sábado, 12 de julho de 2014

GUILHERMINA MARIA

Um dia Deus criou o mundo, e quando se cansou de o ver a preto e branco, nasceste tu.
Não que o pigmento que nos dá cor aos dias venha da tua voz grossa que fala alto e canta nas missas os mais sonoros “Amen’s” de que à memória, não que derive desse jeito para tosquiar com perícia todos os que se aproximam para recolher lã, ou até mesmo do facto de fazeres o melhor Cozido à Portuguesa de que há memória; a cor e o sabor que dão perfeição aos nossos dias nascem da tua inultrapassável generosidade.
Em tantos anos de uma boa e indispensável amizade nunca te vi preocupada contigo, sempre com os outros, e às vezes muito. Atesto até que das tuas rugas nenhuma nasceu de qualquer egocêntrico mal-estar ou desconforto próprio.
Sabes que as pessoas pequenas têm um coração à sua medida e só conseguem cuidar delas próprias, e as pessoas grandes assim como tu, têm um coração que lhes permite “abraçar” a humanidade toda, se tal for necessário.
Senti sempre essa dimensão fantástica do teu coração, mas talvez nunca como naqueles fins de tarde do Hospital de Santa Maria, quando a Natália no altar das suas dores nos punha ali pelos corredores a reflectir sobre a vida e o sentido que lhe queremos e devemos dar.
Cresci contigo nas tuas palavras, nos teus gestos e na tua inabalável fé, nas lágrimas aflitas do teu pai, nos gestos meigos da tua mãe, e claro, na perseverança heróica da Natália; todos sendo meus mestres naquele hiato entre as aulas na Faculdade de Farmácia e o jantar que me esperava na cantina, numa altura em que deixara o conforto do meu berço “Calipolense” e me descobria verdadeiramente a mim, e afinava o sentido a dar aos meus dias pelo meio de tantas infinitas questões e dúvidas.
Não serei muito boa pessoa, mas se não fossem vocês eu por certo seria um pouco pior.
Depois, há em ti aquela devoção pela terra, a intimidade de quem trata por tu cada palmo do chão oferecido por Deus aos nossos passos e à morte da nossa fome e sede.
Há as árvores, o arroz, os animais, os frutos, as flores, as fontes…
E contigo todos ficamos mais ricos porque é por via da gratidão ao universo que a vida se nos enche das maiores bênçãos.
E a dimensão da cor que nos ofereces também vem da alegria e das gargalhadas, que são sempre bem mais fáceis e naturais quando o nosso Glorioso ganha.
É um facto que os dois fomos feitos para chorar a rir, muito mais do que para chorar de tristeza, pelo menos em público, que depois na intimidade é com cada um.
Também temos uma predilecção especial e um jeito único para encontrar uma boa piada, às vezes até sem ter que recorrer a qualquer palavra.
E as piadas estão sempre em nós e nas nossas coisas.
Onde mais poderiam estar?
O leite-creme é coisa que se faz na “tua” bimby mas as piadas querem-se assim caseiras como a comida que fabricávamos nas cozinhas dos convívios de Coruche em que tu eras oficial, e eu, um cavalheiro soldado que andava mais direitinho que um fuso a servir o arroz carolino.
Sim, senhora Engenheira Agrónoma, que eu já aprendi e mais nenhum outro tipo de arroz me entra cá em casa a não ser o nacional.
Hoje é o teu aniversário e nem interessa dizer quantos anos cumpres pois pessoas como tu, são eternas, e estão muito para além da banal contagem do tempo que assiste os demais mortais.
Em meu nome, em nome da poesia, da vida, da fé, do riso, do ser feliz, da cor dos dias… um beijo de parabéns.
E não penses nunca em faltar-nos, pois gente como tu é como o ar: imprescindível.

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