sábado, 26 de julho de 2014

Essa sementeira de afectos de onde colhemos a felicidade

A avó Natividade tricotava botas de dormir com uma perícia tal, que ao serão já conseguia continuar o seu trabalho, mesmo quando o sono a obrigava a fechar os olhos. Ainda guardo umas na gaveta das meias, e usa-as sempre nas noites frias, nunca deixando de me lembrar que era eu que muitas vezes lhe segurava as meadas da lã para que ela fosse fazendo o novelo. Nessa altura, a avó contava-me histórias e rimas que tinha aprendido em criança.
Crente, benzia-se sempre antes de algum trabalho doméstico mais importante, como amassar os bolos fintos na Páscoa ou mexer as carnes da matança que permaneciam nos alguidares de barro. Dos bolos fintos saía sempre o meu folar em forma de lagarto e com dois ovos cozidos, e da matança uns mini chouriços com que nós brincávamos antes de os comermos entre as duas partes de um papo-seco à hora do lanche.
Com oitenta e seis anos ainda me confidenciava que aquilo que lhe provocava mais saudades era levantar-se cedo nos dias de inverno para ir apanhar azeitona.
A avó Francisca gostava mais de ceifar do que de apanhar azeitona.
Com a mesma fé da avó Natividade, conseguiram as duas colocar-me o mais próximo da santidade, pagando-lhes promessas vestido de Santo António e São Francisco nas procissões de Nossa Senhora da Conceição. Íamos buscar os fatos a casa da saudosa D. Lígia Cravo, e só as auréolas de metal pareciam querer fazer justiça à minha genética não santidade, não encaixando nunca na minha avantajada cabeça.
A avó Francisca gostava de me levar com ela para o campo nos dias em que ia lavar aos ribeiros da Fonte Cebola, e aí, às vezes os dois sozinhos partilhando a merenda por entre o cheiro a esteva, ia contando as histórias da sua vida tão feita de generosidade; a mesma que a fazia bater-nos à porta e acordar-nos quando em dias de feira não dispensava as madrugadas para nos comprar uma camisa nova, um saco de torrão ou uma bola de serradura envolta em prata e agarrada a um elástico que a fazia subir e descer consoante o impulso das nossas mãos.
A melhor compota que já comi era a Uvada feita pela avó, com uvas frescas, mel, nozes e amêndoas.
O avô Joaquim também nos batia muitas vezes à porta, mas muito mais ao fim da tarde quando ia levar-nos para o jantar, tudo o que de melhor tinha encontrado na horta durante esse dia. Às vezes e enquanto cavava a terra, encontrava moedas antigas que guardava no bolso e me oferecia mais tarde para eu colocar na minha colecção.
Com o avô Joaquim aprendi a apanhar azeitona e a semear e colher todos os bons frutos e aromas do campo. Eu gostava particularmente quando ele me levava até à “Casa da Burra”, a arrecadação onde guardava todos os apetrechos, e quando me apresentava um a um, todos os instrumentos e segredos que lhe permitiam cultivar a terra.
O avô Francisco era carpinteiro e por isso acariciava a madeira dos móveis como se fosse gente, fazia réguas de madeira muito certinhas para levarmos para a escola, contava-me como era a Florbela Espanca, com quem ele se cruzara muitas vezes em pequeno, e todos os anos pelo meu aniversário me oferecia uma nota de vinte escudos com o Santo António, que me permitia comprar tantas coisas que hoje ninguém acredita se nos fixarmos no valor de dez cêntimos.
O avô Francisco gostava de me trazer a passear a Lisboa e de passar comigo a ponte e admirar o monumento de Cristo - Rei, sempre que apanhávamos o autocarro na Avenida de Ceuta para irmos a Almada visitar a prima Naíca, que fumava muito e aproveitava os maços vazios para fazer bases para colocar debaixo das panelas.
Hoje é dia de São Joaquim e Santa Ana, avós de Jesus, e é por isso Dia dos Avós.
Eu deixei-me ir pela memória dos meus com a certeza de que ninguém é feliz por acaso, e de que eu sou feliz porque alguém com amor e infinita generosidade semeou em mim essa mesma felicidade.
Um beijo especial de aqui para as estrelas onde agora vivem todos os quatro que o fizeram de uma forma inesquecível. 

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