sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Trago um vestido de linho do mesmo tom da lua, e aqui sentada num Rossio debruado de amoras, vou enfeitando o tempo…



Trago um vestido de linho do mesmo tom da lua, e aqui sentada num Rossio debruado de amoras, vou enfeitando o tempo… e tudo, com os segredos que guardo em mim com o sentido doce e grená dos bagos de uma romã.
De vez em quando passa o inverno que emudece o horizonte.
Ressuscitam pássaros pelas manhãs depois de Abril despertar a primavera.
O verão queima a campina…
Mas o Outono aproxima-nos das tangerinas mais doces que nos fazem trepar às árvores do pomar.
Uma casa, um piano, um violino, as telas, as palavras…
E as minhas mãos desenhando sobre o tempo… e tudo, uma rua.
A minha rua.
Com a tinta dos segredos que trago nas mãos. Grená.
E eu que visto a eterna essência do linho. Do mesmo tom da lua.

A minha querida amiga e pintora Ana Cravo cumpre hoje 50 anos. É a primeira do nosso mega grupo Calipolense de 1966.
Pedi-lhe uma das suas pinturas, ela enviou esta e eu escrevi sobre ela.
Tina, um beijo de parabéns.


terça-feira, 26 de janeiro de 2016

A laca da D. Mariana Aurélio e todos os aromas



O mundo descoberto pelo desfrutar dos seus aromas.
Mais um ranking...
Desta vez os dez melhores "perfumes" que nestes cinquenta anos foram registados pelo meu olfacto.

AS LARANJEIRAS EM FLOR NAS RUAS DE VILA VIÇOSA
Por alturas da primavera, dispensam-se as jarras enfeitando de flores os altares da minha terra, que em cada um dos seus muitos largos tem sempre três igrejas.
A Páscoa celebra-se pelas ruas na ressurreição da terra que agradece as bênçãos do sol.

O BAZAR DAS ESPECIARIAS EM ISTAMBUL
Os olhos perdem-se na imensidão das cores enquanto nós vamos tentando decifrar cada detalhe do aroma perfeito que nos abraça.
Em vão...
É o Oriente incessante a chamar por nós.

OS MORANGOS MADUROS NO ROSSIO DE LISBOA
O verão chegara há pouco e trouxe com ele os vendedores e uns triciclos carregados de morangos maduros vendidos ao quilo em cartuxos de papel pardo, depois de terem sido pesados em grandes balanças de metal.
Não resisto e compro sempre um quilo para levar para casa, perfumando-a com verão da cidade mais bonita do mundo.

O PÃO QUENTE POR ENTRE A ESTEVA
Em Vila Viçosa quando pela madrugada passávamos junto aos fornos das padarias, o pão quente parecia apelar à manteiga, "sorrindo" por entre o aroma da esteva seca que aguardava a hora de reacender o forno.

O INCENSO NA CATEDRAL DE ST. PATRICK EM NOVA IORQUE
A Quinta Avenida desce-se de forma muito entretida. Miramo-nos ao espelho nas montras da Tiffanys, entramos na mega loja da Disney, e com alguma sorte, aquela que eu já tive, vemos o Wim Wenders parar o descapotável num semáforo para que nós possamos atravessar na passadeira.
Depois, antes de atravessar a Avenida para o Rockfeller Center ou para o MoMa, entramos na Catedral de St. Patrick.
Cheira a incenso para nos lembrar que a casa de Deus é onde nós estivermos, no campo, como na avenida mais famosa do planeta.

OS LENÇÓIS LAVADOS NO RIBEIRO
A Avó Chica levava os lençóis até ao ribeiro esfregando-os na sua pedra favorita. Depois coravam e secavam ao sol entre os ramos da giesta, da esteva e do rosmaninho.
O ferro quente ao passar por eles sobre a velha tábua bem que tentava roubar-lhes o cheiro, mas este persistia embalando-nos durante a noite.

AS MANHÃS JUNTO AO MAR DE PORTUGAL
De Moledo a Vila Real de Santo António.
Os areais, as brumas, o bater das ondas, o sal, a espuma, Sophia...
O mar de Portugal nas manhãs perfeitas nascidas para sonhar.

A TERRA MOLHADA
Diz-se pelo Alentejo que o cheiro da terra molhada dá azar e é prenúncio de morte.
Nunca entendi.
Será sinal, isso sim, de fertilidade. E eu gosto.

OS MANJERICOS DE SANTO ANTÓNIO
Cheira bem...
Aos milhares nas bancas da Praça da Figueira na noite em que cheira a sardinhas em Alfama e em que Lisboa consegue ser ainda mais Lisboa.

A LACA DA D. MARIANA AURÉLIO
A minha mãe é a mulher mais bonita do mundo e eu sou pródigo em arranjar pretextos para lhe dar um beijo.
Sempre que regressava do Salão de Cabeleireira da D. Mariana Aurélio, o beijo acompanhava o pretexto de sentir o cheiro da laca.
A saudosa senhora punha-a num pequeno recipiente redondo de vidro cuja tampa era de borracha, servindo ao mesmo tempo de propulsor para o fixador de cabelo.
Ainda hoje dou um beijo e cheiro o cabelo, se estou por perto quando a minha mãe regressa do cabeleireiro. Só o aroma não é igual.

domingo, 24 de janeiro de 2016

A liberdade é muito mais do que apenas o capricho de uma madrugada de Abril...



A liberdade é muito mais do que apenas o capricho de uma madrugada de Abril...
Somos nós pulsando verdade nas mãos e na alma, cumprindo-nos sem reservas e tal qual ousámos sonhar por entre o rubro tom dos cravos... e de todas flores.
E voa o pensamento na morte de todas as grades, quando o canto traz para a rua, a voz e a palavra que os poetas insistem em fazer rimar com um novo e louco sentido oferecido ao tempo.
Os beijos são transparentes, as carícias calam o preconceito, os modos vestem a paz, a fé não é um preceito mas um caminho.
A liberdade... somos nós.
E nós somos um país que pulsa pela nossa vontade.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

“Tenho um Einstein lá em casa” e outros vícios privados e públicos...



Quando o sol se ergue a oriente despertando a lusa pátria, cedo se agita a expressão pública dos nossos vícios mais marcados, tão nossos que parecem genéticos.
No ano do meu cinquentenário irei partilhar convosco vários rankings, e começo com o Top 10 das coisas que mais me tiram do sério.
A ordem de apresentação não estabelece entre eles qualquer hierarquização.

A ESCADA ROLANTE
Subindo ou descendo, a grande maioria das pessoas pára no espaço imediatamente a seguir ao último degrau, indecisa se vai virar à esquerda ou à direita. Hesita...
E os que estão atrás?
É tão bonito ver cair uma estrutura de peças de dominó.

OS PIANISTAS
Na alma de cada Português brilha uma Maria João Pires e nos nossos dedos fervilha um Chopin. Mas como quase ninguém tem piano em casa, para onde é que vamos treinar?
Para as teclas do Multibanco.
Por cartão, põe código, pede extracto, tira cartão, põe outro, põe outro código, pede extracto, tira cartão, põe outro...
A fila atrás vai crescendo e até há gente a soprar, mas quem toca piano olha de viés com ar de estrela:
- Eu nasci para ter aplausos no Grande Auditório da Gulbenkian. Não me cedem o palco e eu junto aqui o meu público.

A COISINHA PEQUENININHA
Sempre que há uma fila mais ou menos organizada, com ou sem senhas, há sempre alguém que se chega à frente para uma perguntinha ou qualquer outra coisinha.
Este sufixo "inho" é uma estratégia tipo 0,99€ nos preços dos supermercados, transmitindo que o tempo que vai tomar é desprezível.

A MANIF DA CGTP
Uma pessoa está sozinha e pretende jantar sossegada e em silêncio, pega na esferográfica e no bloco, espreita pela montra e vê que o restaurante está tranquilo e lhe oferece a possibilidade de escrever algo, e entra.
Cinco minutos depois começamos a ouvir os dois funcionários em conversa:
- Eu já lhe disse que não faço nem mais um minuto.
- Faça-as ele.
- Isto tem sido um horror...
- Oh filha parece que anda tudo com fome e não nos desamparam a loja...
Eu disse escrever?
Só se for no livro de reclamações.

O IMPRESSO 5437/67 B
Numa qualquer repartição, publica ou não, o nosso interlocutor atrás do guichet adora perguntar coisas difíceis mas sempre depois da frase "isso não é comigo".
- O senhor vai ter que ir à minha colega que está no terceiro piso, compra o impresso 5437/67, mas o B, que é amarelo...
- Mas no terceiro piso, onde?
- Pergunta ao segurança e tira a senha azul... PRÓOOOOXIMO

DO MAL O... MÁXIMO
Nós os Portugueses somos dos poucos povos do mundo que competimos pela maior desgraça.
- A minha filha foi operada ao apêndice na semana passada e a coisa esteve mal.
- Ui, tu nem imaginas, a minha filha quando teve a apendicite até já tinha hálito a pus.
- Mas olha que o médico disse-me que se eu tardasse umas três horas que já não haveria nada a fazer.
- Três horas? O médico da minha filha falou-me em trinta minutos.

MUITO RISO... POUCO SISO
Eu sou uma das maiores vítimas deste principio, e só porque adoro rir.
É que para além de não me levarem a sério em muitas situações onde impera um ar grave de velório e sacristia, ainda nos deixam órfãos em caso de algum problema ou dificuldade.
- Tu? Problema? Cala-te lá que tu estás sempre bem disposto.

EU AGORA NÃO POSSO ATENDER
Em sítios públicos há sempre um telemóvel que toca de forma estridente.
Quando toca na mala de uma senhora e a situação em que estamos até não é muito interessante, ainda nos distraímos com o som que vai aumentado:
- Ela está quase lá.
Mas mesmo bom é quando atendem e dizem num tom sussurrado mas que todos ouvimos:
- Agora não posso atender. Estou no cinema.

TENHO UM EINSTEIN LÁ EM CASA
Qualquer sala de espera é uma arena para esgrimir forças relativamente à inteligência dos filhos e netos:
- O meu neto até já faz contas com os números de cabeça para baixo.

ÀS APALPADELAS
Juro que não entendo porque é que atribuímos aos Espanhóis o vício de mexer em tudo.
Já foram a um hipermercado?
Ninguém consegue ver pela cor de o pão está bem ou mal cozido, e então vamos esborralhando as carcaças com o mesmo prazer como esvaziamos aquelas bolhas do plástico que protege o conteúdo de algumas embalagens.
E a fruta?

Haverá mais situações...
Até breve com outro ranking para celebrar o meu jubileu.
Celebrar a rir, claro.


segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Ao desmembrar das arestas da normalidade e da previsibilidade dos dias...



Ao desmembrar das arestas da normalidade e da previsibilidade dos dias, ruína que a gente designa muitas vezes por solidão, o poeta chama a sua casa.
Entorno a liberdade para as horas que vou enfeitando de palavras, e a lareira onde crepitam as máscaras despejadas sem dó, ilumina a sala onde me sento num sofá azul contigo ao lado.
Eu aprendi no campo que as flores da primavera são de quem as beija com o olhar, muito mais do que de quem guarda documento de posse da terra onde nasceram.
E as pedras do ribeiro são de quem se ajoelha...
As pontes são sempre de quem as sonha…
A água das fontes é de quem a bebe com as mãos em concha.
Aqui onde falamos os dois, tu não és de mais ninguém; e eu apenas na aparência sou um homem só.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Quando chegam as tardes boas, que são aquelas de estarmos juntos, damos apenas dois dedos de conversa; que de mão cheia por ali, só mesmo os beijos



Quando chegam as tardes boas, que são aquelas de estarmos juntos, damos apenas dois dedos de conversa; que de mão cheia por ali, só mesmo os beijos.
E essas muito poucas palavras a que os lábios excepcionalmente cedem, ficam às duas por três a falar de amor, de paixão… com manifesta dificuldade em abordar uma perspectiva histórica: com o amor aqui dois passos (muito pequenos), tudo o de antes tem sabor a léguas de tal sentimento.
Mas deixamo-nos sorrir por entre esta doce incapacidade.
Depois, quando o sol já dobrou o horizonte e os copos de tinto já repousam vazios na mesa ainda posta, eu às vezes reclino a cabeça no teu colo como se fosse adormecer, e juro que diagnostico a perfeição nesses tão informais instantes.
A verdadeira estrada de um Homem despreza o asfalto, e assenta nos beijos e nas palavras que são expressão de quem o ama.
Então eu deixo-me ir… a passos largos.
Contigo e sem nunca adormecer, pelos instantes que são fruta doce e madura entrelaçada ao inverno frio dos dias de Janeiro.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

E os egrégios avós à volta nas tumbas


Mas vi num noticiário desta semana.
Um tal candidato de nome Vitorino, ou Tino, de nome, que “tino” parece ter efectivamente pouco, apareceu a abrir um buraco na areia de uma praia de Espinho para depois aí colocar um tronco seco. Segundo as suas palavras imitava os Descobridores de quinhentos e os padrões que deixavam nas “novas terras”.
Vasco da Gama ainda deve andar às voltas na sua tumba nos Jerónimos e todos os egrégios avós devem ter ficado roucos e loucos.
O facto é que estando como está a República, porque é que a campanha para a presidência da dita poderia ser diferente e para melhor?
Até a Simone, que nós acreditávamos ter derrotado a Madalena Iglésias com a garra do milho rei nas desfolhadas da vida, veio agora revelar que o segredo do seu sucesso é o Calcitrin que toma para as articulações e que compra na TV Shop…
No mesmo noticiário desta semana, Marisa Matias aparece a visitar o Museu da CP no entroncamento, e aquela que pretende ser a tal “uma por todos”, só poderá ter ido em romagem de fé à terra onde os nabos podem virar fenómenos.
Maria de Belém, cada vez mais parecida com a boneca do Contra, “Maria de Ninguém”, cumpria o seu estatuto de “Maria de Nada” e visitava mais um lar de idosos no âmbito do processo de selecção de locais para servir refeições a Chefes de Estado estrangeiros em visita oficial.
Sampaio da Nóvoa imitava Paulo Portas em mais uma ronda de Feiras, com uma vendedora a gritar o seu apoio mas sem se recordar do nome do candidato. Aliás, nem do nome nem de nada, que fica a sensação de que se este candidato tiver sucesso, tal se ficará a dever única e exclusivamente ao vício por Raspadinhas que atacou Portugal. O que é que ele pensa? Surpresa por entre a coerência do seu silêncio de décadas.
Sabe-se que aqui há uns anos fez um excelente discurso no Dia de Portugal.
Marcelo apareceu em Santarém na sede do Nóvoa a comer croissants em formato miniatura, com ar de que está tudo bem e que a Presidência é afinal um Petit four; não parecendo nada preocupado com o diagnóstico de hiperactividade feito pela Maria de Belém, ou até com a possibilidade de alguém descobrir que ele com cinco anos roubava Sugus aos colegas numa creche do Estoril.
Poderia pelo menos ter comido um Portuguesíssimo e Ribatejano Pampilho…
Dos outros candidatos nada a assinalar para lá das arruadas sem gente.
Pelo meio…
O Primeiro-ministro, que já varreu a dívida ao FMI para debaixo do tapete, “lixando” quem vier a seguir e tiver que lidar com a Troika, já se precaveu contra eventuais derrotas e dividiu o apoio como Salomão. Mandou no entanto a mãe sentar-se ao lado do Nóvoa. Lá na rua quando brincávamos e um tipo fugia das brigas para mandar depois a mãe em sua representação, raramente beneficiava da atribuição de nomes muito bonitos.
Mas as mães, vivas ou mortas, andam na berra.
O Ministro da Cultura, a comprovar que a existência de um Ministério da Cultura não é garantia de Cultura num Ministério, pelo menos para a cultura do bom senso; veio afirmar que se a sua mãe fosse viva por certo apoiaria Maria de Belém. Estará a candidatar-se aqueles programas da TVI em que alguém fala com mortos?
Também não se sabe ao certo em quem a Amália votaria se ainda fosse viva, mas fontes do Panteão, e muito bem informadas, garantem que ela e o Almeida Garrett já estão em negociações com o Eusébio para que ele dê um chuto nisto tudo.
Mas um chuto valente… à campeão.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O tempo e o distante… Crescer ou acreditar que afinal tudo é tão breve



Quando percorríamos a pé a estrada de terra batida entre a Porta Real da Tapada e a Fonte dos Castanheiros, parando para descansar a meio do caminho junto a um forno de cal abandonado, com tempo para acariciar as estevas e tomar-lhes o odor da sua resina, nós achávamos sempre que o mundo era gigante.
No regresso à Vila e já cansados, ainda conseguiamos cimentar a ideia de uma dimensão infinitamente maior.
Depois mais tarde quando vínhamos a Lisboa no autocarro da Setubalense ou na automotora da CP que nos deixava no Barreiro, aí achávamos que cumpríamos uma experiência limite e radical.
O mundo tinha afinal uma dimensão inimaginável.
E o tempo passava devagar, contando-se em estações, muito mais do que qualquer outra medida, com o Verão a chegar definitivamente no instante da primeira salada de tomate de cada ano, e prolongando-se depois pelos meses longuíssimos de férias em que os calções curtos nos punham os joelhos à mercê do mercurocromo.
A primavera tinha laranjeiras floridas na Praça e mesmo que chovesse muito em Abril, “escampava” depressa e vinham tardes de sol.
O Outono tinha gosto a castanhas e bolotas assadas, para além do tom especial dos dióspiros agarrados aos troncos quase vazios de folhas.
Era também quando íamos às papelarias pedir horários impressos em papel com publicidade às marcas, para podermos passar na escola e copiar aquele que correspondia à nossa turma.
No inverno os serões eram imensos, longos, e passados a preto e branco em frente ao televisor onde o Professor Hermano Saraiva me apresentava Fernão Lopes e me ensinava a detestar a Dona Leonor Teles e o Conde de Andeiro numa Lisboa cercada
Até as faúlhas que saiam da braseira quando a mexíamos com a “ferra” tinham sido baptizadas de “Castelhanos”.
Deitarmo-nos para lá das dez da noite era uma loucura que no inverno apenas se tolerava em dia de Festival da Canção, com a emissão a ir sempre muito para lá do previsto porque eram dificeis as ligações telefónicas aos júris reunidos nas redacções dos jornais distritais.
A propósito, eu ainda hoje sei que em Viana do Castelo o júri se reunia no “Aurora do Lima” e em Castelo Branco no jornal “A Reconquista”.
No inverno também usávamos capotes castanhos ou cinzentos, ou então qualquer outro “abafo” que nos tivessem comprado; sempre folgado para poder durar pelo menos para duas temporadas.
Porque crescíamos depressa.
O tempo e o distante…
Crescer ou acreditar que afinal tudo é tão breve.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Quem não tem uma bicicleta e tem um livro, muito pouco se importa, pois poderá sempre ir de avião para qualquer lado



Quem não tem uma bicicleta e tem um livro, muito pouco se importa, poderá sempre ir de avião para qualquer lado.
Isso pensava sentado no pequeno banco de madeira da Livraria Escolar enquanto lia os livros com cuidado para não lhes estragar a lombada, inviabilizando-lhes a venda.
Seis, sete, oito… muitos anos.
Mas para além dos livros existiam as bolas de serradura envoltas em papel prateado e colorido, que presas a um elástico subiam e desciam como no estranho bailado de um planeta à mercê da minha vontade. Estas bolas chegavam sempre com um saco de torrão ou um brinquedo de lata ou madeira nos dias 29 de Janeiro, Maio ou Agosto, quando os tios e os avós saiam da feira, então no Rossio, subindo a Rua de Três para poderem dar-nos "as feiras".
Os berlindes tilintavam nos bolsos em sacos costurados pela minha mãe, existindo sempre um que era o da sorte e que permitia ganhar o jogo nas três covas em linha que preparávamos na terra; os piões tinham marcas gravadas por mim com um canivete e faziam cócegas quando os púnhamos a rodar na palma da mão; um macaco de corda que tocava pratos e bombo, servia para brincar e para chamar a minha mãe quando fui operado às amígdalas e, entre o paraíso de iogurtes e gelados, não era aconselhável falar alto; um carro do James Bond movia-se a pilhas e tinha um boneco que me assustava ao saltar pelo tejadilho; uma ambulância também a pilhas avançava e recuava quando batia nos móveis, presente de Natal no ano em que o meu pai trabalhou no Baptista Russo.
Nos Trabalhos Manuais fazíamos brinquedos, e eu fiz um Alentejano de capote com a inevitável cortiça, objecto que ainda hoje uso para guardar coisas muito especiais…
E no dia em que fiz três anos, a Tia Carlota ofereceu-me um Lego, o primeiro que eu vi; brinquedo que achei algo estranho porque aquilo que na caixa prometia ser um camião, era afinal um conjunto de peças coloridas e soltas.
Aprendi mais tarde a alinhá-las para construir a prometida viatura, e a realinhá-las de muitas outras formas dando corpo àquilo que ia ditando a imaginação.
Voar como com as páginas de um livro e fazer girar a Terra como uma pequeníssima bola de serradura.
Aprender a conquistar o mundo mesmo sem bicicleta, apesar do Manuel generosamente me emprestar a dele para darmos umas voltas no passeio em frente ao Framar.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Joaquim Francisco... é tão só um pequeníssimo detalhe



O meu nome devo-o ao avô materno, Joaquim Miguel, e ao avô paterno, Francisco da Conceição.
O avô Chico era carpinteiro e fazia de propósito para mim, réguas de madeira com a escala certíssima ao milímetro, que eu usava orgulhosamente na escola.
Também me ofereceu um leitor de cassetes para celebrar o sucesso no exame da quarta classe e, juntamente com a avó levou-me a passear ao norte de Portugal numa viagem de oito dias. Foi na sua companhia que subi pela primeira vez à Serra da Estrela.
Conheceu a Florbela Espanca e o Bento de Jesus Caraça, contava-me histórias fantásticas nos serões que passávamos ao redor da braseira posta num estrado feito por ele, mas morreu em 1990 sem acreditar que o Homem tinha ido à lua.
- Os pantomineiros dos Americanos.
O avô Joaquim trabalhava no campo e oferecia-me todas as moedas que encontrava enquanto tratava a terra. Ainda hoje as guardo numa caixa de cortiça.
Ensinou-me a apanhar azeitona, a podar uma parreira, a plantar nabiças... e era um homem de fé e muito optimista que nunca desanimava, mesmo quando os melões que colhia tinham crescido até à fantástica dimensão de... uma maçã.
Quando ia a nossa casa levava sempre um saco com o melhor que o campo lhe dera nesse dia, e nunca nos deixava sair da sua casa sem igual presente.
Levava tão a peito as suas crenças, que confiando que uma canja de mocho abre o apetite a uma criança, caçou um exemplar da dita ave e escancarou-me o apetite até hoje; para lá de me ter oferecido esta culpa que trago tatuada na alma por ter consumido uma ave que me é tão simpática.
Com as aparas que o avô Francisco trazia da carpintaria, o lume acendia-se maravilhosamente; com o tubo de ferro por onde o avô Joaquim me ensinou a soprar, o lume de chão jamais se apagava.
É tudo uma questão de fogo, que também esse nome pode dar-se ao amor que nos constrói.
Joaquim Francisco...
É tão só um pequeníssimo detalhe.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Um Homem velho é um Homem cheio de inflexíveis certezas…



Um Homem velho é um Homem cheio de inflexíveis certezas, e por oposição, um Homem é novo quando, indiferente ao número de anos que já viveu, segue feliz pelas dúvidas dos dias, moldando-se aos poucos à luz da sua fé, de mãos dadas com quem ama, e no usufruto de uma imensa liberdade.
E as certezas de um Homem velho oferecem-lhe a moribunda solidão de uma ilha onde nunca desembarcam quaisquer palavras ou novas ideias.
Um Homem é novo quando tem esperança, quando nunca sente nada como inevitabilidade da vida; e até uma longa e dura sede poderá ser o prenúncio para a beleza de uma fonte na próxima esquina do caminho.
Em 2016 cumprirei cinquenta anos, eu e mais um grupo fantástico de amigos de sempre. Anunciamos festa rija e não é apenas pela celebração deste número redondo na idade...
É por estarmos cada vez mais novos.
E até o Pomar das Laranjeiras se vai encher de memórias com a dimensão de meio século.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Já que o tempo insiste em ter as suas esquinas, dobremos todos os instantes enchendo-os com o melhor da vida: a poesia



Já que o tempo insiste em ter as suas esquinas, dobremos todos os instantes enchendo-os com o melhor da vida: a poesia.
No tempo em anos contado como nas ruas todas por onde passamos, sejam os nossos passos expressão da mais pura e genética vontade, enraizada nos sonhos e infinita na força de acontecer.
E se um dia nos travarem bruscamente a marcha reunamos todas as forças, e por mérito de idílicos esquadros e compassos, rasguemos janelas por onde o olhar nos leve pelo seu mérito de voar, até aquele ponto no horizonte onde somos nós.
O ponto onde me esperas sentado olhando um rio que o sol reveste da tua cor, e onde as palavras soçobram perante a linguagem verdadeira e honesta dos beijos de amor.
Feliz 2016... com poesia.