quinta-feira, 31 de julho de 2014

Eu não resisto nunca…

O eléctrico trepa veloz pela calçada, mostrando saber de cor todas as curvas do caminho. Com ele, quando acelera e frena, os nossos corpos ganham o toque de coreografia de um bailado que deixa aos olhos o benefício exclusivo dos abraços.
Eu não resisto nunca a olhar-te ao jeito de quem te abraça.
Ali, algures entre Alfama e o Castelo, há uma estrada marcada por séculos de passos e vontades, uma calçada de Lisboa que hoje é para nós a inédita rota de um sonho que por ser tão nosso, tem sobrenome de eternidade.
No cimo da colina há uma mar de flores lilases que são a antecâmara perfeita para a vista que nos revela as cores garridas do casario que parece render-se ao Tejo, o rio perfeito, que, hoje e com o sol deste fim de tarde, beija Lisboa com a força de um inultrapassável azul.
E de azul se tinge também o rendilhado namoro dos nossos olhares.
E das nossas tantas palavras…
Há séculos que Lisboa semeou aqui esta varanda, trono e casa para os nossos sonhos que não têm idade.
E por entre os olhares e as palavras, eu não resisto nunca a tocar-te ao jeito de quem te beija.
Depois, descemos a pé pela calçada, deixando-nos ir com o sol que parte, mas a tempo de ver como a fachada da Sé se ilumina e se revela perfeita com esta luz do fim da tarde.
Não tardará um adeus, a saudade semeada por um abraço de despedida, um beijo… e as nossas mãos que se tocam quando os lábios não conseguem travar um muito breve:
- Amo-te.
E parto com a certeza de que lá atrás e antes do instante deste amor, não há nada que importe; e à frente, a sorrir-me assim intensamente como o faz agora a lua que brilha no céu de Julho, estás tu.
Eternamente.
Penso em ti.
Sabes, eu não resisto nunca a pensar em ti ao jeito de quem te abraça… e de quem te beija. 

quarta-feira, 30 de julho de 2014

MARIA MANUELA

Sempre que eu acompanhava a minha avó Natividade a casa do Sr. Manuel Silvério e da D. Maria Cândida, quando ela ia amassar os bolos fintos na véspera da Páscoa, ou então quando ia provar os fatinhos à homem com que nos vestiam nas ocasiões especiais aí pelos anos setenta, e aprendi que nos alfaiates temos de responder à questão: “para que lado pendes?”; encontrava invariavelmente as três meninas da casa, donas de uns olhos amendoados e grandes com o mundo todo a brilhar por detrás deles e dos seus imensos sorrisos.
Falo, claro, de ti e das tuas super irmãs Rosa e Zézinha, dizendo-te que jamais imaginei por essa altura, que um dia iríamos ser os amigos que somos hoje, amigos com marca registada de eternidade.
Porque por mais anos que passem, nós sabemos que há sempre uma ginja com “brinhol” que espera por nós nos Capuchos, um pôr-do-sol na esplanada do Restauração, um cafezinho de Natal com troca de presentes e degustação das azevias da minha mãe, uma viagem ou um passeio aqui ou além, um centro de alerta e resolução de processos patológicos e outros de familiares e amigos… e por entre tudo isso, as nossas gargalhadas nascidas de todas as piadas, sem restrições, que para rir e como eu digo sempre “ao contrário de muitas, tu és muito homem”.
E claro, há também a acidez das nossas críticas e revoltas, porque os desaforos não se guardam em nós pelo risco acentuado de podermos vir a desenvolver incómodas úlceras gástricas.
A amizade nasceu de muitas cumplicidades mas sobretudo do encontro que a vida nos foi proporcionando no velório dos impossíveis, naquela “festa” onde se sepultam irreversivelmente os medos e onde o canto nasce suplantando o choro.
Por entre a lamúria e os lamentos das “carpideiras” do mundo, nós sabemos que o difícil é o melhor estímulo para chegarmos até onde nos impõe o sonho, porque a fé em Deus começa sempre pela suprema fé em nós mesmos, seres nascidos à sua imagem e semelhança.
E mesmo sem termos uma grande voz, os melhores salmos cantamo-los ao jeito do “rouxinol” Manuel, quando sorrimos por entre esse mágico sabor doce de conseguir.
O futuro é arquitectado pelos sonhos, mas é construído pela vontade e pelas nossas próprias mãos, com esforço, às vezes com dor, mas sempre com o auxílio precioso dos andaimes da fé, os degraus que são privilégio de quem acredita.
E porque os amigos se orgulham com o grande e bom que há nos seus amigos, eu orgulho-me infinitamente por tu seres arquitecta, engenheira e mestra de pedreiro desses dias fantásticos com que vais tecendo a tua própria vida.
Vejo no Zé Maria o mesmo querer, e na Marta vislumbra-se claramente que a genética se cumpre, sendo fantástico contar convosco como parceiros desta viagem pelo tempo.
Maria Manuela, hoje é o teu aniversário e por isso aqui fica o teu presente.
Porém e antes de terminar não queria deixar de te dizer publicamente e por escrito que todos os livros que eu lançar em Vila Viçosa serão apresentados por ti.
Isso acontecerá obviamente pela amizade que nos une, e não levarão os nossos amigos a mal que eu apresente uma razão extra e decisiva, é que és de entre todos eles, aquela em que eu mais me revejo. Em tudo, mas sobretudo na fé e no “esganar” dos impossíveis.
Um beijo grande e parabéns.

terça-feira, 29 de julho de 2014

As flores do amor são definitivamente as rosas

Por vezes interrogo-me se nós os que somos orgulhosamente guardiões de memórias, somos assim por um qualquer instinto ou detalhe genético, ou então por termos sido treinados ao longo da vida através do convívio muito próximo com grandes mestres.
Numa terceira via, será possivelmente a confluência dessas duas razões a ditar-nos o gosto.
Mas no meu caso concreto e no que ao convívio com os mestres diz respeito, há muito que contar…
Na sequência dos serões passados a dois na velha casa da Rua de Santa Luzia, sem televisão, à conversa e no meio de infinitas histórias; a Tia Maria ofereceu-me um pequeno álbum onde durante anos guardou as suas recordações escritas, na maioria, postais ilustrados e com letras denunciadoras de afectos, amizades e amores mais ou menos felizes.
Trouxe este álbum para a minha casa, ajeitei-lhe e colei-lhe as folhas, e às vezes vou dando uma espreitadela apreciando os tons pintados das fotos quase sempre de casais em poses românticas, e também as caligrafias desenhadas com um rigor de fazer inveja a qualquer um.
As mensagens reportam na grande maioria aos anos trinta do século vinte, a década em que a tia, nascida em 1909 andaria exactamente pelos vinte anos, e uma década em que os meus pais não eram sequer nascidos.
Com a subtileza e o pudor próprios da época e de uma rapariga com uma reputação intocável, é interessante notar como os verbos, os adjectivos e todos os demais pedaços dos pequenos parágrafos, são diferentes dos de agora, por vezes demasiado barrocos e enfeitados; mas todos os sentimentos por detrás das palavras são universais e persistem ainda hoje no coração de todos os Homens.
E no que diz respeito ao amor…
Há sempre a alusão ao paraíso, ao destino, à felicidade e ao perfume doce e perfeito de uma flor.
E as flores do amor são definitivamente as rosas.
Depois, fecho o álbum e devolvo-o à estante onde habita no meio de muitas outras memórias, ali na minha casa que dispensou sempre decoradores para ser um repositório de peças que podem não ter nada a ver umas com as outras e nem com o padrão vigente no gosto do Século XXI, mas têm todas uma história para me contar ou me recordar.
Então, vou eu depois escrever as minhas histórias, ponho palavras na poesia dos sentires e deixo-me ir exactamente pelas palavras, com a responsabilidade acrescida de saber que elas nos sobrevivem e são definitivamente uma herança do melhor de nós.
Um dia, quando eu já não for mais do que simples alimento para a terra de onde brotam as rosas, que haja algum meu herdeiro coleccionador de memórias, capaz de olhar para essas mesmas rosas, e por mérito das minhas palavras, se lembre do seu próprio amor, e quiçá lhe mande um beijo.
E o meu amor por ti?
Persistirá nas palavras e será sempre bem maior do que a minha própria vida.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Se fosse assim tão fácil…

Há caminhos que só têm a utilidade de nos indicar por onde não queremos ir, destinos que só servem para reforçar os outros onde queremos estar; e pessoas que nada mais têm para nos oferecer, para lá do reconhecimento e do reforço do afecto por aquelas outras que realmente amamos e nos amam a nós, comprovadamente.
E eu disse sempre “querer” e não “dever”, porque a nossa própria vontade, muito mais do que a “moral” das devoções e as regras bacocas e impostas; é a melhor bússola neste percurso pelos dias, em que tudo, o positivo e o menos positivo, tem sempre algo para nos dizer e ensinar.
Com mais ou menos trauma sobretudo naquilo que ao menos positivo diga respeito, no processo longo e difícil do sindroma das dores de viver; e sabendo também que às vezes não há profilaxia que nos valha, e que não adianta a troca de experiências e o GPS da voz dos demais para que tiremos conclusões, sendo obrigatório que sejamos nós a “sujar” as mãos, “colocando-as directamente na massa”.
Valha-nos então sempre a marcha atrás e a inversão de marcha, que em segurança são procedimentos como quaisquer outros, mesmo que à nossa volta alguém possa buzinar ou até chamar-nos nomes feios. Com essas vozes do coro da desgraça damo-nos nós bem, e nunca nos esqueçamos que por culpa delas já um velho e um rapaz acabaram a transportar um burro às costas.  
Mas… marcha atrás e inversão de marcha sempre a sorrir.
Sorrir é essencial na vida, é a pimenta e o sal que dão gosto e aroma aos dias; e sorrir é definitivamente a melhor forma de irritar quem não gosta de nós.
Agora é a vossa vez de perguntarem o porquê deste meu discurso, e aposto até que já pensavam:
- Que mal fizeram a este rapaz para ele estar com esta conversa? Deve ter sido coisa feia…
Pois ninguém fez nada em particular.
Ontem na missa das 18.30 nos Mártires, em Lisboa, o padre falava de tesouros e pérolas encontradas ao longo da vida, e referia o aniversário do sacristão dizendo que ele tinha de aproveitar bem os anos que lhe restam, colhendo frutos de todos os ensinamentos que a vida já lhe oferecera, e sendo feliz.
No mesmo banco que eu e sentada ao meu lado, uma senhora com idade a rondar os oitenta, e que eu nunca tinha visto antes, confidenciou-me então baixinho em tom de segredo:
- Se fosse assim tão fácil… há tanta coisa má.
Respondi apenas com um sorriso porque não era altura para estar a falar com a senhora ali durante a homilia.
Respondo-lhe hoje por aqui. Tenho quase a certeza de que ela não terá acesso à resposta mas pouco importa, fica dada.
Porém não consigo terminar sem antes fazer uma ressalva…
Entre mim e a minha interlocutora há pelo menos trinta anos de diferença, e eu reservo-me o direito de também poder um dia dizer o mesmo que ela após viver tudo aquilo que o futuro, grande ou pequeno, me reserva.
O futuro é sempre pródigo em volatilizar e anular certezas.
Mas se na altura me sair um desabafo do tipo:
- Se fosse assim tão fácil…
Que eu o possa fazer do jeito que ela o fez, a sorrir muito.

domingo, 27 de julho de 2014

O sangue e as dores de uma geração

Por “mérito” da Diabetes Tipo 2 e pela necessidade de controlar a Glicemia, a Hemoglobina Glicada, o Coleresterol e afins; e depois de andar durante vinte e quatro horas a urinar para um frasco, ontem foi dia de ir fazer recolha de sangue.
Pela manhã e em jejum.
Depois de todos os procedimentos logísticos, vi-me sentado na cadeira do martírio vampiresco tendo à minha frente um jovem de bata branca devidamente vestida e com a voz e as mãos trémulas.
Percebi-lhe o nervosismo, e por isso, e também porque a melhor perspectiva do mundo não é definitivamente a de umas mãos trémulas a avançarem com uma seringa em riste que nos “furar” umas das veias do braço esquerdo que já está devidamente esticado, resolvo atacar com uma das áreas em que me sinto mais à vontade: a conversa.
E pergunto:
- Então já trabalha há muito nesta área?
A pergunta não resultou muito porque claramente o rapaz percebeu que eu tinha lido o seu nervosismo, e responde sentindo a necessidade de se justificar:
- Acabei o curso de Técnico de Análises Clínicas e fiz de imediato um estágio, depois tive de parar dois anos e agora consegui novo estágio e estou aqui há duas semanas. E sabe… perdemos um pouco a mão para o trabalho.
E reforça:
- Gosto muito desta área, por isso insisto em ficar por aqui.
Então já de garrote, de veia picada e com o sangue a jorrar de um tubo para dois grande frascos, eu lá vou animando o meu interlocutor que se vê respirar melhor a cada segundo e à medida que vê o trabalho a chegar ao fim e sente como eu, a sua “vítima” desta manhã, até estou feliz.
- Não está a sentir-se mal?
- Nem pensar. Estou óptimo. Siga que está a ir muito bem.
Não fixei o nome deste rapaz que até o tinha gravado numa placa presa à bata, mas pouco importa, ele é um dos muitos da geração a seguir à minha que por culpa da precariedade vai adiando os seus sonhos num país onde os cidadãos só interessam na perspectiva de contribuintes, e contam muito pouco por entre a administração feita pelos políticos que só têm visão se por acaso a comprarem à quinta-feira na banca dos jornais.
Um país onde a agonia das pessoas conta muito pouco perante a prioritária saúde dos impolutos banqueiros protegidos por uma justiça que é um mero folclore de retórica.
As mãos trémulas de uma geração que envia milhares de curricula para receber outros tantos milhares de nãos.
E eu entendo bem o amargo sentir das suas agonias porque muito bem me recordo da alegria de ter acabado uma licenciatura a 27 de Abril e ter começado a trabalhar no do dia 2 de Maio do mesmo ano, ganhando então há 24 anos e em escudos, o mesmo que este rapaz ganha hoje na “esmola” de um estágio profissional pelo qual esperou dois anos.
Entretanto o sangue acabou de escorrer para os tubos, eu já carrego num algodão impregnado de álcool e em breve, o técnico colará ao meu braço um penso rápido que me protegerá durante algum tempo.
Levanto-me, estendo-lhe a mão e tenho a noção clara de que minto com todos os dentes que carrego na boca quando lhe confidencio com claro intuito energizante e indutor de confiança:
- Vá em frente, em tantos anos a tirarem-me sangue ninguém o fez tão bem quanto o acabou de fazer.
Ele sorriu e tenho esperança que tenha tremido um pouco menos ao tirar sangue à senhora que se sentou a seguir a mim na dita cadeira do martírio.
É que com as mãos a tremer assim, a picada dói muito mais. Eu que o diga.

sábado, 26 de julho de 2014

Essa sementeira de afectos de onde colhemos a felicidade

A avó Natividade tricotava botas de dormir com uma perícia tal, que ao serão já conseguia continuar o seu trabalho, mesmo quando o sono a obrigava a fechar os olhos. Ainda guardo umas na gaveta das meias, e usa-as sempre nas noites frias, nunca deixando de me lembrar que era eu que muitas vezes lhe segurava as meadas da lã para que ela fosse fazendo o novelo. Nessa altura, a avó contava-me histórias e rimas que tinha aprendido em criança.
Crente, benzia-se sempre antes de algum trabalho doméstico mais importante, como amassar os bolos fintos na Páscoa ou mexer as carnes da matança que permaneciam nos alguidares de barro. Dos bolos fintos saía sempre o meu folar em forma de lagarto e com dois ovos cozidos, e da matança uns mini chouriços com que nós brincávamos antes de os comermos entre as duas partes de um papo-seco à hora do lanche.
Com oitenta e seis anos ainda me confidenciava que aquilo que lhe provocava mais saudades era levantar-se cedo nos dias de inverno para ir apanhar azeitona.
A avó Francisca gostava mais de ceifar do que de apanhar azeitona.
Com a mesma fé da avó Natividade, conseguiram as duas colocar-me o mais próximo da santidade, pagando-lhes promessas vestido de Santo António e São Francisco nas procissões de Nossa Senhora da Conceição. Íamos buscar os fatos a casa da saudosa D. Lígia Cravo, e só as auréolas de metal pareciam querer fazer justiça à minha genética não santidade, não encaixando nunca na minha avantajada cabeça.
A avó Francisca gostava de me levar com ela para o campo nos dias em que ia lavar aos ribeiros da Fonte Cebola, e aí, às vezes os dois sozinhos partilhando a merenda por entre o cheiro a esteva, ia contando as histórias da sua vida tão feita de generosidade; a mesma que a fazia bater-nos à porta e acordar-nos quando em dias de feira não dispensava as madrugadas para nos comprar uma camisa nova, um saco de torrão ou uma bola de serradura envolta em prata e agarrada a um elástico que a fazia subir e descer consoante o impulso das nossas mãos.
A melhor compota que já comi era a Uvada feita pela avó, com uvas frescas, mel, nozes e amêndoas.
O avô Joaquim também nos batia muitas vezes à porta, mas muito mais ao fim da tarde quando ia levar-nos para o jantar, tudo o que de melhor tinha encontrado na horta durante esse dia. Às vezes e enquanto cavava a terra, encontrava moedas antigas que guardava no bolso e me oferecia mais tarde para eu colocar na minha colecção.
Com o avô Joaquim aprendi a apanhar azeitona e a semear e colher todos os bons frutos e aromas do campo. Eu gostava particularmente quando ele me levava até à “Casa da Burra”, a arrecadação onde guardava todos os apetrechos, e quando me apresentava um a um, todos os instrumentos e segredos que lhe permitiam cultivar a terra.
O avô Francisco era carpinteiro e por isso acariciava a madeira dos móveis como se fosse gente, fazia réguas de madeira muito certinhas para levarmos para a escola, contava-me como era a Florbela Espanca, com quem ele se cruzara muitas vezes em pequeno, e todos os anos pelo meu aniversário me oferecia uma nota de vinte escudos com o Santo António, que me permitia comprar tantas coisas que hoje ninguém acredita se nos fixarmos no valor de dez cêntimos.
O avô Francisco gostava de me trazer a passear a Lisboa e de passar comigo a ponte e admirar o monumento de Cristo - Rei, sempre que apanhávamos o autocarro na Avenida de Ceuta para irmos a Almada visitar a prima Naíca, que fumava muito e aproveitava os maços vazios para fazer bases para colocar debaixo das panelas.
Hoje é dia de São Joaquim e Santa Ana, avós de Jesus, e é por isso Dia dos Avós.
Eu deixei-me ir pela memória dos meus com a certeza de que ninguém é feliz por acaso, e de que eu sou feliz porque alguém com amor e infinita generosidade semeou em mim essa mesma felicidade.
Um beijo especial de aqui para as estrelas onde agora vivem todos os quatro que o fizeram de uma forma inesquecível. 

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Quadras ao jeito do campo

No passado dia 13 tive o privilégio de participar em Coruche numa tertúlia poética cujo tema era “Entre a charneca e a lezíria”.
Fiz então algumas quadras que entre uma coisa e outra são definitivamente ao jeito do campo. Partilho-as:

De urze bem perfumada
Saiu a charneca a cantar
Tão feliz, apaixonada
Para a lezíria conquistar

Já Coruche estava à vista
E o Sorraia por perto
Quando rogou que na conquista
Tudo fosse bater certo

E no Castelo, a Senhora
Que os campos conhece bem
Disse-lhe que em frente fora
Com a coragem que convém

Chegado então o momento
A Charneca respirou fundo
Bebeu do amor o alento
E a maior paixão do mundo

Lezíria meu amor primeiro
Meu jardim à beira d'água
Aceita-me assim trigueiro
Apaga as minhas dores, a mágoa

Lezíria do Tejo rainha
Verde infinito, amor, verdade
Eu quero que sejas minha
Desde aqui à eternidade

Ai Charneca há quantos anos
Que eu te esperava aqui
De entre os campos lusitanos
Eu só te quero mesmo a ti

E a Lezíria e a Charneca
Casaram sob o céu azul
Que adiar o sonho, hipoteca
O amor, a perfeição do sul.

E como hoje é Sexta-feira e véspera de um fim-de-semana, aqui vai só para vocês:

Hoje é dia de São Tiago
Discípulo de Compostela
Não bebam a vida de um trago
Com amor e fé… desfrutem dela.

Um grande abraço


quinta-feira, 24 de julho de 2014

O sonho de uma manhã de verão

Há um campo imenso em tons de verde e rasgado por flores, que encaminha inevitavelmente os nossos olhos para o mar que ao longe toca o céu num degradé por entre mil tons de azul.
O sol nasceu não há muito tempo, e o navio imponente que passa a ritmo constante cumprindo o seu destino, tomou desta hora um inédito tom de ouro que brilha intensa e incansavelmente.
Eu vejo o ouro a cruzar e por sobre o azul.
Escuta-se o vento que sopra forte; e o velho pinheiro e a mancha ali à direita de um pequeno canavial que toca o leito quase apagado da ribeira, já se renderam e parecem querer voar aproveitando este impulso do ar que corre veloz dando-nos a sensação de fresco por entre a manhã de verão.
Há uma casa que já foi branca, o que resta da torre sineira da pequena capela de uma quinta que alguém um dia sonhou com vista para o Atlântico, e que é agora uma sombra de cal com buracos de onde nascem e crescem silvas… e amoras.
Passa gente, a pé ou em carros, cumprindo com perícia o labirinto das horas neste ciclo irredutível do tempo; mas és só tu, o meu amor de rosto sereno e perfeito, quem eu vejo encostado à paragem de autocarro a quem estes dias de estio e férias ofereceram uma inédita solidão.
Eu voo por sobre esta manhã e por este sonho que não tem palavras.
Nos sonhos os gestos e os olhares falam muito mais do que aquilo que os lábios possam dizer.
Eu voo por sobre este sonho que talvez nunca venha a ter nome.
Nos sonhos, pouco importa o nome, e o importante mesmo é saber como não acordar.
De repente eu estaciono na paragem, tu abres a porta e entras enquanto eu ouço mais do que nunca, o vento; dás-me então um beijo e seguimos os dois em direcção ao mar.
Os dois felizes, a sorrirmos e sem nunca nos deixarmos acordar.


quarta-feira, 23 de julho de 2014

As mãos mártires de “Anne Frank” também são assassinas e capazes de matar crianças

Tem nome de imperador romano e uma propensão para falar que aliada à minha, nos coloca em diálogo logo desde a porta do hotel onde me foi buscar no seu táxi, para me levar até ao aeroporto da Madeira.
Naquela sequência que irmana as conversas com as cerejas, começámos por falar de teatro, depois Raul Solnado, a guerra e acabámos a falar do 25 de Abril de 1974.
Actualmente com 62 anos, o meu companheiro de viagem que tem a quarta classe mas que fala fluentemente quatro línguas por via dos anos em que trabalhou nos cruzeiros internacionais, fala-me desse dia de Abril na primeira pessoa, relatando como o serviço militar obrigatório no Regimento de Transmissões, na Graça, o tinha colocado a preservar “limpo” o corredor antes aberto pelas tropas de Salgueiro Maia ali pelas bandas do Terreiro do Paço.
Não resisto a perguntar-lhe:
- E teve a sensação de estar a mudar a História?
A resposta não tarda na forma de uma outra pergunta:
- E a História mudou mesmo?
E sente-se na obrigação de relatar como vai dura a vida pela ilha, a forma como os seus irmãos sobrevivem à agonia de não ter emprego na construção civil e de como cultivam a terra para conseguir umas batatas “biológicas” que vendem por fora do circuito comercial legal, para que o lucro não se vá todo com os impostos.
- Eu ajudo-os vindo à frente deles pelas estradas durante a madrugada para me certificar de que a polícia não anda por aí.
Continua:
- Sabemos que o que fazemos não está correcto mas se não for assim não há dinheiro para as necessidades mais básicas. Por força das circunstâncias somos contrabandistas dentro do nosso próprio território.
E a História, que muda sempre nos instantes em que chega a liberdade, parece agora quase igual à de antes por via do “pão” e do esgravatar que o momento impõe.
A fome mata e ressuscita regimes políticos, e a imbecilidade reinante no regime de agora apresenta o perigo de legitimar o muito mau, o péssimo de antes.
Quando tudo parece tão igual…
Eu falo-lhe então exactamente da liberdade e até do modo como os dois podemos falar sem medo sobre tudo e também sobre as nossas próprias dores, mas duvido que os benefícios por mim apresentados, o tenham convencido no momento em que chegámos ao aeroporto e nos despedimos desejando-nos mutuamente, muita sorte.
Não tarda e estou sentado na sala do restaurante do Aeroporto a beber uma Brisa de Maracujá com o olhar a alternar entre o azul do Atlântico e o negro, o muito negro dos dias de Gaza.
A História repete-se comprovando que o Homem nunca aprende nada com o muito mau do passado, em qualquer parte do mundo, tal como em Portugal.
Ou talvez seja genética esta miséria que nos deixa tristes quando percebemos que a esperança morre ou se apaga para que o ciclo passe sempre pela guerra, “legitimada” tantas vezes por esse estúpido estatuto de divindade, de santa.
A dor que nos entristece quando descobrimos que as mãos mártires de “Anne Frank” também são capazes de assassinar e matar crianças de uma forma brutal e cruel.
E a vítima faz-se carrasco no triste ciclo de uma História que tem ares de inevitável, mas que eu quero sempre acreditar que não o é.
Valha-nos a liberdade e a paz… e já agora, que não nos falte o pão.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Xtremerotation

Cumprindo um fado recorrente entre os nossos, um velho amigo foi recentemente dispensado pela empresa onde trabalhava e não perdeu tempo a criar a sua própria empresa, que isto de estar parado é um pouco como deixar-se morrer.
Pesquisando sobre os procedimentos a seguir para concretizar com êxito este objectivo, deparou-se desde logo com um alerta relativamente ao nome a escolher para a empresa pois qualquer proposta teria de submeter-se a uma avaliação rigorosa que poderia bem acabar numa reprovação.
No entanto, para facilitar todo este processo, o Estado fornece uma lista de nomes credíveis que garantem aprovação imediata.
Os nomes estão no sítio da internet com o endereço www.empresanahora.pt/ENH/sections/PT_lista-de-firmas, e a expectativa legítima é a de encontrar nomes imaculados.
Começamos obviamente pela letra A e as três primeiras sugestões (Abstratigracioso, Abstratimasgistral e Acontecódromo) já nos deixam desconfiados que algo não estará lá muito bem.
Mas damos o benefício da dúvida e seguimos para o B, encontrando aí os brilhantes nomes de Bonusadrenaline, Brilhacornucópia e Believignition, e começamos a olhar para o lado pensando que há uma câmara oculta que nos colocará algures na TV num programa de apanhados.
Seguimos a medo passando por Calculconstellation, Carismapetecível, Decadalegre, Defaultintense, Emblematisphere, Embracevanguard, Equação Vedeta, Excentricaláxia, Fascinantefólio, Favoritiprediteto, Gabarintencanto, Gengibreláxia, Horizoncourtesy, Identifikódromo, Inseparavelândia, Junglequation, Kontrastenómico, Latitudelégua, Listinteressante, Magnetikintuiton, Merecidensaio, Número Gabarito, Orbitnómada, Palistrideal, Pódiovioleta, Rabiscobastidor, Trampolimláxia…
E quando chegamos ao fim e nos deparamos com Xtremerotation, garanto-vos que já achamos que a Ana Malhoa e o José Castelo Branco são gente normalíssima e simples detalhes de um país de excêntricos e loucos.
Eu bem sei que uma pessoa que perde o emprego até tem que se distrair, mas há vias um pouco mais simpáticas do que esta para o fazer.
Uma dúvida que me assiste é relativa a quem terá criado esta lista. Terá sido alguém de mal com a vida? Alguma criatura com excesso de flatulência a ditar isto para uma assistente surda?
Fica a dúvida.
Mas se o Estado pagou a algum cérebro para “vomitar” isto, como é certo que pagou, valha-nos Deus.
Um benefício: pelo menos ficamos a saber porque é que o Carnaval não é feriado nacional. Carnaval é quando um Homem quiser.
Certo?   

segunda-feira, 21 de julho de 2014

O meu caminho

Como se já não bastassem o ser domingo e a hora tão excessivamente matinal do meu voo para o Funchal, e ainda tive de suportar ao meu lado dois ilustres representantes daquela elite empresarial lusa que monta imbecis em BMWs, almas que substituíram a potência cultural pela dos automóveis, e mesmo a outra, a da virilidade, deve andar de rastos, pois em vez de terem os orgasmos nos legítimos ou ilegítimos leitos, têm-nos aqui nos bancos do avião, usando para isso o órgão com maior capacidade de distensão dos seus corpos bem trabalhados no ginásio: a garganta.
Tivesse eu uma caderneta para coleccionar disparates e ela ontem tinha ficado preenchida.
Dói-me a cabeça, preciso de um café e, depois de tanta presunção, venha de lá a água benta porque é domingo e eu ainda não fui à missa.
A Sé do Funchal está pejada de turistas que quando se apercebem que vai começar a missa, fogem de tal forma que parece que alguém lhes pediu que fizessem o pino.
Resta à minha frente uma “lady”, chamemos-lhe Estrelícia que deve ter-se levantado à mesma hora em que eu fui para o aeroporto, porque só assim consegue estar ali com tantos ganchos, pregadores e outras estruturas prateadas agarradas ao cabelo armado.
Juro que a minha árvore de Natal tem menos apetrechos e é bem mais discreta.
Não demora muito a que chegue o marido e se junte a ela, por certo depois de ter ido estacionar a viatura da “princesa”; e não é que o raio da mulher não faz outra coisa se não olhar para o homem com desdém, como se estivesse a ser vítima de dismenorreia mental, abanando a cabeça de tal forma que o brilho de tanto apetrecho metálico quase me dá a sensação a mim que estou por detrás, que tomei qualquer coisa ilícita e estou a ver a “lucy in the sky with dimonds”.
Traço-lhe a sina: esta “gaja” não tarda nada e será trocada por uma brasileira dengosa que faça cafuné a este homem.
E depois queixam-se.
Abstraio-me porque vai começar a missa.
Parábolas, o grão de mostarda, o trigo e o joio… e a homilia com o padre a falar de Gaza e a dizer que com tanta guerra somos tentados a pedir a Deus que deite ali uma bomba e destrua toda aquela terra.
Somos?
Ou será ele?
Eu ainda acredito que a melhor forma de curar um golpe num dedo não é amputar a mão.
Será que com tanta manipulação genética o homem se baralhou e já não sabe o que é o trigo e o joio.
Parece-me que hoje isto não está bom nem na presunção nem na água benta…
A missa acaba não sem antes existir o abraço da paz em que o marido se vira para trás e me aperta a mão e a Menina Estrelícia permanece a olhar para o altar, muito possivelmente a pensar que é estrela.
Ai Estrelícia que quando tu te deres conta já a Brasileira te deu cabo do penteado…
Saio da Sé e procuro um restaurante para jantar algures nas ruelas estreitas da baixa do Funchal, quando começo a escutar um Brasileiro a falar de parábolas com a ajuda de uma megafonia que não tem lá grande qualidade.
Olho à volta e vejo que é o culto da Igreja Evangélica que decorre no primeiro andar de um edifício.
A avaliar pelo sotaque do pastor, tenho a certeza de que o marido da Estrelícia ainda acaba a ouvir as parábolas lá em cima.  
Encontro entretanto o restaurante conhecido que procurava, o recomendável “Calhau”, e sento-me ouvindo na aparelhagem a voz de Sinatra no inconfundível “My way”:
“To say the things he truly feels and not the words of one who kneels.
The record shows I took the blows and did it my way!”
Corre uma brisa e finalmente as palavras parecem fazer algum sentido.
Olha que isto de encontrar o meu caminho por entre um domingo…

domingo, 20 de julho de 2014

Paixões, cumplicidades e canteiros de flores

Nós os loucos, os poetas, os amantes da liberdade, os que não tememos os abraços, e os irracionais que idolatramos a nossa verdade e fazemos dela o centro da vida, a própria razão; tarde ou cedo nos encontramos algures numa esquina do tempo para partilhar sentimentos, muito mais do que palavras, para falarmos daquilo que nos move: a paixão.
Às vezes à volta de um chá no cimo de uma velha escada de madeira que parece ter bebido todo o eco da poesia de Pessoa; outras vezes por entre o sol a pino que beija a charneca e oferece perfis mágicos e majestade às árvores do caminho…
E ainda e também por sob o luar…
Afinal, nós os loucos, sabemos falar com a lua, e sabemos que por mais longe que se encontrem os donos dos olhares que amamos, todos estamos sempre a olhar para ela por entre o escuro da noite; e a lua é como a vida, denominador comum de olhares e vontades dos eternos amantes.
E a lua é nossa irmã quando por entre o medo e a saudade, nos abraça e nos toma pela mão, entregando-nos livres ao sol que tinge as árvores de magia e que faz brilhar intensas as rosas e as dálias nos canteiros por onde, entre a primavera e o verão, “espreguiçam” o seu viço.
Ontem ao chegar a casa ao fim do serão, subiu comigo uma gravata linda num padrão de xadrez de entre verde e azul, que irei estrear em alguma futura ocasião especial.
E por mais voltas que o mundo dê, e mais ou menos nódoas que lhe manchem o padrão, aquele pedaço de tecido será sempre o sinal de um cúmplice entrecruzar de histórias e cumplicidades, de uma partilha perfeita de afectos carregada do verde de uma intensa e eterna esperança; e do azul, que pelas nossas paixões a vida sempre acaba por nos dar o céu.
Meninas, criaturas doces e perfeitas, eu juro que adormeci com a certeza de que os vossos dias desembocarão num canteiro de flores das mais viçosas do universo, nos tons todos e perfeitos que trazem as flores quando nascem de uma paixão assim tão grande.
Só aí pode desembocar a vida de quem manda beijos pela lua.
Digo-vos eu com toda a legitimidade de quem depois de arrumar a gravata no cabide do armário, foi até à janela e mandou pela lua um beijo de amor e saudade a quem estando longe vive cada vez mais dentro de mim.

sábado, 19 de julho de 2014

PEDRO MIGUEL

No álbum mais antigo das relíquias fotográficas que guardo aqui em casa há uma foto de nós os dois na Corredoura, no passeio em frente à loja do teu pai e ao café do Sr. Cândido, o “Café Regional”, em que seguramos a tampa de uma caixa de lençóis com a reprodução de um retrato da Maria Antonieta, a austríaca, filha da Imperatriz Maria Teresa, que se fez Rainha de França por matrimónio com Luís XVI, e que antes de perder a cabeça se encarregou de demonstrar que não perdia grande coisa, pois quem diz ao povo para comer brioches no caso de não ter pão…
Mas estamos muito bem na foto que data do verão de 1975, aquele famoso e quente do “parto da liberdade”, sobretudo porque aquele território ali representado foi a nossa corte, o espaço onde fomos imperadores e dominámos o tempo com cumplicidades e gargalhadas que jamais deixarão de render uns valentes sorrisos sempre que espreitarem à janela mais exposta da nossa memória.
E às vezes também perdemos a cabeça, mas também isso era próprio da idade.
Na livraria da D. Joana, para além de lermos a “Tele Semana” atrás do balcão em pose de locutor como se estivéssemos em directo na RTP, dos muitos livros que podíamos ler, “bebíamos” a magia que nos inspirava para depois irmos para o “celeiro” e para a travessa fazer os nossos clubes de aventuras e as nossas muito próprias edições do “Festival da Canção” e de “A Visita da Cornélia”.
E aí, desde imitar a Simone a cantar “A Desfolhada” com uma letra numa mistura de palavras entre a versão original do Ary dos Santos, e as nossas próprias palavras; imitar a D. Dada de “A Gabriela” que achava sempre estar um pouco mais cheiinha; ou até fazer uns telefonemas anónimos em nome de uma tal “Claudete” que tinha o hábito de os fazer em “O Astro”, digamos que valia quase tudo para nos podermos rir com gosto. E tu eras o mestre, mesmo sendo o mais novo do grupo.
Riamo-nos na missa de São Bartolomeu quando acolitávamos o padre e nos entravam aqueles “ataques” inexplicáveis só porque alguém gritava um “ámen” um pouco acima do tom e muito fora do tempo correcto, quando jogávamos às cartas, ao “Cames”, e tu não conseguias encontrar um sinal mais discreto do que caíres da cadeira, quando vendíamos calendários das missões anunciando-nos às campainhas como vindos das “Missões Franciscanas”, não dizendo sequer uma só palavra quando nos abriam a porta pois o riso era incontrolável…
Já não nos rimos tanto quando acabámos trancados na tua dispensa ou quando tu tentaste voar da varanda até à cozinha rasgando o tecto numa operação que qualquer 007 não desdenharia poder realizar nas telas da sétima arte.
E tantas outras histórias haveria para contar, episódios que contamos e recontamos, e que ainda hoje nos fazem rir sempre que nos sentamos à mesa do café para “actualizar os ficheiros” relativos aos nossos dias, que continuam afortunadamente repletos de cumplicidades e de afectos, dando uma sequência de amizade que muito me orgulha, a esse tempo em que crescemos juntos e em que fomos imperadores envoltos pelo fausto privilégio da maior alegria.
Porque podem sempre ter passado muitos meses e até anos, mas quando nos sentamos frente-a-frente, tantas vezes na nossa Vila Viçosa, sabemos sempre por onde retomar a conversa, e nunca nos faltam assuntos.
É assim que sempre acontece com os amigos e por isso tu não poderias faltar por aqui nesta galeria de “notáveis” que eu celebro durante 2014.
Pedro, um fortíssimo abraço de parabéns.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

A jangada e as más ondas

Num país que tem um “Cemitério dos Prazeres”, um “Palácio da Pena”, que festeja a “Festa das Cruzes” e as “Festas da Agonia”; não será talvez novidade e motivo de revolta, que os “Passos” do Parlamento (e do governo) sejam “Perdidos”, esbarrando sistematicamente em “Portas” fechadas ou que não levam a nenhum lugar “Seguro”.
Um país de políticos virados para o poder e entretidos na luta pelo dito, sempre de “Costas” voltadas para o povo a quem não dão “Cavaco”, ou melhor, dão, mas é como se não dessem nada de bom.
E antes não dessem nada.
Um país onde a banca, “Branca” só teve uma dona há muitos anos, e mesmo essa porque os pais e os padrinhos resolveram chamá-la assim na hora do registo; tudo o mais é negro de procedimentos e de consequências para os bolsos dos contribuintes.
Um país que vai perdendo a fé, onde até o “Espírito Santo” anulou o Cristiano Ronaldo (ao jeito do Bastian Schweinsteiger), assassinou a D. Inércia, e avançou sem medo para o precipício.
Um país onde os católicos mais puristas, xenófobos, homofobos, e com mais tempo de antena, gritam “justiça” do alto dos seus carros de alta cilindrada e dos seus múltiplos ordenados, opondo-se ao respeito básico pelos cidadãos e… ao aumento de um ordenado mínimo que já é “excessivamente” mínimo, no exercício de uma estranha caridade.
Um país que alinha a música popular com as finanças, e… “Pimba”, há sempre um imposto que pode aumentar um pouco porque o povo pode ser tonto, mas tem bolsos de elástico e tem vocação de “aguenta, aguenta”.
É forçosamente um país em que os Negócios Estrangeiros estão instalados perpetuamente num “Palácio das Necessidades”, sendo estas satisfeitas periodicamente e de forma bem cara após a mão estendida a uma qualquer Troika.
É forçosamente um país onde o maior reconhecimento internacional vem da genética tristeza ensaiada e cantada em tom de fado… e do turístico sol que ainda consegue brilhar por cima do nosso desespero.
É forçosamente um país onde a filosófica ambição do “só sei que nada sei” foi transferida para outros “Sócrates” mais resignados ao marketing do “porreiro, pá”.
É forçosamente um país desesperado e agarrado a uma esperança que vai assumindo cada vez mais os ares de uma muito rudimentar jangada em risco de afundar.
Resta-nos resistir nadando com força porque o nosso querer nunca se dissolverá na imbecilidade das ondas que nos empurram. 

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Tu, a minha casa

Lisboa é pátria mãe de amores, e isso sente-se na frescura da brisa que prolonga o céu e nos abraça, na calçada que nos desenha a rota, e no Tejo cúmplice que ao fundo “pisca os olhos” azuis da sua água que vive em perpétuo namoro com o sol do fim da tarde.
Os nossos passos lentos e polvilhados de palavras, cedem por vezes o momento para um tímido abraço, irresistível e manifesta despudorada inveja da pele perante a paz que nasce da entrega que os nossos olhares fazem um ao outro.
E sinto então o teu calor que me conforta, que me oferece alento e faz com que eu sinta mais do que nunca que cheguei à minha casa.
No banco à sombra do jardim, alcova de segredos, muito mais do que alívio dos cansaços, soltam-se livres os desejos quando entrecruzamos histórias, vontades, e as nossas mãos se tocam para que eu comprove que é sempre seda, o que sinto por entre o namoro dos nossos dedos que se querem da mesma forma serena como o todo de nós se quer e se deseja.
E os teus olhos que brilham sempre mais do que o Tejo e rompem as sombras densas de todas as árvores, fazem-me voar por sobre este momento como um pássaro entregue à mais doce liberdade.
Vive-se bem melhor quando os dias nos oferecem um momento assim.
Não quero partir jamais e quero que os nossos beijos sejam eternos.
E se um dia nos faltar Lisboa…
Beberei o Tejo do teu olhar, colherei a brisa do detalhe de um abraço, e viverei feliz amando-te para além de qualquer tempo e de qualquer espaço.
Amando-te a ti, o meu amor sereno, a minha cidade... a minha casa. 

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Tudo vale a pena…

O prazer das palavras escritas, as minhas e aquelas outras que alguém escreveu para mim e para a humanidade toda, faz com que em muitos serões, a minha relação com a NOS se reduza ao estatuto de bancária com contributo mensal, com a televisão a permanecer desligada.
Nessas noites, para além da música, apenas o vento, que em São Marcos e nos meses de verão, sopra forte e com uma “mostrenga” potência de temível adamastor, são eleitos como companhia sonora.
O silêncio é sempre uma mentira e uma ilusão, pois sabemos que o pensamento “grita” em nós a cada instante; e isto não acontece só porque às vezes o vento até consegue ganhar até à música no semear de palavras que germinam e fazem desabrochar memórias.
Todas as memórias…
Ontem fiz um intervalo nas palavras escritas para terminar o Lego que os Ricardos me ofereceram no aniversário.
Eles não sabem, mas eu esperei precisamente 45 anos até voltar a receber novamente um Lego como presente, depois de no dia dos meus 3 anos ter sido brindado com um carro pela Tia Carlota, que ouviu então uma boa reprimenda da Avó Dade por ter ousado oferecer ao “menino” uma viatura assim “esmigalhada” em dezenas de peças aparentemente sem graça nenhuma.
Depois de ter visto o carro montado, e depois também, a casa, a estátua, as pontes… e tudo o que essas peças e a imaginação permitiram, penso que a avó terá mudado de ideias relativamente à utilidade do presente.
Os Legos são cúmplices da vida, dão-nos ou buscamos as peças, e arquitectamos e damos-lhes a forma que quisermos.
E quem um dia conseguiu fazer carrinhos a partir de pedras ou microfones a partir de paus de uma oliveira, não tem dificuldade em montar um “Big Ben” a partir de pedras soltas, pequenas e todas aparentemente iguais.
Cansado do vento do verão de São Marcos e com o Lego já montado, quase sem saber porquê, e talvez com algum toque revivalista, a música solta-me “A vaca de fogo” dos Madredeus.
Já não consigo precisar quem algures pelo final do curso e nos corredores da Faculdade, um dia me disse:
- Tens de ouvir. A rapariga tem um penteado estranho mas uma voz fantástica a brotar de uma sonoridade única onde o acordeão vai dando o ritmo.
Eu ouvi, e agora, muito mais do que aos dias da Madredeus, associo esta música aos dias em que as muitas e variadas “peças” à solta pediam a arquitectura de algo que desse corpo aos sonhos e vontades acumuladas ao longo deste crescimento em paralelo com a liberdade, a minha irmã sete anos mais nova do que eu.
Um privilégio, esta liberdade.
O silêncio, as músicas e até o vento, às vezes soltam memórias, e nós que somos de muito pensar, não conseguimos deixar de fazer balanços, acabando sempre por deixar escapar um desabafo por entre uma ou outra lágrima:
- Bolas… foi difícil mas valeu a pena.
Tudo vale a pena… quando não nos traímos nas opções que fazemos na hora de juntar as peças.
Mesmo que nos chamem loucos ou até, às vezes, doentes. 

terça-feira, 15 de julho de 2014

Um destino

Eu não acredito no destino.
Não acredito que exista uma inevitabilidade cósmica que faça de nós meros e passivos espectadores assistindo ao desenvolvimento de uma história que é a nossa própria história.
Acredito apenas que existem momentos e pessoas que se aproximam muito dos nossos sonhos e da nossa vontade, e existem cumplicidades que de tão perfeitas parecem ter a marca do divino.
Sonhos, vontade, cumplicidades… e quando tudo é assim tão perfeito e tão nosso, até parece um destino que ultrapassa e esmaga a aparência de um qualquer momento.
Estar em casa sozinho num serão de verão a procurar parede para pendurar um quadro que um amigo fez e me ofereceu; reler alguns trechos de “A mensagem”, contemplar a dedicatória feita por um amigo e colocar o livro na estante na secção / “altar” especial de Fernando Pessoa; arrumar mais três livros na estante, um DVD e colocar um novo livro de receitas numa das gavetas da cozinha; alinhar quatro presépios na colecção; incorporar os “novos” tintos por região e data, contemplando uma “tampa” especial de porcelana com cabeça de pássaro; guardar patês no armário; arrumar as meias novas, a camisola, o pólo, a camisa e até alinhar o novo perfume com as essências disponíveis no móvel do quarto; “colar” na porta do frigorífico, um azulejo que representa São Francisco de Assis; pensar na data em que irei ao “El corte ingles” comprar algo de que necessito usando um cartão presente; arrumar um pião de madeira e um marcador de livros feito de cortiça; escrever a palavra “amor”, para que seja a primeira na primeira página de um bloco com capa de cortiça; acabar a noite a construir um Lego que representa o Big Ben e lutar com o sono por não querer deixar a obra a meio…
E o estar sozinho é apenas um brevíssimo detalhe físico por entre um “destino” onde também ecoam milhares de palavras, um “destino” muito bom e tecido pela amizade de cada pessoa que se faz presente em tudo, e sobretudo na memória activada pelo coração.
E estes objectos todos?
Nem seria preciso que estivessem por aqui para que os amigos fossem lembrados e me fizessem companhia neste serão, mas no fundo estes objectos são beijos e abraços que me confortam e fazem companhia numa aparentemente solitária noite de verão, algures por entre o “destino” da melhor amizade.
A tal amizade que vai tecendo a minha própria história por entre os “sins” e os “nãos” das opções que vou fazendo.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Os amigos e a poesia

Sob o luar maior de Lisboa e nas vielas do bairro mais alto da cidade, aquele que tem cor de sardinheiras, tom de fado, e que no cimo da colina parece querer agarrar a própria lua, cheia se faz a noite ao redor da mesa de todos os afectos.
A noite perfeita tecida pelos instantes em que a poesia se solta dos olhares, dos abraços, de todos os gestos e das palavras dos amigos.
A minha história tornando-se mais feliz assim entrelaçada nas histórias daqueles a quem o coração oferece a magna coroa e os torna “a minha gente”.
E a nossa idade, como a nossa história, é muito mais medida por gente e afectos, do que ditada pelo tempo e pelo passivo percorrer dos dias.  
A noite perfeita e intensa faz-se naturalmente pequena até ao momento em que o sol surge no horizonte e me desperta para o privilégio de olhar o Atlântico num desvario de azul que só nós, os marinheiros de sangue e alma, conseguimos entender.
O mesmo sol que pela hora de almoço parece fazer-me rota por entre a lezíria até às margens do Sorraia.
Lá no alto, em Coruche, a Senhora do Castelo, guardiã do Ribatejo, dos campos e da gente; faz-se cúmplice da poesia, que por palavras e música, enche o domingo e os degraus fronteiros à esplanada onde todos os que vieram se abrigam à sombra.
A poesia à solta, cumprindo o seu destino incompatível com paredes e muros, assim livre ao sol da lezíria.
E é tão bom sentir que as minhas pobres palavras se fazem poesia na voz e no sentir de muitos.
A poesia é de quem a sente, muito mais do que de quem junta as letras e lhe dá a forma de palavras.
Já não falta muito para que a lua cheia volte a ser rainha e me tempere a noite de uma inédita e doce claridade. Nos canteiros da Mina e da Natália, um pouco antes do jantar, cheiramos flores afagando-lhes as pétalas: privilégios únicos do campo.
E a amizade regressa fazendo deste fim-de-semana um ciclo ao redor dos afectos, das palavras e da poesia.
Assim sou feliz.

sábado, 12 de julho de 2014

GUILHERMINA MARIA

Um dia Deus criou o mundo, e quando se cansou de o ver a preto e branco, nasceste tu.
Não que o pigmento que nos dá cor aos dias venha da tua voz grossa que fala alto e canta nas missas os mais sonoros “Amen’s” de que à memória, não que derive desse jeito para tosquiar com perícia todos os que se aproximam para recolher lã, ou até mesmo do facto de fazeres o melhor Cozido à Portuguesa de que há memória; a cor e o sabor que dão perfeição aos nossos dias nascem da tua inultrapassável generosidade.
Em tantos anos de uma boa e indispensável amizade nunca te vi preocupada contigo, sempre com os outros, e às vezes muito. Atesto até que das tuas rugas nenhuma nasceu de qualquer egocêntrico mal-estar ou desconforto próprio.
Sabes que as pessoas pequenas têm um coração à sua medida e só conseguem cuidar delas próprias, e as pessoas grandes assim como tu, têm um coração que lhes permite “abraçar” a humanidade toda, se tal for necessário.
Senti sempre essa dimensão fantástica do teu coração, mas talvez nunca como naqueles fins de tarde do Hospital de Santa Maria, quando a Natália no altar das suas dores nos punha ali pelos corredores a reflectir sobre a vida e o sentido que lhe queremos e devemos dar.
Cresci contigo nas tuas palavras, nos teus gestos e na tua inabalável fé, nas lágrimas aflitas do teu pai, nos gestos meigos da tua mãe, e claro, na perseverança heróica da Natália; todos sendo meus mestres naquele hiato entre as aulas na Faculdade de Farmácia e o jantar que me esperava na cantina, numa altura em que deixara o conforto do meu berço “Calipolense” e me descobria verdadeiramente a mim, e afinava o sentido a dar aos meus dias pelo meio de tantas infinitas questões e dúvidas.
Não serei muito boa pessoa, mas se não fossem vocês eu por certo seria um pouco pior.
Depois, há em ti aquela devoção pela terra, a intimidade de quem trata por tu cada palmo do chão oferecido por Deus aos nossos passos e à morte da nossa fome e sede.
Há as árvores, o arroz, os animais, os frutos, as flores, as fontes…
E contigo todos ficamos mais ricos porque é por via da gratidão ao universo que a vida se nos enche das maiores bênçãos.
E a dimensão da cor que nos ofereces também vem da alegria e das gargalhadas, que são sempre bem mais fáceis e naturais quando o nosso Glorioso ganha.
É um facto que os dois fomos feitos para chorar a rir, muito mais do que para chorar de tristeza, pelo menos em público, que depois na intimidade é com cada um.
Também temos uma predilecção especial e um jeito único para encontrar uma boa piada, às vezes até sem ter que recorrer a qualquer palavra.
E as piadas estão sempre em nós e nas nossas coisas.
Onde mais poderiam estar?
O leite-creme é coisa que se faz na “tua” bimby mas as piadas querem-se assim caseiras como a comida que fabricávamos nas cozinhas dos convívios de Coruche em que tu eras oficial, e eu, um cavalheiro soldado que andava mais direitinho que um fuso a servir o arroz carolino.
Sim, senhora Engenheira Agrónoma, que eu já aprendi e mais nenhum outro tipo de arroz me entra cá em casa a não ser o nacional.
Hoje é o teu aniversário e nem interessa dizer quantos anos cumpres pois pessoas como tu, são eternas, e estão muito para além da banal contagem do tempo que assiste os demais mortais.
Em meu nome, em nome da poesia, da vida, da fé, do riso, do ser feliz, da cor dos dias… um beijo de parabéns.
E não penses nunca em faltar-nos, pois gente como tu é como o ar: imprescindível.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Campeões do mundo

Por tanto “ir à bola contigo”, sei que temos tudo para derrotar os adversários e assegurar goleadas em todos os desafios que se nos coloquem no “campeonato”.
Sempre depois de termos cantado juntos os “nossos hinos”… e de mão dada.
Sem grandes (nem pequenas) penalidades, e também sem prolongamentos, que todo o tempo será pouco para fazer a festa dos abraços e dos beijos, no relvado, nas praças das cidades, nas rotundas, nos cafés… ou em qualquer outro sitio.
O segredo?
De olhar certeiro para o mesmo objectivo, visão de equipa, motivação, alma, coração (este então…), entrosados e com um perfeito plano técnico-táctico, desenharemos jogadas “infernais” que nos levarão sempre a gritar e a festejar golo.
“Em cantos”, muitos, e com eles a aproximação à “baliza” que aumenta a eficácia.
Livres, mesmo com barreiras cerradas à nossa frente, mas sempre directos… ao golo.
Fora de “jogo”?
Só quem esteja contra nós.
Faltas?
Seremos superiores às rasteiras, aos empurrões e às ilegalidade dos nossos adversários, tentados tantas vezes a meter a mão à bola (e às vezes até o nariz… onde não são chamados).
Também poderá sempre acontecer que algum juiz nos apite por considerar que estamos fora das regras e das leis do “jogo”, poderá até mostrar-nos um cartão amarelo ou um vermelho, mas não há problema; a inferioridade numérica nunca conseguirá anular a motivação e a qualidade do “jogo”.
De tão unidos pareceremos sempre mais, e seremos sempre mais fortes do que todos os adversários.
Onde estiver um de nós, estaremos sempre os dois.
E nas bancadas sorrirão os amigos aplaudindo e fazendo a claque que nos empurra para a vitória.
Treinadores?
Os mestres da nossa fé.
Comentadores?
Digam o que disserem nós seremos mais fortes do que as suas meras palavras.
Transferências?
Por dinheiro nenhum nem mais nada deste mundo, tu serás sempre a minha selecção.
Juntos…
Sei que cruzaremos todos os “quartos” que a vida nos vier a oferecer, iremos até partilhar as “meias”, e chegados à final seremos campeões do mundo.
Só pode…