segunda-feira, 9 de julho de 2012

O passeio dos etilizados


Na minha Vila Viçosa de há algumas décadas atrás, existia um homem que com muita arte e engenho, improvisava violas a partir de todo o tipo de latas velhas de que dispunha, quer fossem de atum, de azeite, de graxa de sapatos ou cera para madeiras.
Com cordas também elas criadas a partir dos fios mais estranhos, percorria as ruas a cantar em verso tudo o que lhe acudia à boca. Eram rimas que não passavam pelo filtro do cérebro, pois o seu estado de embriaguez total e permanente, anulava à partida esta actividade censória habitualmente designada por bom-senso.
Ninguém o levava a mal. Em primeiro lugar porque o seu curriculum era amplamente conhecido, e depois, porque na maioria dos casos, já ninguém se dedicava a escutar as letras das suas canções.
Hoje consultei o sítio na internet do Diário de Notícias e deparei-me com uma afirmação do presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, relativamente à implementação do programa de ajustamento em Portugal:
"Foram feitos progressos importante em áreas tais como o mercado de trabalho, o mercado imobiliário, no quadro geral da concorrência, no sistema judicial e no sector dos transportes".
Se o recurso ao bom-senso não lhe foi vedado pelo abuso de substâncias com forte componente etílica, estará por certo enquadrado num processo patológico de características muito semelhantes.
Não nos chegava já ter de aturar os nossos mestres e líderes lusos, nascidos das incubadoras das “jotas” e feitos doutores nas “Universidades-Bimby”, como ainda tinha de vir um ex-governador do Banco de Itália, a compor o ramalhete das misérias.
Se ele for tão bom como o ex-governador nosso conterrâneo que lhe faz companhia como vice-presidente, então fica tudo muito bem explicado.
Mas o que é mesmo verdade, é que nós estamos cercados de cegueira e incompetência por todos os lados, dentro e fora.
Os artistas, os mestres da ilusão e do virtual, tomaram o poder, falam de um mundo que não existe e dizem coisas que ninguém ouve, num passeio que parece o circo ou o passeio dos etilizados.
Só que ao contrário do meu amigo “Inventor” de Vila Viçosa, aqui quem tem de improvisar violas somos nós, porque não basta ter unhas para as tocar, tocando a vida para a frente.

1 comentário:

  1. Em todas as terras há sempre uma figura que se destaca , pela sua forma de vida ser diferente de todos os outros habitantes , mas sempre muitos alegres e bem dispostos
    Somos um pais de artistas e cada um com a sua manha
    RUI PEREIRA

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