quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Finisterra

São sinuosos os últimos metros do caminho.
Do lado esquerdo da estrada e ao fim da escarpa íngreme, o Atlântico revela-se em matizes de cinza, morto o azul pelas nuvens que neste dia de Agosto nos querem impor a chuva. Aqui e ali, o sol aproveitou a fragilidade das nuvens, e é de prata, o rendilhado que os seus raios oferecem à água.
E a água nunca resiste às rochas e sempre se desfaz em branca espuma contra todas as que sustentam a ponta de terra que sustenta o farol.
Não há gaivotas, há corvos em constante voo negro por cima de nós e por entre as cruzes de pedra e as lápides que temperam de misticismo este lugar.
A bravura do mar perante as limitações do Homem impôs o nome “da Morte” a esta Costa onde a salvação deu à Virgem o natural título “da Barca”.
Acreditou o Homem, por ler na Via Láctea, que este sítio era o Fim do Mundo, o Fim da Terra, Finisterra, e aqui marcou o quilómetro zero do único Caminho de Santiago que não termina no túmulo do Apóstolo, tendo lá um inédito ponto de partida.
O que são afinal a morte e o fim, se não apenas e só, explicações simplistas do Homem rendido às suas limitações, aquelas a que o tempo se encarregará sempre de pôr o rótulo de ridículas.
A via crucis acabou num túmulo vazio e este mar que parecia o fim, é afinal o princípio de um novo mundo. A pedra da morte é tão-só o cais de embarque de todas as esperanças.
Neste final de tarde, a brisa que vem do mar é fresca, abraça-nos e dá-nos um alento suplementar na caminhada quando abandonamos o farol para o reencontro com as nossas vidas.
E não há nuvens, nem corvos e nem morte que nos façam desacreditar que este quilómetro zero é um tiro de partida.
Quando nós queremos muito e temos fé, até o silêncio que parece a morte, é a oportunidade para o reencontro da memória com todas as eternas palavras doces que um dia fizeram grande, a nossa alma.  
E siga a viagem na legitimidade de todas as esperanças.

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