sábado, 31 de agosto de 2013

Um poeta de muitas terras

Muito tarde lhe descobri a poesia.
Aconteceu apenas e só naquele final de ano de 1997 quando fui à procura da razão porque escolhera a minha Vila Viçosa para sua sepultura nesse pedaço de terra à sombra da Senhora da Conceição abençoado por Florbela e tantos anónimos que fazem dele um verdadeiro panteão dos donos da palavra que dá verdade à alma: os poetas.
Um poeta de Moçambique nascido em Inhambane a 10 de Agosto de 1932 que recebeu por herança de um avô Suiço, um relógio, e um apelido estranho que para nós Calipolenses tem algo de familiar por pertencer a uma família que há muito estimamos. Mas um poeta nosso, de Portugal e do sul:
“De português tenho a nostalgia lírica
de coisas passadistas, de uma infância
amortalhada entre loucos girassóis e folguedos;
a ardência árabe dos olhos, o pendor
para os extremos: da lágrima pronta
à incandescência súbita das palavras contundentes
do riso claro à angústia mais amarga”.
A revolução oferecera-lhe a liberdade ao mesmo tempo que o arrancou definitivamente da sua terra, tornando-o um Homem sem pátria ou… um Homem de múltiplas pátrias:
“Neste lugar sem tempo nem memória,
nesta luz absoluta ou absurda,
ou só escuridão total, relances há
em que creio, ou se me afigura,
ter tido, alguma vez, passado”.
Onde cabem afinal as fronteiras na poesia?
Não é o poeta, ele próprio e sempre, um cavaleiro em busca de si mesmo?
“Aventureiro, ou não, servidor apenas
de qualquer missão remota ao sol poente,
em amanuense me tornei do horizonte
severo e restrito que me não pertence,
lavrador vergado sobre solo alheio”.
A Câmara Municipal de Vila Viçosa decidiu em boa hora integrar no programa da edição número 150 das Festas dos Capuchos, uma justíssima homenagem ao poeta Rui Knopfli que partiu no dia 25 de Dezembro de 1997 e que se encontra sepultado no Cemitério de Vila Viçosa, terra de muitas das suas raízes familiares.
Escritor e poeta reputado, com algumas importantes obras publicadas, cidadão do mundo, foi inclusive durante muitos anos, colaborador da Embaixada de Portugal em Londres, muito nos orgulha que este homem de múltiplas pátrias tenha escolhido de entre todas a Callipole, como sua terra.
Porque tornamos sempre nossa, a terra onde conscientemente escolhemos ser sepultados.
Depois da publicação o Programa das Festas, algumas pessoas me perguntaram por este homem e se eu conhecia algo sobre ele. Respondi-lhes sempre mas resolvi partilhar um pouco convosco neste post que fiz ao jeito de um pano-cru bordado com as sábias palavras do poeta e que fica também como uma modestíssima homenagem minha e da minha saudosa Avó Chica, durante muitos anos funcionária em casa da tia do poeta, em Vila Viçosa, a senhora que quando eu nasci me ofereceu o prato e a tigela para as minhas primeiras refeições, conjunto de louça que ainda hoje guardo no armário aqui de casa e que continua a manter vivas as histórias que a propósito dos soldadinhos que o decoram, me iam contando todos aqueles que tive a sorte de me darem a sopa.
Mas nunca é fácil falar de um poeta, e bastas vezes nem é preciso: está tudo na sua poesia:

“Quem somos, senão o que imperfeitamente
sabemos de um passado de vultos
mal recortados na neblina opaca,
imprecisos rostos mentidos nas páginas
antigas de tomos cujas palavras
não são, de certo, as proferidas,
ou reproduzem sequer actos e gestos
cometidos”.

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