domingo, 27 de julho de 2014

O sangue e as dores de uma geração

Por “mérito” da Diabetes Tipo 2 e pela necessidade de controlar a Glicemia, a Hemoglobina Glicada, o Coleresterol e afins; e depois de andar durante vinte e quatro horas a urinar para um frasco, ontem foi dia de ir fazer recolha de sangue.
Pela manhã e em jejum.
Depois de todos os procedimentos logísticos, vi-me sentado na cadeira do martírio vampiresco tendo à minha frente um jovem de bata branca devidamente vestida e com a voz e as mãos trémulas.
Percebi-lhe o nervosismo, e por isso, e também porque a melhor perspectiva do mundo não é definitivamente a de umas mãos trémulas a avançarem com uma seringa em riste que nos “furar” umas das veias do braço esquerdo que já está devidamente esticado, resolvo atacar com uma das áreas em que me sinto mais à vontade: a conversa.
E pergunto:
- Então já trabalha há muito nesta área?
A pergunta não resultou muito porque claramente o rapaz percebeu que eu tinha lido o seu nervosismo, e responde sentindo a necessidade de se justificar:
- Acabei o curso de Técnico de Análises Clínicas e fiz de imediato um estágio, depois tive de parar dois anos e agora consegui novo estágio e estou aqui há duas semanas. E sabe… perdemos um pouco a mão para o trabalho.
E reforça:
- Gosto muito desta área, por isso insisto em ficar por aqui.
Então já de garrote, de veia picada e com o sangue a jorrar de um tubo para dois grande frascos, eu lá vou animando o meu interlocutor que se vê respirar melhor a cada segundo e à medida que vê o trabalho a chegar ao fim e sente como eu, a sua “vítima” desta manhã, até estou feliz.
- Não está a sentir-se mal?
- Nem pensar. Estou óptimo. Siga que está a ir muito bem.
Não fixei o nome deste rapaz que até o tinha gravado numa placa presa à bata, mas pouco importa, ele é um dos muitos da geração a seguir à minha que por culpa da precariedade vai adiando os seus sonhos num país onde os cidadãos só interessam na perspectiva de contribuintes, e contam muito pouco por entre a administração feita pelos políticos que só têm visão se por acaso a comprarem à quinta-feira na banca dos jornais.
Um país onde a agonia das pessoas conta muito pouco perante a prioritária saúde dos impolutos banqueiros protegidos por uma justiça que é um mero folclore de retórica.
As mãos trémulas de uma geração que envia milhares de curricula para receber outros tantos milhares de nãos.
E eu entendo bem o amargo sentir das suas agonias porque muito bem me recordo da alegria de ter acabado uma licenciatura a 27 de Abril e ter começado a trabalhar no do dia 2 de Maio do mesmo ano, ganhando então há 24 anos e em escudos, o mesmo que este rapaz ganha hoje na “esmola” de um estágio profissional pelo qual esperou dois anos.
Entretanto o sangue acabou de escorrer para os tubos, eu já carrego num algodão impregnado de álcool e em breve, o técnico colará ao meu braço um penso rápido que me protegerá durante algum tempo.
Levanto-me, estendo-lhe a mão e tenho a noção clara de que minto com todos os dentes que carrego na boca quando lhe confidencio com claro intuito energizante e indutor de confiança:
- Vá em frente, em tantos anos a tirarem-me sangue ninguém o fez tão bem quanto o acabou de fazer.
Ele sorriu e tenho esperança que tenha tremido um pouco menos ao tirar sangue à senhora que se sentou a seguir a mim na dita cadeira do martírio.
É que com as mãos a tremer assim, a picada dói muito mais. Eu que o diga.

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