados para atender uma multidão de seres que lhes possa hipoteticamente entrar pela casa dentro. Fazem movimentos desnecessários que expressam nervosismo, como se os corpos rotinados em manhãs de balbúrdia, estivessem em abstinência de uma rotina de atendimento de casa cheia, que esta manhã de pré-Agosto definitivamente não lhes pode oferecer.
Um deles, o da preocupação com a limpeza das carruagens do metropolitano, pousa por momentos a pinça e colocando o pé sobre uma grade de cerveja que está por debaixo do balcão, ajeita a meia, repetindo depois o gesto com o outro pé, antes de voltar a pegar na pinça.
Entra finalmente um outro cliente e o homem da peúga ajeitada não perde tempo:
- Bom dia amigo, o que é que vai ser?
- Bom dia. Uma bica cheia e um Pão de Deus com fiambre…
Olho em volta, expresso um bom dia e saio finalmente da pastelaria devolvendo-me á luz da cidade.
Lisboa.
Na cor, no sol, no Tejo e na gente, definitivamente, a cidade do meu verão.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Às avessas


Uma pessoa que me é muito próxima, começou recentemente a fazer um curso sobre empreendorismo num instituto do estado, tendo recebido, no meio dos maiores disparates veiculados pela formadora e que são expressão da sua total incompetência, o conselho para nunca arriscar um negócio pois o momento é economicamente muito complicado.
Apesar da incompetência, não parece faltar trabalho a esta senhora, ao contrário do que acontece com um elevado número de professores, competentes e com provas dadas, e conheço bem alguns deles, que estão a vislumbrar o desemprego no seu futuro.
Para quê tanto investimento em estudo e dedicação?
Tivessem passeado o charme pelas estruturas juvenis de algum partido, tivessem aderido a uma loja maçónica, pedissem as equivalências de modo a obterem a licenciatura com a frequência de 10% das cadeiras, e muito possivelmente não só não estariam no desemprego como teriam muitas hipóteses de conseguirem ser ministros e atingirem em poucos anos uma choruda reforma.
A necessitar de reforma estará também o Presidente do Comité Olímpico de Portugal pois ao referir-se às hipóteses de sucesso dos nossos atletas nos Jogos Olímpicos de Londres, afirmou ser muito difícil que consigamos ganhar alguma medalha. Bela expressão de confiança nos atletas, e já agora, que inédito método para motivar as hostes.
Motivação?
Imbatível deve estar a dos corruptos mais poderosos pois a impunidade é coisa que ninguém lhes tira nesta reinvenção do decálogo e mais concretamente na componente do não roubar.
O bem e o mal?
Já não existem. Foram enterrados na mesma tumba da honestidade e dos valores em geral.
E nesta República do Avesso, até a lucidez chega da fonte mais improvável: o presidente do governo regional da Madeira. Irónico, sugeriu a sua legitimidade para pedir equivalências para quatro licenciaturas, tudo por conta dos anos que leva de desempenho de actividade política.
Um país ao contrário ou um eterno carnaval onde nunca mais se vislumbra a quarta-feira.
Na minha Vila Viçosa quando alguém saía à rua com a roupa ao contrário, dizia-se que era sinal de presente ou então de uma visita inesperada. Visitas e presentes, são tudo o que não nos tem faltado, em troikas, memorandos e pacotes de austeridade.
Definitivamente, por todos os motivos, acho que é melhor “perdermos” algum tempo em frente ao espelho e tomarmos a iniciativa de compor a fatiota. 

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Sexta-feira, 13


Há encanto, magia, pragas, mistério,
Histórias de bruxas e lendas de encantar,
Há um terror que se diz ser caso sério,
Miam gatos que são pretos e mestres de azar.

Há queimadas, fogueiras e rezas com fé,
Afugentam-se tristes agoiros e maus-olhados,
Fazem-se cruzes para o Belzebu saber como é
E ir semear desgraça noutras terras, noutros lados.

Adivinhos e sábios, lêem nos astros do universo,
Sinais de tragédias e coisas de acautelar,
Profecias de um caos certo, e sem reverso,
Como se o mundo vivesse a um passo de acabar.

E afinal, tudo é tão simples e assaz normal,
Ciclo, inevitável tempo, impossível de evitar,
Um dia a mais, aos outros, em tudo igual,
Duas dúzias de horas para ter fé e acreditar.

Se por ser treze, a Sexta queremos diferente
Positivos e unidos a saibamos viver,
Com amigos, amores e com toda a gente
Há lá melhor sorte para a gente hoje ter?

terça-feira, 10 de julho de 2012

ESTADO…


DE SÍTIO para trabalhar é coisa que urge encontrar para muita gente. A economia afunda-se, as empresas definham, e os despedimentos, cada vez mais fáceis de concretizar, são uma realidade com que vivemos diariamente, atirando pessoas e famílias para lá do limiar inferior da dignidade humana, para os terrenos amargos da pobreza.
CIVIL – SOLTEIRA morre sempre a culpa de quem ano após ano nos vai (des)governando e atirando para o caos financeiro em que nos encontramos. O bom ou o péssimo desempenho terá sempre a recompensa de uma choruda reforma ou de um cargo de nomeação política que permita a manutenção das mordomias.
DE GRAÇA nada se obtém neste país de taxas e portagens. Saúde, acessos, transportes, justiça… tudo se paga e assim, pela via do ter mais ou menos dinheiro, tudo acentua a cada vez maior diferença entre ricos e pobres. Apesar dos impostos serem elevadíssimos, a má gestão e o descontrolo da despesa, obrigam constantemente ao pagamento de novas taxas por forma a equilibrar os números que fazem a cosmética da nossa economia.
GASOSO a evaporar-se, é o ânimo e a tolerância perante a incompetência. Há apupos de revolta de um povo cansado de ilusões.
DO TEMPO nublado estão cheios os dias da cultura e da educação. A primeira definha esmagada pelo peso do populismo e colocada na prateleira do elitismo inacessível, a segunda afunda-se na cosmética de um ensino que tem fito apenas nos diplomas e nas estatísticas, e que esqueceu a qualidade no dia em que decidiu afrontar e perseguir aqueles que serão sempre os agentes entre a situação e a excelência, os professores e a sua legítima autoridade.
DO MAR e da terra, e da nossa sublime arte de com eles produzir, se esqueceram aqueles que nos foram vendendo as ilusões do facilitismo. Pelas quotas da Europa se criaram os canais da importação e se aumentou a dependência total de que enfermamos.
DE DIREITO muitos sabem mas nem isso nos serve para que possamos acreditar na justiça. Ser criminoso não basta para se ser condenado. Haja tempo, dinheiro e, de recurso em recurso se chegará à absolvição final.
SÓLIDO e definitivamente instalado, está o desespero dos jovens que não encontram caminhos para se consolidarem profissionalmente e encontrarem o caminho da sua afirmação como cidadãos. Apontar a emigração como solução, é esvaziar o país do futuro, desperdiçando a excelência, a capacidade de trabalho e as energias que poderão fazer a diferença a nosso favor.
MAIOR é hoje o desespero dos que alimentaram o país pela força do seu trabalho e estão hoje entregues à insegurança de pensões miseráveis que não permitem que o ocaso da vida seja vivido com a dignidade merecida.
DA NAÇÃO se falará amanhã na Assembleia da República. Antecipei-me e falei eu de véspera.
DE COMA e dos cuidados intensivos, é urgente libertarmos o país que somos, matando a letargia.
EMOCIONALmente fortes, reunamos as energias que constroem o sinal convicto de que basta já o pouco e o mau que temos.
LÍQUIDO será garantido que teremos um melhor futuro se o soubermos construir juntos.
DE ALMA, de fé e força se alimente o nosso querer.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

O passeio dos etilizados


Na minha Vila Viçosa de há algumas décadas atrás, existia um homem que com muita arte e engenho, improvisava violas a partir de todo o tipo de latas velhas de que dispunha, quer fossem de atum, de azeite, de graxa de sapatos ou cera para madeiras.
Com cordas também elas criadas a partir dos fios mais estranhos, percorria as ruas a cantar em verso tudo o que lhe acudia à boca. Eram rimas que não passavam pelo filtro do cérebro, pois o seu estado de embriaguez total e permanente, anulava à partida esta actividade censória habitualmente designada por bom-senso.
Ninguém o levava a mal. Em primeiro lugar porque o seu curriculum era amplamente conhecido, e depois, porque na maioria dos casos, já ninguém se dedicava a escutar as letras das suas canções.
Hoje consultei o sítio na internet do Diário de Notícias e deparei-me com uma afirmação do presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, relativamente à implementação do programa de ajustamento em Portugal:
"Foram feitos progressos importante em áreas tais como o mercado de trabalho, o mercado imobiliário, no quadro geral da concorrência, no sistema judicial e no sector dos transportes".
Se o recurso ao bom-senso não lhe foi vedado pelo abuso de substâncias com forte componente etílica, estará por certo enquadrado num processo patológico de características muito semelhantes.
Não nos chegava já ter de aturar os nossos mestres e líderes lusos, nascidos das incubadoras das “jotas” e feitos doutores nas “Universidades-Bimby”, como ainda tinha de vir um ex-governador do Banco de Itália, a compor o ramalhete das misérias.
Se ele for tão bom como o ex-governador nosso conterrâneo que lhe faz companhia como vice-presidente, então fica tudo muito bem explicado.
Mas o que é mesmo verdade, é que nós estamos cercados de cegueira e incompetência por todos os lados, dentro e fora.
Os artistas, os mestres da ilusão e do virtual, tomaram o poder, falam de um mundo que não existe e dizem coisas que ninguém ouve, num passeio que parece o circo ou o passeio dos etilizados.
Só que ao contrário do meu amigo “Inventor” de Vila Viçosa, aqui quem tem de improvisar violas somos nós, porque não basta ter unhas para as tocar, tocando a vida para a frente.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

À vida!


Há alguns anos atrás, as férias grandes eram muito maiores do que hoje, e era no inicio de Junho que nos despedíamos das aulas e perdíamos o contacto diário com alguns colegas, os mais afortunados, que cedo partiam com os pais para junto do mar.
Mas mesmo assim, apesar destas ausências, nunca deixei de ter alguns amigos junto a mim, nas festas de aniversário que os meus pais me organizavam para que o dia 5 de Julho, o dia do meu aniversário, fosse sempre para mim um dia diferente, um dia feliz.
A festa começava a ser preparada uns dias antes quando recortava as cartolinas e as decorava com desenhos, no meu caso não muito artísticos, elaborando os convites que entregava orgulhoso aos amigos cujos nomes constavam da lista antes elaborada em conjunto com os pais.
O lanche era simples e nascia sempre da arte da minha mãe, tias e avós, sendo composto por sandes, pães-de-leite, empadas, rissóis de pescada, biscoitos, broas e claro, o bolo de aniversário, sempre feito pela minha mãe e decorado por uma prima afastada, de nome Octávia, que o cobria de pérolas doces e de uma pasta branca de açúcar, difícil de trincar e que me recordo, tinha um intenso gosto a limão.
Comíamos e brincávamos, fazendo parte da festa a organização de algum jogo alinhado com o programa mais em voga na televisão e que poderia ser o “1,2,3”, a “Visita da Cornélia” ou o “Terra a terra minha gente”.
Antes do jantar, os amigos partiam e ficava em casa com os meus pais e o meu irmão, sabendo que no serão chegariam os avós e os tios, para um chá, que por ser verão, tinha sempre a companhia de uma limonada, alternativa fresca elaborada a partir dos limões que o quintal da Tia Maria nos oferecia durante todo o ano.
Os amigos traziam sempre presentes que tinham tanto de simples como de fantásticos. Poderia ser um single com uma canção da moda ou de um recente festival, ou então um livro, e se fosse de “Os Cinco” ou de “Os Sete”, seria por certo devorado nos dias imediatamente a seguir à festa.
A família trazia roupa e percebia-se que as peças escolhidas tinham sido alvo de uma discussão prévia com a minha mãe, tendo por base as necessidades de guarda-roupa para um verão que ainda ia no começo.
Mas falando de presentes, agora já posso assumir sem melindrar ninguém, que os meus preferidos eram os do Avô Chico e do Tio Zé Boquinhas, que chegavam sempre e eram sempre iguais: uma nota de vinte escudos.
Cada uma entregue em seu envelope, as notas que tinham a imagem de Santo António, iam directamente para o meu mealheiro e eram um contributo precioso para que o verão, e as festas que o compunham ali pelas redondezas, fossem vividos em plenitude.
Não consigo enumerar o que comprava ao longo do verão com estes quarenta escudos, mas posso garantir que estes vinte cêntimos de Euro me garantiam o verão.
Faço hoje 46 anos e neste final de tarde, a saudade levou-me até às memórias destes meus aniversários em Vila Viçosa, quando a simplicidade dos nossos dias, das prendas e das festas, fazia sobressair os afectos que foram, garanto-vos, o meu melhor alimento.
Hoje, sinto a falta dos que já não vão poder chegar para o chá, sinto o orgulho pelos que antes chegavam para o lanche e que nunca deixam de se fazer presentes neste dia porque a amizade que nos une é indestrutível, e sinto a força de todos aqueles que os anos me foram oferecendo, os que foram chegando e são hoje, e serão sempre, alicerces fortes da minha felicidade.
Convosco, meus amigos de sempre e para sempre, ergo hoje a minha taça do melhor tinto alentejano e brindo:
- Á nossa! À vida! 

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Portugal ou buscando o mar


O sol está a pique, e a planície arde no seu esplendor ocre, pincelado aqui e ali pela nobreza dos sobreiros que recortam o horizonte, impondo o seu verde neste namoro perfeito e imperturbável entre a terra alentejana e o mais intenso azul do céu.
A estrada, recta infinita e persistente, é nossa cúmplice e transporta-nos, na ânsia e no clamor pelo Tejo que sabemos sempre, estar certo mais além abaixo na encosta, quando terminarem as giestas e as estevas.
Chegamos por fim, e repousamos o olhar, entregando a alma à paz do lento correr das águas.
Cruzamos o rio e subimos.
Subimos nós e connosco sobe a Terra, que em braços de granito erguidos aos Céus, se faz Serra e se impõe, perfeita montanha, oásis doce e rubro de sabor cereja.
A Gardunha é o degrau que nos dá alento e nos inspira a pular à Estrela, mágico, supremo e divino altar.
Avança a tarde, e passando a Guarda, deixo-me ir buscando intensamente o sol, cruzando louco os caminhos traçados pela bravura lusitana de Viriato, sabendo que o ocaso me revelará a Ria, o mar de Aveiro, paraíso da fertilidade em verde moliço.
Finalmente o mar…

Santos dias


Isabel, mulher de Aragão que D. Dinis fez rainha e a fé do povo fez Santa, é celebrada hoje em Coimbra, dedicando-lhe a cidade dos estudantes, o dia maior do município.
Entro pois em Coimbra com o privilégio da ausência de trânsito, e com tempo para simultaneamente conduzir e olhar em volta.
Gosto particularmente quando a Rua da Sofia faz uma curva e nos coloca perante a Igreja de Santa Cruz. A bandeira da cidade e a primeira bandeira de Portugal, branca e com uma cruz azul, assinalam que ali repousa o Primeiro Português, título que merece o Inventor de Portugal, D. Afonso Henriques.
A imponência da fachada faz jus à importância do local, por certo um dos mais marcantes do ser Português.
Começo a subir, passo pelo mercado e, sinto-me a viajar na história pois acabei de chegar à Praça da República.
Vejo em frente o Jardim da Sereia e penso na adequação geográfica pois bem próximas têm estado as agruras da República com o canto enganador de tantas sereias.
Mas viro à direita e estaciono junto à Cantina tendo de frente para mim a Escadaria Monumental da Universidade.
Pela segunda vez me cruzo com D. Dinis pois foi ele que em 1290 através do documento Scientiae Thesaurus Mirabilis, criou aquela que é uma das mais antigas universidades da Europa.
Pretendia o rei, um dos maiores líderes que tivemos na nossa história, e dos mais importantes na preparação da epopeia dos descobrimentos, criar excelência e promover o desenvolvimento do país.
A cultura e o estudo para desenvolver Portugal.
Regresso ao Século XXI olhando para a escadaria e vejo ainda nítidas as siglas de um agrupamento partidário que até engloba ambientalistas, que nas últimas eleições resolveu fazer campanha perpetuando-se a tinta azul e vermelha nos degraus da dita.
A política do Século XXI a borrar a Universidade.
O rádio dá as notícias das 14 horas e ouço o primeiro-ministro de Portugal afirmar que não tem relevância política, o facto de um ministro do seu governo ter conseguido uma licenciatura apenas num ano, com base na sua experiência pessoal e profissional.
A política do Século XXI a borrar a Universidade.
Será sina?
Ou será que os milagres no Século XXI, das rosas e agora também das laranjas, são operados nessa máquina incrível de fazer licenciados que se chama Universidade Lusófona, que nasceu para envergonhar e “borrar” a Universidade Portuguesa?
O Homem é um ser uno, completo e sem compartimentos, e quando se é desonesto em alguma questão, é-se desonesto na globalidade e não se tem nobreza no carácter.
Forjar diplomas universitários por vias ilícitas de novas ou velhas oportunidades, tem relevância política porque mancha definitivamente o carácter dos sujeitos impedindo que eles se apresentem “limpos” na vida e também obviamente na política.
Mais do que a formação, os conhecimentos ou a preparação que afinal não se tem, é a honra que fica definitivamente beliscada nestas jogadas feitas pelos juniores da política, que entretidos nas suas jogadas pela conquista do poder, se demitem de estudar e de se preparar para poderem um dia “jogar” o campeonato dos seniores, investindo apenas no transformismo que fabrica doutores e engenheiros ao melhor estilo das “marafonas” do Carnaval de Torres.
Por isso, e quando se falar de crise, que ninguém diga que não sabe como se chegou até ela.
Saio de Coimbra pela Portagem e olho lá longe o Novo Mosteiro de Santa Clara, onde repousa Santa Isabel, à sombra do qual cá em baixo está o Portugal dos Pequenitos.
Faço-me à A1 em direcção a Lisboa e não resisto a pensar como de milagres estamos tão necessitados, minha Rainha Santa, por de tão pequenitos estar tão cheio Portugal.