quarta-feira, 2 de julho de 2014

SOPHIA

Recuso-me a deixar de ser menino…
E aqui no mar da Granja, o eterno novo mar do norte que nunca se cansa de falar comigo, reconheço em cada detalhe por entre a água e o areal, todos os mistérios revelados nas tardes em que lá longe ofereci os meus ouvidos à bênção de um velho búzio.
Menino nascido de um búzio deste mar… ou do mar grego que banha as férteis planícies de Cós, ilha, musa, pátria de deuses e irmã cúmplice da história da liberdade.
Aqui, com um antes e um depois, um tempo dividido mas sempre sob o signo de sonhar; sou um poeta com o canto e a herança de Orfeu, e um eterno apaixonado com a fidelidade de Eurídice fugindo às garras da cobiça do apicultor Aristeu.
Com as cores rebeldes de um coral, sou vadio, um Cristo cigano entregue às navegações que a alma lhe impõe, na geografia da vontade que dá um nome, o meu nome, a todas as coisas que por eu tanto querer já se fizeram minhas.
E juro que serei fiel a mim, e serei sempre eu, aqui em frente ao mar vivendo intensamente o hoje em que tudo acontece.
“No Hoje, nasci... no Hoje, vivo... no Hoje, morrerei um dia”
Aqui em frente ao mar e ao jeito de Sophia, que mais do que a rima que lhe dá o nome, é a própria poesia.
Sophia de Mello Breyner Andresen torna-se hoje a segunda mulher a entrar no Panteão Nacional. Depois da voz dos deuses, Amália, completa-se um ciclo com a mestra das palavras desses mesmos deuses.
Juntam-se aquelas que eternamente no Luso Olimpo, são as palavras e a voz maior da glória do nosso povo.
Um dia ainda menino e na minha Vila Viçosa, com a ajuda da Biblioteca Itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian, li de Sophia, “A Menina do Mar”.
E mais do que um livro, foi um búzio carregado do som e de todos os mistérios e encantos da poesia, que transpira até da própria prosa; a poesia que me tomou pela mão ao jeito de um convite:
- “Vem comigo, no caminho eu te explico”.
E por aí vamos.

Sem comentários:

Enviar um comentário