sábado, 31 de agosto de 2013

Um poeta de muitas terras

Muito tarde lhe descobri a poesia.
Aconteceu apenas e só naquele final de ano de 1997 quando fui à procura da razão porque escolhera a minha Vila Viçosa para sua sepultura nesse pedaço de terra à sombra da Senhora da Conceição abençoado por Florbela e tantos anónimos que fazem dele um verdadeiro panteão dos donos da palavra que dá verdade à alma: os poetas.
Um poeta de Moçambique nascido em Inhambane a 10 de Agosto de 1932 que recebeu por herança de um avô Suiço, um relógio, e um apelido estranho que para nós Calipolenses tem algo de familiar por pertencer a uma família que há muito estimamos. Mas um poeta nosso, de Portugal e do sul:
“De português tenho a nostalgia lírica
de coisas passadistas, de uma infância
amortalhada entre loucos girassóis e folguedos;
a ardência árabe dos olhos, o pendor
para os extremos: da lágrima pronta
à incandescência súbita das palavras contundentes
do riso claro à angústia mais amarga”.
A revolução oferecera-lhe a liberdade ao mesmo tempo que o arrancou definitivamente da sua terra, tornando-o um Homem sem pátria ou… um Homem de múltiplas pátrias:
“Neste lugar sem tempo nem memória,
nesta luz absoluta ou absurda,
ou só escuridão total, relances há
em que creio, ou se me afigura,
ter tido, alguma vez, passado”.
Onde cabem afinal as fronteiras na poesia?
Não é o poeta, ele próprio e sempre, um cavaleiro em busca de si mesmo?
“Aventureiro, ou não, servidor apenas
de qualquer missão remota ao sol poente,
em amanuense me tornei do horizonte
severo e restrito que me não pertence,
lavrador vergado sobre solo alheio”.
A Câmara Municipal de Vila Viçosa decidiu em boa hora integrar no programa da edição número 150 das Festas dos Capuchos, uma justíssima homenagem ao poeta Rui Knopfli que partiu no dia 25 de Dezembro de 1997 e que se encontra sepultado no Cemitério de Vila Viçosa, terra de muitas das suas raízes familiares.
Escritor e poeta reputado, com algumas importantes obras publicadas, cidadão do mundo, foi inclusive durante muitos anos, colaborador da Embaixada de Portugal em Londres, muito nos orgulha que este homem de múltiplas pátrias tenha escolhido de entre todas a Callipole, como sua terra.
Porque tornamos sempre nossa, a terra onde conscientemente escolhemos ser sepultados.
Depois da publicação o Programa das Festas, algumas pessoas me perguntaram por este homem e se eu conhecia algo sobre ele. Respondi-lhes sempre mas resolvi partilhar um pouco convosco neste post que fiz ao jeito de um pano-cru bordado com as sábias palavras do poeta e que fica também como uma modestíssima homenagem minha e da minha saudosa Avó Chica, durante muitos anos funcionária em casa da tia do poeta, em Vila Viçosa, a senhora que quando eu nasci me ofereceu o prato e a tigela para as minhas primeiras refeições, conjunto de louça que ainda hoje guardo no armário aqui de casa e que continua a manter vivas as histórias que a propósito dos soldadinhos que o decoram, me iam contando todos aqueles que tive a sorte de me darem a sopa.
Mas nunca é fácil falar de um poeta, e bastas vezes nem é preciso: está tudo na sua poesia:

“Quem somos, senão o que imperfeitamente
sabemos de um passado de vultos
mal recortados na neblina opaca,
imprecisos rostos mentidos nas páginas
antigas de tomos cujas palavras
não são, de certo, as proferidas,
ou reproduzem sequer actos e gestos
cometidos”.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

As tristes chagas de um país em chamas

No mesmo telejornal, o de ontem à hora de almoço, o destaque para a morte de mais uma bombeira no incêndio do Caramulo, o discurso de Santana Lopes na Universidade de Verão do PSD e a nomeação da nova Secretária de Estado do Tesouro.
O país em três histórias que só na aparência são independentes umas das outras.
Os incêndios são um tormento sempre que chega o verão e se abre a denominada época dos ditos, numa recorrência nunca quebrada pela falta de medidas eficazes de prevenção e combate. No enquadramento actual do “negócio incêndios”, preveni-los com uma campanha de TV apelando ao não atirar de “beatas” para a berma é tão ridículo como querer tratar uma tuberculose com uma Aspirina Pediátrica.
A prevenção efectiva far-se-ia com a implementação de medidas que esvaziassem os interesses comerciais por detrás do fogo, com um aumento da vigilância e sobretudo com o combate à desertificação e ao abandono dos campos.
Quando de fecham escolas e centros de saúde no interior empurram-se as pessoas para a periferia dos grandes centros urbanos onde se gastam milhões em habitação social ao mesmo tempo que milhares de casas estão abandonadas e a ruir por esse país fora nas zonas mais vulneráveis ao fogo.
Ao longo dos anos, directa ou indirectamente, o Estado foi legislando o efectivo abandono dos campos transformando-os em “palha seca” e altamente inflamável.
E não é legitimo exigir aos beneficiários do Rendimento Mínimo de Inserção ou do Subsídio de Desemprego que, como contrapartida ao que recebem da comunidade, disponibilizassem algumas horas que em muitos casos poderiam servir para a vigilância e as limpezas das matas do Estado?
As bermas das estradas que cruzam o interior do país estão uma vergonha e as antigas casas dos cantoneiros estão invariavelmente em ruínas.
E o combate aos incêndios?
Quanto ganha um bombeiro? Quantas horas seguidas de trabalho são exigidas a um bombeiro? Onde estão os milhares de militares que só fazem treinos e simulações de guerra, que vivem sentados nas poltronas estufadas de privilégios das suas luxuosas messes e que só ameaçam com uma revolução quando sentem existir um ataque a esses pérfidos benefícios? O momento não exige que treinem um efectivo combate aos incêndios e os ponham em prática? Um país são as suas pessoas, a sua floresta, os animais… e o país está verdadeiramente em “guerra”.
E a punição efectiva e rigorosa de quem ateia o fogo e de quem manda atear por ter interesse no que resta do fogo ou no pagamento das facturas do combate privado ao fogo?
Lamento muito e entristece-me verdadeiramente a morte de cinco bombeiros só este ano. A sua coragem e a sua abnegação faz deles eternos heróis mas não posso deixar de dizer que a sua morte é uma vergonha nacional. A montra feia da vergonhosa gestão política do país.
Os políticos não estudam no inverno em universidades normais, organizam as suas próprias universidades no verão, o que até é compreensível se pensarmos que é no verão que as cigarras estão mais activas.
E nessas universidades, as incubadoras dos “meninos e meninas”, todos portadores de cartões “Jota”, que daqui a alguns anos vão ver o seu nome gravado no Diário da República em sucessivas e milionárias nomeações, os professores, salvo raríssimas excepções, são as “cigarras” mais velhas que andam por cá há muitos anos a “atear fogo” ao país.
Ontem, Santana Lopes foi teorizar sobre apoios sociais e de caminho abordou os incêndios e a forma de os prevenir e combater. Para quem já foi Primeiro-Ministro, Presidente de Câmara e para quem há anos “anda por aí” pela política, é escassíssima vergonha este tipo de especulações baratas.
Já teve demasiadas oportunidades para fazer algo. Mas fazer é um verbo assaz difícil.
E se os “meninos” é isto que aprendem, não espanta que o ciclo da mediocridade não se rompa.
Foi nomeada a nova Secretária de Estado do Tesouro que até aqui exercia as funções de Directora Financeira do BPI. O anterior, que “morreu” afogado nas memórias das propostas “swaps” vinha do Citigroup.
O poder económico há muito suplantou o poder político.
Políticos de incubadora gerados nas Universidades de Verão são por incompetência os que melhor servem à manutenção deste poder.
E neste contexto, as pessoas, aquelas que são todos os dias chamadas aos slogans e campanhas políticas, não contam mesmo para nada, abandonadas que estão à tristeza de um país em chamas.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Alandroal

Para: Luísa Valente

Abraçam-me ruas tecidas a cal
De ocre bordadas em fino traço
Tom de trigo, alento do meu passo
Caminho que a alma fez imortal

A andorinha que sorri no beiral
Baila no voo por sob o espaço
Liberdade maior e sem cansaço
Na força do sonho tornado real

E o sol que nasceu ainda agora
Dia feito no tempo desta hora
É bênção do sul, alma de Portugal

Grita o povo: Virgem da Conceição
Em preito de fé, fervor e oração
Alentejo, vida, paz: Alandroal.

Na majestade sublime de um poente
No perpétuo cantar das ondas
No olhar doce que carrega palavras e me grita: amor
No verbo que me ampara
No paralelo caminhar, alento e rota por entre os dias
No conforto de uma mão entregue à minha
Na ardente paixão de um beijo
No aroma quente de uma flor que me trouxe a primavera
Na melodia do fresco correr da fonte
Na paz do tempo sem a pressa do relógio
No doce travo da cereja
No voo de uma ave que dança rasgando o céu
No riso
Na loucura dos sonhos mais ousados
No Homem que se inquieta
No querer que não tem fim
Na arte
No canto
Na poesia…

A vida
Perfeita e grande
Inteira se revela
E incessante me fala de Ti

Perfeito
Tu
Criador
Nascido assim em mim na fé que a alma encerra

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Mostra-me o teu cartaz, dir-te-ei quem és.

As Eleições Autárquicas que terão lugar em Portugal no próximo mês de Setembro condicionam já definitivamente as nossas paisagens através de uma “sementeira” de cartazes com caras, monumentos e mensagens para todos os gostos.
Comprovei esta situação nos meus passeios de férias e fui registando o que de “melhor” encontrei, dando agora conta deste meu “Autárquicas 2013 Tour”.
Para além das inevitáveis: honestidade, competência, seriedade, rigor, trabalho, etc; as mensagens dos cartazes e os slogans das campanhas poderão ser agrupadas em várias categorias.
Desde logo a “Aritmética”: “Mais Beja” – Beja / João Pedro Caeiro; “Muito Mais Barreiro” – Barreiro (PS); “A diferença necessária” – Loures / João Florindo (CDU); “Sintra pode mais” – Sintra / Pedro Pinto (PSD).
Também encontramos a categoria “GPS”: “Rumo Certo” – Vila Verde / António Vilela (PS); “Virar à esquerda” – Lisboa (BE); “Gaia não pode parar” – V N de Gaia / Carlos Abreu Amorim (PSD); “Um compromisso de mudança” – Póvoa de Varzim / Elvira Ferreira (PS); “Ninguém ficará para trás” – Loulé / Vítor Aleixo (PS); “O rumo natural” – Azambuja / Luís de Sousa (PS); “Oeiras mais à frente” – Oeiras / Paulo Vistas).
Há ainda o grupo das “Folclóricas”: “Orgulho Saloio” – Torres Vedras; “Bem-querer a Abrantes” – Abrantes / Elza Vitório (PSD).
Uma das maiores categorias é a “Haveria de ser para quem? Para os pinguins?”: “Primeiro as pessoas” – Ferreira do Zêzere / Vicente Martins; “Primeiro as pessoas” – Ponte de Lima / Jorge Silva (PS); “Com as pessoas” – Torres Novas (BE); “As pessoas primeiro” – Guimarães / André Lima (PSD); “Por Baião, pelas pessoas” – Baião / José Carlos Póvoas (PSD); “As pessoas sempre em primeiro lugar” – Arronches / Ermelinda Carvalho (PSD).
Esta recorrência já cansa…
Destaque também para a categoria “Maya e as Cartas do Tarot”: “Semear o Futuro” – Mafra / Elísio Summavielle (PS); “Muda de Futuro” – Vizela (BE); “O Futuro depende de nós” – Guarda / Álvaro Amaro (PSD-CDS); “Mudar o Presente. Construir o Futuro” – Elvas (BE); “Desenhar um novo futuro” – Lisboa (PS).
Há a categoria “Rural”: “Juntos pela terra” – Resende / Jaime Alves; “Pela nossa terra” – Moncorvo / José Aires (PS); “Mais e melhor para a nossa terra” – Caminha / Miguel Alves (PS); “Amar a Terra” – Almeirim / Manuel Sebastião (PSD-CDS); “Vive Oliveira” – Oliveira do Bairro (PSD).
E outra categoria interessante é de “Domingo de Páscoa, Dia de Ressurreição”: “Trazer Almada de volta” – Almada / Fernando Sousa (CDS); “Dar mais vida a Tarouca” – Tarouca.
Há também a “Sensorial”: “Fazer ouvir o Porto” – Porto / Manuel Pizarro (PS); “Sentir Lisboa” – Lisboa / Fernando Seara (PSD-CDS); Dar voz e lutar pela Costa” – Costa de Caparica / Jorge Almeida (PSD).
Tudo à molhada” é outra categoria: “Juntos avançamos” – Lagos (PS); “Todos juntos pelo nosso concelho” – Nisa / Idalina Trindade (PS); “Todos somos Fafe” – Fafe.
Em algumas situações dá ideia de que foram aproveitadas campanhas publicitárias de outras áreas. A falta de orçamento dos partidos ou de criatividade das agências poderão ser a explicação. Da área de hotelaria: “Fazer bem. Servir melhor” – Rio Maior / Carlos Nazaré (PS); da promoção de lixívia: “Soluções claras para Torres Vedras” – Torres Vedras (CDS); do xarope para a tosse: “Faz bem” – Almada / Joaquim Judas (CDU); e de empresas prestadoras de serviços de limpeza doméstica: “Arrumámos a casa” – Beja / Jorge Pulido Valente (PS).
Destaco ainda um outro conjunto de categorias mais pequenas:
- “E quem é que tu pensas que és?”: “Serei um de vós” – Matosinhos / António Parada (PS);
- “Oh pá, assim também eu”: “Em Lisboa com os dois pés” – Lisboa / Fernando Seara (PSD-CDS);
- “Podemos contar com uns favorzinhos?”: “Um amigo na Presidência” – Campo Maior / Ricardo Pinheiro (PS);
- “Big Brother”: “Porque te conheço” – Paredes de Coura / Décio Guerreiro (PSD);
- “Ecológicas”: “Novo ciclo. Nova energia” – Vila Real / António Carvalho (PSD);
- “Oh rapaz, o que é que queres dizer com isso?”: “Sentir local. Pensar Nacional” – Alcobaça / Pais do Amaral (PNR);
- “Halterofilia”: “Almada tem Força” – Almada / Joaquim Barbosa (PS).
E agora… é só escolher.
Não está fácil.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Náufragos

Tem um não sei quê de campo
Esse olhar tão cheio de vida com que envolves as palavras
Urze, esteva, giesta…
Um sonho imenso
A festa
E a alma toda aqui presente
Na bênção da verdade
Que é privilégio de ouro oferecido ao teu falar

Então
Prendo-me a ti
Inteiro
E na mais pura fidelidade a mim
Nesse instante em que os meus braços
Bebem da força do granito que herdaste nos teus

Este momento sabe a paraíso
Soa a eternidade
E tem raízes na imbatível força de um destino

Eu e tu
Eternos heróis do campo
Os dois aqui num só
Olhando o mar
Cúmplices das ondas no cumprir de um eterno beijo dado à terra

Eu e tu
Náufragos arrastados pelo sonho
À mágica ternura de um beijo

Num só gesto
A vida toda

A poesia
Nós
O infinito… e tanto te amar

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Rio de Onor

Há uma ponte feita de granito onde animadamente está à conversa um grupo de quatro pessoas. Não sei se falam Português, Castelhano ou ambas as línguas entrelaçadas numa língua única tornada a sua própria língua. Tão pouco sei se habitam em Rihonor de Castilla ou Rio de Onor, terra Portuguesa do Distrito de Bragança, a terra que busco na minha viagem e no cumprir de um sonho de muitos anos.
As duas localidades, indecifráveis pelo olhar, são afinal uma terra sem fronteiras povoada por gente que vive em comunidade na partilha dos fornos, da terra e dos rebanhos.
Um raro e indiscutível “Património Afectivo da Humanidade” algures na estrada estreita que entre pinheiros cruza as montanhas e percorre a distância entre dois países e duas cidades, Puebla de Sanabria e Bragança.
Os Homens, quando são assim grandes, vivem na incompatibilidade das fronteiras e alinham os seus dias pela simplicidade e generosidade, suprema inteligência que faz anular o individual para que brote a força e o poder do colectivo.
Chego, e quero muito respirar Rio de Onor.
Percorro as ruas delineadas pelas casas simples que em baixo alojam os animais e por cima, os Homens que acodem ao balcão de madeira ao sentirem o passo dos forasteiros.
E sorriem sempre, não poupando nunca nas palavras para que verdadeiramente nos sintamos acolhidos e em casa.
Junto à igreja há quatro mulheres sentadas na soleira de uma porta. Sorrio-lhes, digo boa tarde e recebo a resposta da que aparenta mais idade e se faz porta-voz do grupo:
- Boa tarde e que o Senhor o proteja.
A suprema fé dos simples e a minha bênção por estar aqui.
O relógio da torre tem a hora Espanhola mas alinha as badaladas pelo Portuguesíssimo Avé de Fátima. Detalhes de uma terra em que nada divide e tudo serve para criar comunidade.
São sete horas, é Agosto, os emigrantes regressaram e na margem do rio, a mesa já está posta para a gente que vai chegando e trazendo os pratos de comida e os garrafões de vinho.
A noite será de festa e a comida, percebo pelo cheiro, conseguiu roubar os aromas a todas as ervas da Serra.
Desde aqui e até ao café que vislumbrei à esquina, apenas vejo duas mulheres à conversa enquanto lavam a roupa no lavadouro comunitário que tem as pedras colocadas frente-a-frente numa arquitectónica imitação da vida de toda a gente…e um casal que toma banho no rio.
Entro no café e peço à senhora que me atende que me sirva a bebida mais típica de Rio de Onor, aquela que deverá tomar uma pessoa que está aqui a concretizar um desejo de há muito.
Serve-me uma aguardente caseira que nos embala à conversa até que chegam os hóspedes que vão pernoitar na pensão anexa ao café e ela se despede para lhes indicar o quarto.  
Regresso ao carro e faço-me de volta à estrada a caminho de Bragança.
O GPS contraria a placa que indica o caminho e por isso paro e peço ajuda a um homem que passa por ali a empurrar um carro de mão carregado de lenha. Ele pára, sorri e dá-me todas as indicações, sem pressas e naquele jeito de querer ficar todo o tempo do mundo à conversa comigo.
Estamos em frente à porta do cemitério mas o que me chama a atenção por rimar verdadeiramente com o olhar vivo do meu interlocutor, é uma amoreira gigante de onde literalmente “chovem” frutos maduros.
E a árvore é a cúmplice perfeita deste homem que para mim não tem nome mas que tem o olhar e as palavras de um amigo.
Um homem de Rio de Onor, um sábio e um mestre, um herói da simplicidade e da generosidade de que precisamos para nos tornarmos maiores.
Voltarei para pernoitar e sentir o luar de Rio de Onor.

sábado, 24 de agosto de 2013

Ora et labora

Escrevo junto à pequena janela com portadas de madeira de onde avisto o Rio Sella e lá ao fundo uma enorme montanha verde. Estou alojado na Abadia de San Pedro de Villanueva, perto de Cangas de Onís, nos Picos da Europa.
Fui muito bem recebido pelos seis monges que habitam este lugar e que seguem a regra de São Bento, “Ora et Labora”, e que nem falar podem. É mesmo só: orar e trabalhar.
Sou peregrino, sigo para o Santuário de Covadonga e em troca do meu trabalho dão-me por estes dias, esta pequena cela onde posso dormir, e também um prato de comida que é quase sempre feijão e que é preparado pelo monge de serviço à cozinha durante este mês.
Tomamos banho na água gelada do rio e para “pequenas lavagens”, temos um poço que bebe da água do rio e que está aqui mesmo ao lado da cela.
O sino toca muito cedo para as orações da manhã que partilho com os monges na igreja que em relevo e na fachada tem animais e Homens em poses que salientam o falo e a sua utilização demasiado carnal e “imprópria”, lembrando tudo aquilo que não pode ser feito aqui dentro. A castidade é uma imposição e quem pratica semelhantes actos fica fora da igreja e da “salvação”.
A vida por aqui é simples e demasiado previsível. Talvez amanhã possa fazer algo de diferente e ir até ao rio tentar pescar algum peixe.
Já me avisaram para não me afastar muito do mosteiro pois há ursos nas montanhas e corro o risco de ser atacado.
Tivesse eu escrito este texto no Século XII e os parágrafos anteriores fariam sentido. Hoje poderiam ser o mote para uma sequela de “O Nome da Rosa” com nova convocatória para o Sean Connery ou o F. Murray Abraham e foram muito possivelmente o mote para vocês por instantes pensarem que eu tinha enlouquecido.
Puro exercício de imaginação enquanto olho efectivamente o rio e a montanha a partir da janela de portadas de madeira… mas do quarto que me alocaram no Parador histórico onde hoje me instalei e do qual tentei conhecer um pouco a história.
Entrei pela mesma porta de todos os visitantes, de agora e de antes, mas ninguém se interessou pelo trabalho que eu pudesse acrescentar ao dia-a-dia do convento. Mostrei o Cartão de Crédito e… livre acesso.
Sinais dos tempos… o crédito bateu o trabalho por goleada.
A comida é óptima, hipercalórica e preparada por especialistas que sendo espanhóis compuseram um pouco as regras e substituíram o “Ora et labora” pelo “Disputatio et labora”. Falar é definitivamente algo que não podem deixar de fazer, e ainda por cima num tom muito alto.
Nem eles e nem eu.
Mas o feijão segue nas ementas e a “fabadas” são excelentes acompanhadas pela cidra.
A oração também já não impera até porque os sinos da torre já não tocam e não podem ser reparados pois há uma comunidade de morcegos que habitam a torre e que estando em vias de extinção não podem ser incomodados.
Também já não há ursos nas montanhas. Alguém deveria ter tido o cuidado que hoje temos com os morcegos.
Cada quarto tem uma casa de banho com águas correntes quentes e frias e não há limitações para as lavagens. O cheiro nas áreas comuns atesta que a “malta” é asseada.
E quanto à castidade?
Juntamente com a presunção e a água benta, fica ao gosto de cada um “tomar” a que quer na sua respectiva intimidade.
Mas com as anunciadas promoções de banquetes para pedidos de casamento, bodas e baptizados, sinceramente não me parece que o Parador esteja interessado comercialmente num excesso de castidade que lhe retire mercado.
E assim se passou o penúltimo dia de férias antes do regresso à pátria.
Portugal, esse imenso “mosteiro” onde São Bento também dita as normas, neste caso não verdadeiramente o santo, mas sim o palácio onde tem assento o Primeiro-Ministro e tem sede o Parlamento.
A regra é um pouco diferente e será qualquer coisa como “labora et ora” ao jeito de “trabalha e reza para que ele não te falte”, à qual se associa obviamente a do “come e cala” que também existia por aqui.
Castidade existe pouca no… “lixar” do povo, e um passo em falso é exposição ao risco do ataque dos “ursos”.
Pensando melhor, o Século XII não está assim tão longe a há algo de medieval no Portugal da Troika.
Venham então mais férias…

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Astúrias

As montanhas são mãos da terra erguidas ao céu, salmos de seiva e verde, hinos, o canto das horas, de todas as horas, num incessante preito de louvor a Deus.
E são perfeitas estas mãos, assim tocando e bebendo do infinito, osmose de paraíso numa bênção, a fertilidade, que é milagre de vida sentido em cada fruto, em cada pão.
Junto à raiz da montanha, há um rio que corre lento mas seguro, paralelo à estrada por onde eu sigo. Eu, por estes momentos, tornado assim secreto cúmplice do murmúrio que é mote de paz, soluçado rosário das águas cristalinas.
Lá longe, no pico que se debruça sobre o mar e onde aqui e ali se rasga uma clareira para que cresça o pasto que alimenta o rebanho, celta se faz o toque de uma gaita na herança de um pastor que céu e mar carrega no azul dos seus olhos… e a bravura no coração que domina a terra.
As mãos, essas, tatuadas a trabalho, entregam-se heróicas ao doce e perpétuo acariciar da fertilidade da terra.
Com cidra brindaremos de aqui a pouco, quando o sol se for para lá no horizonte deixando por sobre nós o brilho intenso de infinitas estrelas e nos encontrarmos no recanto de uma tasca que ilumina as casas que o campanário à volta de si semeou junto ao rio.
Casas simples mas todas coroadas pela madeira de um balcão debruado a rubras flores.
É a hora do amor na noite de todas as histórias, da magia, do paraíso, de tudo, dos abraços, das palavras que carregam a esperança, e para mim… de todas as lembranças de ti.
Um dia, contigo e pelo sonho, subirei por estas montanhas seguindo sempre o rasto celta do canto do pastor, galgando horizontes nesse voo de vida de quem foge para se poder encontrar a si mesmo, monges do amor na clausura do mundo que restitui a verdade à alma.
E mesmo que falhem as forças ou o alento para chegar ao pico que toca o céu, pouco me importarei, estás comigo, e o paraíso, irei “bebe-lo” algures, seja onde for, mas sempre na perfeição maior do teu olhar, também ele grande e celta como o do pastor.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Finisterra

São sinuosos os últimos metros do caminho.
Do lado esquerdo da estrada e ao fim da escarpa íngreme, o Atlântico revela-se em matizes de cinza, morto o azul pelas nuvens que neste dia de Agosto nos querem impor a chuva. Aqui e ali, o sol aproveitou a fragilidade das nuvens, e é de prata, o rendilhado que os seus raios oferecem à água.
E a água nunca resiste às rochas e sempre se desfaz em branca espuma contra todas as que sustentam a ponta de terra que sustenta o farol.
Não há gaivotas, há corvos em constante voo negro por cima de nós e por entre as cruzes de pedra e as lápides que temperam de misticismo este lugar.
A bravura do mar perante as limitações do Homem impôs o nome “da Morte” a esta Costa onde a salvação deu à Virgem o natural título “da Barca”.
Acreditou o Homem, por ler na Via Láctea, que este sítio era o Fim do Mundo, o Fim da Terra, Finisterra, e aqui marcou o quilómetro zero do único Caminho de Santiago que não termina no túmulo do Apóstolo, tendo lá um inédito ponto de partida.
O que são afinal a morte e o fim, se não apenas e só, explicações simplistas do Homem rendido às suas limitações, aquelas a que o tempo se encarregará sempre de pôr o rótulo de ridículas.
A via crucis acabou num túmulo vazio e este mar que parecia o fim, é afinal o princípio de um novo mundo. A pedra da morte é tão-só o cais de embarque de todas as esperanças.
Neste final de tarde, a brisa que vem do mar é fresca, abraça-nos e dá-nos um alento suplementar na caminhada quando abandonamos o farol para o reencontro com as nossas vidas.
E não há nuvens, nem corvos e nem morte que nos façam desacreditar que este quilómetro zero é um tiro de partida.
Quando nós queremos muito e temos fé, até o silêncio que parece a morte, é a oportunidade para o reencontro da memória com todas as eternas palavras doces que um dia fizeram grande, a nossa alma.  
E siga a viagem na legitimidade de todas as esperanças.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

De repente… um telefonema do paraíso

Adão, ainda estás aí?
A maçã? A serpente?
Não venhas de novo com essa história e arranja algo mais original para justificar o facto de andares nu.
O pecado?
Livra-te dele… se puderes.
Quem te mandou inventar as regras ao teu jeito e depois enobrece-las com o meu distinto rótulo de… divinas?
Cansei-me de te acudir.
A cada grito teu de “Valha-me Deus!”, nunca faltei.
E que me fizeste?
Deste-me mil nomes em mil histórias diferentes a que chamaste religiões, e colocaste-me no altar da tua soberba e da tua conveniência para em meu nome e em nome de uma falsa fé, matar-me, matando os outros Homens.
“Pai-nosso” e uma bomba.
A antítese ou o terrível binómio da tua hipocrisia, quando nuclear teria sido apostares na imbatível energia de saber amar.
“Graças a Deus”.
Pára de me chamar constantemente para a festa da vaidade de quase me teres como um exclusivo no patrocínio do teu sucesso.
“Se Deus quiser”.
Terás tu muito a ver com o que eu quero nesse abusivo vincar do teu objectivo como se fosse o meu e o de toda a humanidade.
Cansei-me… e também não te mando mais profetas.
Milagres?
Fá-los tu que para isso, divina te criei e te dei a vida… e o amor.
Reencontra-os, reencontra-te, e depois sim, vem ter comigo.
Esperarei por ti… no paraíso, claro.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Passeio numa noite de verão

Depois da visita a uma esplanada da Praça no período antes do jantar, na companhia da Manuela, e sem que qualquer brisa fresca passasse por ali, eu e o João Paulo não nos demos por vencidos e fomos pela noite de Vila Viçosa procurar o dito sopro que nos aliviasse do dia de calor.
Como sempre subi a Corredoura e encontrei-me com o meu amigo à porta da casa dele naquele pedaço de rua que será sempre mágico para nós pois foi ali que mais brincámos nos tempos em que a D. Joana Ruivo, desde a Livraria Escolar, e o Sr. Domingos, desde a sua loja, nos supervisionavam as actividades lúdicas no passeio em frente ao café do Sr. Cândido.
Lena Pereira, também te recordas? Nestes dias quentes de verão nunca faltavas.
Subimos já juntos até ao canto da Praça reparando que o termómetro da Farmácia Torrinha marcava 32 graus. Nada mal para as 10 da noite.
O canto da D. Catarina era sempre um bom poiso. Parámos.
O sítio está igual mas… não, já não se está bem por ali. A D. Catarina e o Sr. Julião já não estão sentados à porta a dar dois dedos de conversa com a Ana e a Licínia da Farmácia.
Reparamos que há muita gente sentada na Estátua do Henrique Pousão, talvez a brisa tenha subido a Praça. Puro engano, nem ali nem mais acima junto a São Bartolomeu, nada de fresco.
Paramos à esquina da igreja, apreciamos o Castelo visto desde ali e damo-nos tempo para umas valentes gargalhadas com base numa mensagens de telemóvel que tinham chegado entretanto. Modernices… mas gargalhadas era coisa a que estávamos muito habituados naquele sítio quando entre disparates e Jogos sem Fronteiras, brincávamos no quintal da avó do João Paulo ali à esquina da Rua de Santa Luzia.
Fazemo-nos ao Carrascal apreciando o novo hotel Marmorium e aí à porta encontramos o Zé Ganchinho que também anda à procura da brisa fresca mas que vem em sentido contrário. Actualizamos os ficheiros e despedimo-nos com a recomendação do Zé:
- Sigam para o Rossio porque parece que ela, a brisa, quer instalar-se ali.
Seguimos, encontramos uma “multidão” de gente sentada em todos os bancos que parecem estar na sala de espera da brisa fresca que, definitivamente, também não mora ali.
Seguimos sempre lentamente e naquele ritmo de arranca… e pára, quando uma fachada, uma janela ou uma árvore nos dizem qualquer coisa.
Aqui morava a… não te recordas?... aquela que… ah… era tão burra… pudera não ia às aulas e passava a vida no Jardim das Damas.
E mais ali era a loja da… ah pois era… vendia gelados de refresco… e as diarreias que apanhávamos…
Não, a casa da minha avó era só até esta janela… e aqui quem morava?... ah pois era,,, era sapateiro não era?
Damos por nós a virar à Esperança, já na Avenida em frente à Escola das Raparigas e da Árvore do Coração que agora virou rotunda de acesso aos Capuchos.
Mesmo debaixo das laranjeiras não há brisa que se sinta.
Mais uma paragem desta vez imposta pelo Cine-Teatro.
Olha, e quando vínhamos ao cinema e abriam as portas porque estava calor… e de inverno era um gelo de se morrer lá dentro…e o Manuel adormeceu… e o que se chorou quando passaram aqui “O Campeão”…
Continuamos pela Avenida abaixo e até ao lago há gente em todos os bancos e as esplanadas estão cheias de Calipolenses que tendo desistido de procurar a brisa, compram fresco a copo no gelo de uma bebida qualquer.
Paramos junto à Fonte Pequena para concluir a conversa. Eu já cheguei a casa e o João Paulo ainda terá de subir parte da Corredoura para chegar à sua.
As bicas da fonte estão a correr e não fosse cá por coisas e mesmo agora descia os degraus e entregava o pescoço à água de uma das três bicas.
Despedimo-nos e eu entro em casa.
Os meus pais estão às escuras e com as janelas abertas, estão a ver se enganam o tempo e caçam a brisa que… nem vê-la.
Dois dedos de conversa e… cama.
Deixo a janela para o Terreiro do Paço devidamente aberta mas reparo que o cortinado nem só minimamente se agita.
Não tenho sono e entretenho-me no escuro a ouvir o som de uma guitarra e das vozes de um grupo que veio passar o serão até à Estátua do D. João IV. A viola ainda se aguenta mas as vozes… foram elas que por certo espantaram a brisa fresca.
Mas adormeço.
Tranquilo e feliz.
Sou de aqui. Estou em casa. E sem saber, já tinha tantas saudades destas "caças à brisa fresca".
Vila Viçosa, para sempre, a minha casa e a minha gente.
E não só no verão, claro.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O Óleo de Fígado de Bacalhau e a Justiceira de Queluz

Nestes dias quentes de verão em que o sol abrasa aqui pelo Alentejo, o melhor sítio para se estar é sempre o refúgio das nossas casas caiadas que ainda oferecem algumas hipóteses, raras, de um ambiente mais fresco.
Entre as leituras e as escritas, fugimos da televisão por não existir mais poder de encaixe para a música pimba transmitida desde os espaços ajardinados e à sombra, das cidades e vilas por onde passa a Volta a Portugal em Bicicleta, e dá-se uma espreitadela aos jornais para não se perder de todo o contacto com o mundo.
E assim, neste fim-de-semana que passou, bem poderemos dizer que ficou marcado definitivamente pelo Óleo de Fígado de Bacalhau e pela Justiceira de Queluz.
Passo a explicar.
Não gosto do Jorge Jesus, e nunca gostei. Não lhe aprecio a pose, a arrogância e a sobranceria de quem nunca se engana e de quem nunca assume os erros, atribuindo sempre a culpa das derrotas à má sorte ou à má vontade dos árbitros.
A mesma sobranceria de se colar por mérito aos momentos de manifesta sorte ou aos benefícios colhidos das arbitragens.
Treinador do meu Benfica há já quatro anos, eu tenho com ele a mesma relação que tenho com o Óleo de Fígado de Bacalhau. É detestável, sabe horrivelmente e só se tolera se da sua utilização virmos surgir algum proveito. No caso do Jorge Jesus, algumas vitórias, que como não surgem devem levar automaticamente à suspensão da terapêutica.
Venha de lá o Tonosol, o Vi-Dailin, o Calcigenol, a Viterra ou algo que possa fazer o mesmo efeito sem tão desagradável sabor.
E depois, há a Justiceira de Queluz.
Numa entrevista a um milionário tatuado e cheio de jóias, algo parecido a uma versão masculina de Pepa Xavier mas com posses para comprar carteiras Chanel de todas as cores… e não só a preta que dá com tudo, Judite de Sousa ultrapassa largamente as suas funções de entrevistadora, e faz de uma forma demasiado explicita, um julgamento público do dito senhor, tendo por base a moral e o bom senso no contexto actual de crise em que vivemos.
Depois de todos sabermos que esta senhora ganha por mês perto de 30 mil Euros, de a termos visto há uma semana em directo a trocar presentes e a receber línguas de gato do Prof. Rebelo de Sousa, e sobretudo, depois de termos visto a forma como expos a sua vida privada e afectiva nas capas das principais revistas cor-de-rosa da última semana, reconheçamos que a sua legitimidade para julgar Lorenzo Carvalho é igual à que eu tenho para dar um concerto de jazz no Coliseu dos Recreios.
Repito, não é que como jornalista alguma vez a tivesse, mas assim, muito menos.
E pode parecer que Judite de Sousa para além das madeixas louras nada tem a ver com Jorge Jesus, perspectivando-se um conjunto vazio na intercepção ocorrida este fim-de-semana entre o Óleo de Fígado de Bacalhau e a Justiceira de Queluz (que Kit só deve ter o de maquilhagem).
Mas eu acho que há algo em comum e que infelizmente envolve outras pessoas que nos marcam negativamente os fins-de-semana e todos os dias, é a noção de poder bacoco que o dinheiro e o mediatismo, reunidos nessa inflamação social chamada novo-riquismo, oferecem a quem não tem escrúpulos, ou pelo menos bom senso.
E seguem quentes os dias… e eu procurando refrescar-me.

O verão mata sempre a neve da serra

Decorria o ano de 1986 e acreditávamos estar a celebrar o 2000º aniversário de Nossa Senhora.
Como sempre acontecia, iríamos participar em Fátima no Encontro Animação Nacional dos Convívios Fraternos, algures num fim-de-semana de Setembro, e nesse ano estávamos encarregues da preparação de uma Celebração da Palavra que iria decorrer no Centro Paulo VI e em que no final cantaríamos os parabéns a Maria. Para tal idealizámos quatro velas gigantes contendo cada uma, um algarismo, que ao jeito das congéneres dos bolos de aniversário subiriam ao palco pela mão de quatro amigos.
Eu e o Manuel investimos largas tardes das nossas férias na construção das ditas velas que preparámos com uma base de esferovite forrada com papel de cenário pintado com os tons de uma vela real de cera e a respectiva chama acesa. No sótão da D. Catarina, entre tintas, colas e sobretudo muita conversa, aproveitámos por fazer sauna e suar por efeito dos quarenta graus do Alentejo ampliados naquele andar, “o primeiro a contar vindo do céu”.
Na véspera da partida pedimos ao avô do Paulo Quinteiro, proprietário da loja Singer, uma caixa de um frigorífico e acondicionámos as ditas velas que na manhã do “embarque” foram colocadas no tejadilho do autocarro que enchíamos sempre com cerca de 50 pessoas, onde se incluíam os nossos familiares. Para quem convive com os recentes autocarros da Rede Expresso talvez não seja desperdício recordar que os desse tempo levavam as mercadorias no tejadilho cobertas por uma rede, sendo fácil a subida ao topo do autocarro através de uma escada situada na traseira do mesmo.
A viagem decorreu normalmente, pelo menos no interior do autocarro, mas na paragem em Abrantes para o pequeno-almoço, feita uma verificação às velas, verificámos com surpresa que elas tinham voado e que algures entre Estremoz, Avis ou Ponte de Sôr, poderia haver sobreiros enfeitados a celebrar os dois mil anos da Virgem.
Restava a caixa do frigorífico tristemente vazia.
Mas, teria de haver velas, e por isso não perdemos tempo e logo em Abrantes procurámos uma papelaria e comprámos papel de lustro de várias cores e colas.
Na paragem seguinte, em Tomar, na zona do jardim, ninguém se dispersou, subimos ao coreto e com a ajuda das cinquenta pessoas do autocarro, motorista incluído, construímos quatro velas que tinham por base as faces de cartão da caixa do frigorífico, onde colámos o papel de lustro recortado com a ajuda das tesouras que as senhoras tinham na mala e os canivetes que os homens transportavam no bolso.
Foram estas velas, magníficas, que subiram com êxito ao palco do Centro Paulo VI nessa tarde de sábado perante milhares de pessoas.
Esta história que hoje vos conto aqui é revisitada inúmeras vezes com emoção quando nos juntamos à mesa do café, nesse grupo de amigos que mantemos eterno e à dimensão das nossas vidas.
Nunca saberemos explicar como as velas romperam a rede do autocarro enquanto ele cruzava a planície, mas sabemos que esse “infortúnio” nos proporcionou um raro momento de união e a demonstração prática de como essa união nos conduziu por entre as dificuldades até à concretização do nosso objectivo.
É sempre assim.
E a pobre caixa vazia do frigorifico que tinha o destino do lixo e com a qual nos quedámos foi afinal o suporte para que a obra acontecesse.
Tantas vezes nos sentimos assim, perdidos e na companhia de um quase nada que afinal pode ser tudo.
O verão mata sempre a neve da serra mas dessa morte surge a água fresca que nos dá alento para caminhar até ao topo seguindo a rota da fidelidade aos nossos sonhos.
Desde aí de cima, vistos do espaço da nossa realização e da nossa felicidade, tudo o que o tempo foi deixando para trás e todos aqueles que se foram auto-excluindo das nossas vidas, têm a ridícula dimensão de pedaços muito pequenos, parágrafos irrelevantes da nossa história de sucesso.
Com fé, garra e com os verdadeiros amigos, o pouco que pode parecer que nos resta será sempre tudo o que precisamos para o sublime prazer de afirmar: consegui!

domingo, 18 de agosto de 2013

Trás-os-Montes

É o mesmo sol que conheço de cor do Alentejo, este de brilho intenso e com a força de um imenso braseiro, que abençoa de luz o olhar na hora em que subo ao Castelo de Montalegre.
Pedra sobre pedra, o Homem, forte e cúmplice do granito, acrescentou metros à altitude já de si majestosa do monte, e assim por certo cruzou o quilómetro, abrindo uma janela única para as terras de Espanha, fortaleza para as terras de Portugal, que essas sim são nossas, e mais do que tudo, importa defendê-las.
E a neve do inverno é hoje tão-só uma breve recordação, e simultaneamente uma promessa que o tempo irá cumprir depois de aliviados os ouriços ainda verdes dos milhares de castanheiros que nos servem de caminho desde aqui e até Vilar de Perdizes.
Hoje, a magia não anda oculta por terras do Padre Fontes.
Não é sexta-feira dia 13, é 15 de Agosto, e a banda lá longe no terreiro já afina instrumentos e dá os primeiros acordes para a festa da Senhora, que nesta terra só poderia ser da Saúde. Os sinos alinham o som com a banda e com a música dos quiosques das comidas e bebidas, e dos carrosséis, que as festas da alma são sempre melhores assim, quando não descuramos nenhum dos mais ínfimos prazeres do nosso corpo.
A rota leva-me até Chaves e depois Vila Real, e a paz que a terra transparece, a beleza da paisagem que cativa o olhar, são mais do que mezinhas ou chás patrocinados pelo saber milenar que passou de boca em boca, são eficazes vacinas ou remédios para todos os males, que nenhum há que chegue ou se manifeste enquanto estamos aqui.
Sei que mais abaixo está o Rio Douro, mágica estrada de água até ao mar, depois de milhares de socalcos, degraus preenchidos de cepas e vinho, que quero descer com o olhar como o fez Miguel Torga desde São Lourenço de Galafura.
Mas há muito que o horizonte se nota turvo e não é só pela força do sol e do calor que o astro-rei impõe à terra.
A serra arde e o fumo cinza e negro que sobe ao céu é algo semelhante ao triste repicar dos sinos na morte do campo às mãos do Homem, do seu descuido ou da sua mais perversa ambição que não tem limites.
A estrada para a Régua está cortada no exacto ponto onde uma pequena multidão desespera por novas dos seus bens que abandonaram ao fogo e ao cuidado heróico dos bombeiros, reais santos dos nossos dias nascidos do despojamento total de si mesmos.
O fogo que mata o campo e fere de morte as vidas da gente na agonia deste dia quente, matou hoje, como mata sempre, a poesia, e para mim, Torga e Galafura continuarão como um projecto a cumprir nos dias do futuro.
E talvez a vida tenha reservado para mim algo de muito especial quando o miradouro estiver disponível para o meu primeiro olhar.
Talvez um beijo…
É preciso fazer justiça ao campo e imitarmos-lhe a esperança.
Em breve virá a neve e depois dela nascerão flores na primavera.
Sigamos firmes por ela com a perseverança da terra de Trás-os-Montes, senhora eterna que nunca se deixará morrer.

sábado, 17 de agosto de 2013

Partir

Partiste
Sem a palavra
Sem o gesto
De um fugaz adeus

Atrás de ti
O silêncio
O eco do vazio
Impera por sobre a estrada
Negra
Triste
Com intenso tom de fado e de saudade

Foi breve
Muito breve
A festa de te ter aqui

E hesito
Sonho?
Realidade?
O que foram afinal as horas
Raras
Do amor que então vivi

Desistir?
Jamais

Desistir seria matar-me a mim

E a minha esperança?
Tem a cor da esteva que bordeja a estrada

E o meu destino?
Floresce na fidelidade ao horizonte

Por ele um dia romperás
Cúmplice do sol
Da luz
Na magia
De um alegre despertar

Perfeita
Será a bênção dessa hora
Feita dos passos do teu regresso aqui
A mim
Aos meus braços
Ao meu olhar

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Um herói muito próximo de nós

Hoje, dia 16 de Agosto é feriado municipal em Vila Viçosa. Comemoramos o nascimento de um médico nosso conterrâneo, o Dr. João Couto Jardim.
Numa terra que foi berço do Rei Restaurador, D. João IV, de uma rainha de Inglaterra que até ensinou os súbditos a comer de garfo e faca, deixando-lhes ainda o hábito do chá das cinco, uma terra que guarda a imagem de Nossa Senhora da Conceição coroada por D. João IV em 1646 no momento que marcou o fim da colocação da coroa na cabeça de qualquer monarca da nação, a terra onde nasceram Florbela Espanca e Henrique Pousão… poderá parecer estranho que o feriado municipal incida sobre uma personalidade com uma expressão apenas local e por certo desconhecida das pessoas que não sejam de Vila Viçosa ou que lá não residam.
O Dr. João Couto Jardim, filho de uma família oriunda da Ilha da Madeira mas já nascido em Vila Viçosa, faleceu poucos anos antes de eu ter nascido, mas tal não impediu que eu tivesse desde sempre convivido com a sua história em episódios contados pelos meus pais e os meus avós.
Feito herói pelo povo a quem serviu, nele transparece a simplicidade de um homem a quem oferecem um carro e o trocou por um aparelho de Raio X para o Hospital da Misericórdia, a generosidade de não cobrar consultas a quem não as podia pagar, atendendo a todos da mesma forma, a competência com que exercia a sua profissão tendo por base um rigor e uma constante actualização de conhecimentos.
Um verdadeiro príncipe da medicina, Homem maior porque pela sua vida deu vida a milhares de outras pessoas.
E são inúmeros os exemplos e as histórias…
A minha tia-avó Joaquina, na altura rapariga adolescente, adoeceu com uma apendicite e não havia tempo nem dinheiro para a deslocar para qualquer hospital onde pudesse ser submetida à necessária intervenção cirúrgica. Ele fê-la com os poucos meios que tinha no Hospital de Vila Viçosa, e ela, que morreu com 86 anos em 2002, muitas vezes me contou esta “aventura”.
A mãe de uma família muito numerosa, pessoa que eu ainda conheci pessoalmente e mulher com poucos recursos, reuniu o que tinha e o que não tinha e nas vésperas de Natal foi oferecer uma galinha viva ao Dr. Jardim, agradecendo os seus cuidados. Ele aceitou-a. Mandou a empregada preparar e cozinhar a galinha, e na véspera de Natal mandou entregar a iguaria na casa desta família juntamente com uma quantia em dinheiro.
E até eu que nunca o conheci, muitas vezes tratei a tosse com um xarope que era vendido avulso na Farmácia Monte, e a que carinhosamente chamávamos o “Xarope do Dr. Jardim”, preparado com base numa receita por ele arquitectada. Como farmacêutico bem gostaria eu de conhecer hoje tal segredo.
A casa onde viveu legou-a por morte à Santa Casa da Misericórdia de Vila Viçosa e ainda é hoje um Lar para raparigas.
Por tudo isto, e muito mais vos poderia contar, deixem-me que vos diga que é para mim um enormíssimo orgulho que o feriado municipal da minha terra seja comemorado no dia do nascimento deste Homem.
Melhor data seria impossível de encontrar, mesmo que outra qualquer se referisse a uma personalidade ou acontecimento mais de âmbito nacional.
Um herói da generosidade por sobre os heróis da história e da fé… ou na fosse a generosidade uma expressão da fé usada para a construção de uma história maior.
Esta é a data ideal, em primeiro lugar obviamente pela excelência da pessoa em causa, e depois porque em termos temporais o Dr. Jardim é um homem muito próximo de todos, é um herói que se cruzou com as histórias de muitos de nós, e essa proximidade bem poderá ser uma inspiração mais efectiva para todos num tempo que bem precisa dela.
Um mote “contemporâneo” para nos fazer maiores em generosidade e em humanidade.
E porque vos falo de conterrâneos que me orgulham e hoje é o dia da minha terra, permitam-me ainda que saúde a criação recente da Casa Museu Bento de Jesus Caraça, uma iniciativa excelente da Câmara Municipal de Vila Viçosa e da Fundação da Casa de Bragança, no edifício do Pátio das Chagas onde nasceu um Calipolense brilhante de quem se diz ter sido o intelectual anti-fascista mais temido por Salazar.
Que a casa dê muitos e bons frutos.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Abraço

Subtrais de mim a saudade
Sempre que chegas assim
Sorrindo
Por entre as flores do campo

Déjà vu
Se tanto galopei pelos sonhos
Querendo-te aqui

O beijo sufoca as palavras
E são as mãos que soletram: amor
Ao primeiro toque da tua pele
O prefácio
Da infinita festa de um abraço

O olhar está suavemente cerrado
Fechou-se no instante à seguir à bênção do teu
E
Tendo-te aqui
Nada mais importa ver

Afinal…
Tenho o mundo todo nos meus braços

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O choro da gente nos dias do dilúvio

É o silêncio que nos acompanha quando desde Campo do Gerês descemos até à Barragem. O lago, que nasceu por imposição da gigantesca parede de betão, é enorme, num elevado e grotesco contraste de azul com as altas montanhas de granito, mas a água, percebemo-lo, não pertence ali ao vale de Vilarinho das Furnas.
É segunda-feira, dia 12 de Agosto de 2013, faz hoje precisamente 106 anos que nasceu o grande Miguel Torga.
Assinalo a curiosidade quando já no regresso a Campo de Gerês entro no museu que guarda a memória da aldeia submersa em 1972, uma feliz “Arca de Noé” instalada pela Câmara de Terras do Bouro, porque é pelo privilégio das palavras do escritor que ficamos a conhecer a vida numa terra com uma organização e uma perspectiva única de comunidade e de partilha, gente simples, pastores na maioria, Homens detentores da suprema inteligência de quem é simultaneamente simples e generoso, gente que se dispersou pelos concelhos vizinhos quando em nome do desenvolvimento, a água chegou e lhes roubou o espaço das suas vidas, condenando-o à companhia do tempo passado, na exclusividade da memória.
E as geniais palavras de Torga, eterno escritor da terra e das gentes, fazem justiça a essa memória e têm o som do grito e do choro abafado de um povo.
Há alguns anos, em viagem pela zona de Mourão, resolvi ir conhecer a “nova” Aldeia da Luz que estava a ser construída para daí a pouco tempo receber os seus habitantes, pessoas que o lago criado pela Barragem do Alqueva iria obrigar a abandonar a parcela da planície que desde sempre tinha sido a das suas vidas.
Dali à “velha” Aldeia era um salto, e naturalmente senti o apelo do confronto com o espaço novo que acabava de ver. A água tinha já cortado a estrada que ligava a aldeia à igreja, os mortos já tinham ido à frente dos vivos abençoar a “nova terra” e a mudança dali estaria iminente.
Não esquecerei jamais a dimensão de tristeza no olhar das pessoas com quem me cruzei.
Fiz inversão de marcha e rapidamente fugi dali no impulso do desconforto de estar a invadir a privacidade de alguém no instante de uma dolorosa agonia. Porque, vê morrer muito de si, aquele a quem roubam a terra e a sua história.
Os “meus” olhares da Aldeia da Luz e as sábias palavras de Torga sobre Vilarinho das Furnas são afinal expressões da mesma tristeza. E o escritor foi como sempre, um mestre de palavras.
O mundo tem de avançar e o desenvolvimento é uma imposição e uma obrigação da inteligência do Homem que legitimamente procura a melhoria da sua qualidade de vida. Mas o desenvolvimento só faz sentido se for concretizado na garantia do respeito pelos valores do próprio Homem e de toda a natureza, da qual ele é apenas e só, mais um elemento.
Passos em frente por conveniência de ordem financeira, mas dados por sobre a negação do próprio Homem, da sua vida e da sua história, não são avanços, são mortes na queda de um abismo, cortes abruptos e inaceitáveis na história da humanidade.
Serão sempre etapas negras de uma patrocinada morte da Terra, o silêncio sobreposto às vozes e ao canto da natureza.