terça-feira, 8 de julho de 2014

Eu, “cabra”, me confesso

É a hora do almoço e as televisões estão em directo. Há dois casais por entre as brumas da república e da monarquia, que avançam em direcção à opulência rococó do palácio ao gosto de D. Maria I de Portugal; e os cavalos de alta escola enfeitam os jardins fronteiros à fachada de Queluz, saltitando algures entre o buxo e as fontes de pedra.
Vantagem da monarquia em jovialidade e capacidade motora, que esta república vai a arrastar as ancas muito alargadas pela opulência, e vai coxa e com uns artelhos visivelmente inchados e estragados pelo tempo.
As câmaras de televisão seguem o lento caminhar dos dois líderes ibéricos e suas respectivas damas, e deixam que espreitemos inadvertidamente para as portas de madeira que dão acesso ao edifício que albergou a nossa monarca quando foi atacada de uma muito desagradável loucura. A cor verde das portas há muito desbotou e a madeira desfaz-se em ripas que caem ressequidas na varanda.
Para além de me questionar se existirá uma recorrência na sina de Queluz que atravessa monarquia e república, mas que persiste no albergar de loucos, ocorre-me à memória a série “Gente fina é outra coisa” que andou pela nossa televisão no inicio dos anos oitenta.
Uma família de elevados pergaminhos e baixíssimos recursos decide alugar quartos no seu palacete onde até já faltam alguns degraus na fantástica escadaria de madeira.
Por aqui, como no palácio dos “Penha Leredo e Solomón Bentorrado Corvelins”, vai difícil o orçamento da república.
Já não vemos mais nada do que se passa no banquete mas sabemos mais tarde, já à noite, que a monarquia falou do drama do desemprego no espaço europeu onde os dois países ibéricos se inserem; e a república, muito mais pertinente, referiu que nunca existiu tanta interacção entre os dois países, pois é ver o número de Espanhóis que nos visitam e o número de Portugueses que rumam de férias para Espanha.
A república sempre com aquele mesmo ar desprovido de emoção com que na semana passada leu o elogio de Sophia à porta do Panteão ao jeito de quem lê a bula de um medicamento.
Também me dá a sensação de que a república andou a passear por Lisboa na tarde da última sexta-feira santa, que se tem encontrado com muitos Espanhóis no pronto-a-comer que frequenta habitualmente na Praia da Coelha, ou então que tem recebido muitos postais ilustrados de funcionárias do Possolo que foram de férias para Isla Antilla.
E os desempregados?
À mesa não devem abordar-se assuntos desagradáveis ainda que efectivamente “reais”.
Reza a história que após mais umas voltas pela cidade, a monarquia regressou ao seu reino e a república se quedou por cá.
Declaração pessoal de interesses: sou republicano convicto.
Por muito joviais que sejam os reis e arrastadas as ancas da república, gosto de ter uma palavra a dizer na hora de escolher quem lidera o meu país.
Mas esta república vai mal, e tão mal que até um republicano a vê perder em imagem e conteúdo para a monarquia.
Na série de TV que já referi existia uma cabra de nome Ludovina, que circulava livremente pela casa e era a salvaguarda para a existência de leite ao pequeno-almoço dos Solomón Bentorrado.
Ora eu, cabra de IRS e demais impostos em dia, berro desde aqui:
- Por favor salvem e limpem-me a república!

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