sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Um herói muito próximo de nós

Hoje, dia 16 de Agosto é feriado municipal em Vila Viçosa. Comemoramos o nascimento de um médico nosso conterrâneo, o Dr. João Couto Jardim.
Numa terra que foi berço do Rei Restaurador, D. João IV, de uma rainha de Inglaterra que até ensinou os súbditos a comer de garfo e faca, deixando-lhes ainda o hábito do chá das cinco, uma terra que guarda a imagem de Nossa Senhora da Conceição coroada por D. João IV em 1646 no momento que marcou o fim da colocação da coroa na cabeça de qualquer monarca da nação, a terra onde nasceram Florbela Espanca e Henrique Pousão… poderá parecer estranho que o feriado municipal incida sobre uma personalidade com uma expressão apenas local e por certo desconhecida das pessoas que não sejam de Vila Viçosa ou que lá não residam.
O Dr. João Couto Jardim, filho de uma família oriunda da Ilha da Madeira mas já nascido em Vila Viçosa, faleceu poucos anos antes de eu ter nascido, mas tal não impediu que eu tivesse desde sempre convivido com a sua história em episódios contados pelos meus pais e os meus avós.
Feito herói pelo povo a quem serviu, nele transparece a simplicidade de um homem a quem oferecem um carro e o trocou por um aparelho de Raio X para o Hospital da Misericórdia, a generosidade de não cobrar consultas a quem não as podia pagar, atendendo a todos da mesma forma, a competência com que exercia a sua profissão tendo por base um rigor e uma constante actualização de conhecimentos.
Um verdadeiro príncipe da medicina, Homem maior porque pela sua vida deu vida a milhares de outras pessoas.
E são inúmeros os exemplos e as histórias…
A minha tia-avó Joaquina, na altura rapariga adolescente, adoeceu com uma apendicite e não havia tempo nem dinheiro para a deslocar para qualquer hospital onde pudesse ser submetida à necessária intervenção cirúrgica. Ele fê-la com os poucos meios que tinha no Hospital de Vila Viçosa, e ela, que morreu com 86 anos em 2002, muitas vezes me contou esta “aventura”.
A mãe de uma família muito numerosa, pessoa que eu ainda conheci pessoalmente e mulher com poucos recursos, reuniu o que tinha e o que não tinha e nas vésperas de Natal foi oferecer uma galinha viva ao Dr. Jardim, agradecendo os seus cuidados. Ele aceitou-a. Mandou a empregada preparar e cozinhar a galinha, e na véspera de Natal mandou entregar a iguaria na casa desta família juntamente com uma quantia em dinheiro.
E até eu que nunca o conheci, muitas vezes tratei a tosse com um xarope que era vendido avulso na Farmácia Monte, e a que carinhosamente chamávamos o “Xarope do Dr. Jardim”, preparado com base numa receita por ele arquitectada. Como farmacêutico bem gostaria eu de conhecer hoje tal segredo.
A casa onde viveu legou-a por morte à Santa Casa da Misericórdia de Vila Viçosa e ainda é hoje um Lar para raparigas.
Por tudo isto, e muito mais vos poderia contar, deixem-me que vos diga que é para mim um enormíssimo orgulho que o feriado municipal da minha terra seja comemorado no dia do nascimento deste Homem.
Melhor data seria impossível de encontrar, mesmo que outra qualquer se referisse a uma personalidade ou acontecimento mais de âmbito nacional.
Um herói da generosidade por sobre os heróis da história e da fé… ou na fosse a generosidade uma expressão da fé usada para a construção de uma história maior.
Esta é a data ideal, em primeiro lugar obviamente pela excelência da pessoa em causa, e depois porque em termos temporais o Dr. Jardim é um homem muito próximo de todos, é um herói que se cruzou com as histórias de muitos de nós, e essa proximidade bem poderá ser uma inspiração mais efectiva para todos num tempo que bem precisa dela.
Um mote “contemporâneo” para nos fazer maiores em generosidade e em humanidade.
E porque vos falo de conterrâneos que me orgulham e hoje é o dia da minha terra, permitam-me ainda que saúde a criação recente da Casa Museu Bento de Jesus Caraça, uma iniciativa excelente da Câmara Municipal de Vila Viçosa e da Fundação da Casa de Bragança, no edifício do Pátio das Chagas onde nasceu um Calipolense brilhante de quem se diz ter sido o intelectual anti-fascista mais temido por Salazar.
Que a casa dê muitos e bons frutos.

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