quinta-feira, 10 de julho de 2014

Mãe coragem?

Olho as capas dos jornais e vejo uma mãe que corre com o filho nos braços sob o céu de fogo que Israel semeou na Faixa de Gaza.
Ocorre-me à lembrança a manhã de domingo, quando na esplanada de um café de Vila Viçosa, uma amiga de sempre não consegue controlar as lágrimas que são tão crónicas nos seus dias quanto a dor eterna pela ausência do filho. Falamos de poesia porque é por aí que ela vai semeando flores sobre momentos com um triste sabor a deserto.
Penso na mulher que ainda há dias na consulta externa de Pediatria no Hospital de Santa Maria ajeitava a filha na cadeira de rodas, lhe dava beijos por todo o rosto, e lhe dizia palavras bonitas, ao mesmo tempo que com os gestos mais carinhosos do planeta, lhe ajeitava os tubos que a ligavam à cadeira e a deixavam respirar.
Hoje, as mães coragem ainda são em tudo parecidas com a de Bertold Brecht, puxando a carroça com as débeis forças do seu corpo envelhecido pelos anos e pelo cansaço, e arrastando com ela as dores da morte dos seus filhos, até a da sua filha que sendo muda e não dispondo das palavras como arma, instiga à revolução com o toque de um tambor.  
Passei ontem na banca dos jornais e vi à venda um livro dedicado à mãe do Cristiano Ronaldo, D. Dolores Aveiro, com o título “Mãe coragem”.
Com todo o respeito pela história da senhora que pode até estar inundada de rasgos de coragem, com independência em relação à carreira do filho, do qual até sou fã, e sabendo eu que nem todas as histórias de coragem têm de forçosamente acabar em lágrimas e "carroças", podendo acabar com sucesso, camisolas de tigress, bonés da Nike com incrustações de pérolas e carros de alta cilindrada…
Coragem para mim ainda é outra coisa.
E o sobrenome de coragem assenta muito melhor à frente do nome de muitas mães com quem nos vamos cruzando na rua todos os dias e de quem muito possivelmente nunca conheceremos os nomes.
Não banalizemos conceitos e não assumamos que todos somos iguais, afinal, e como afirmava o fantástico dramaturgo alemão na peça que já referi, “Mãe coragem”:
“Há homens que lutam um dia, e são bons; 
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém há os que lutam toda a vida, e estes são os imprescindíveis.”

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