quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Gerês

A água corre incessante na ribeira, e do inevitável encontro com as pedras do seu caminho, infinitas em número e dimensão, lhe nasce o soluço que na quietude deste lugar se associa ao canto dos pássaros para a harmonia de um som mágico e exclusivo.
É a música que nos embala no lento caminhar paralelo a esta estrada de água, vendo-a sempre correr de encontro a nós por entre as margens onde há fetos e hortelã, detendo-se aqui e ali em pequenos lagos onde habitam peixes irrequietos e vestidos de todas as cores.
O céu apenas se imagina para lá do tecto verde e de folhas que a frondosa copa das árvores construiu por sobre nós, as árvores cujo tronco jamais conseguiremos abraçar, tantos os séculos de nobreza que o tempo acrescentou à sua idade.
O céu e o sol dispensados pelo olhar mas presentes pela denúncia feita por semelhante concentração de vida no privilégio desta terra.
Há uma pedra onde me sento, pedaço de granito que a ausência de musgo e trevos, denuncia carregar em si o fado de ser repouso, descanso e bênção para os caminhantes.
Quantos antes de mim o terão feito, recuperando fôlego para seguir rota até à Abadia, igreja construída pela fé dos Homens no cimo da montanha de verde e granito, pleonasmo de Deus num local que soletra o Seu nome em cada instante e a cada imagem.
Sentado, respiro fundo com a sofreguidão de beber de um só trago, o ar, e todos os mágicos e indecifráveis aromas deste local.
Fecho os olhos, puxo-te até mim pelas lembranças, essas tantas que nunca falham e que à boleia do amor me trazem também o céu pelo intenso azul do teu olhar, bênção de outras serras.
Acaricio a barba ao ritmo dos pensamentos, apoiando o rosto nas minhas próprias mãos, firmes que estão os cotovelos apoiados nos joelhos, e os pés numa terra que tem cor de vida. Quero guardar este momento e dar-lhe o rótulo de eternidade no álbum das boas memórias.
Aqui sinto o mundo todo a envolver-me num abraço e a paz que é dádiva exclusiva do campo…
E este instante é a própria poesia, perfeita no sentir, na verdade da alma, e na dispensa de todas as palavras. 

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