terça-feira, 30 de setembro de 2014

Pai Natal em Setembro


Quando uma criança de seis anos nos olha com um ar entre o surpreendido, o intrigado e o feliz, franze o sobrolho e espontaneamente nos atira:
- Tu és o Pai Natal!
É impossível não sentir que já atravessámos a estrada do tempo e estamos definitivamente do outro lado da magia.
Ele sente a necessidade de justificar-se perante a admiração manifestada pelos pais:
- Tens as barbas brancas.
Mas eu resolvo entrar no jogo:
- Pois sou o Pai Natal. Só que hoje resolvi vir vestido de outra forma e não vim de vermelho.
Foi a minha vez de surpreender porque definitivamente ele não deve estar habituado a que alguém com as barbas já tão brancas, a assim com algum jeito de ter juízo de adulto, se disponha a entrar na sua brincadeira, levando-o a sério.
E continuo:
- Se quiseres diz-me quais os presentes de Natal e assim já não tens de escrever a célebre carta.
Os pais assustam-se mas o pedido vem logo de seguida:
- Quero os Stikeez.
Não me surpreende, o meu sobrinho Luís anda louco por estes bonecos que oferecem no Lidl.
Surpreendo-o eu:
- E queres com estojo ou sem estojo.
E ele quer sem estojo porque já tem um.
- Combinado.
Atiro-lhe eu antes de lhe apertar a mão e de ele me recomendar que no Natal passe cedo pela sua casa.
Em relação ao presente fico descansado pois os pais estavam a assistir à conversa e por certo tomarão conta do assunto.
Mas depois de uma conversa destas, é inevitável chegar ao carro e usar o retrovisor para confirmar se a criança tem razão.
E tem, claro.
O importante é que, independentemente do lado do caminho da magia onde o tempo nos coloca, deveremos assegurar a ausência de bloqueio a essa tão doce festa da mais saudável ilusão.
Que flua a magia.
Assim até nem nos sentimos a envelhecer; depois de dispensado o retrovisor, como é óbvio.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A face nova de todas as velhas ruas


A lua nova acesa atrás de mim é irmã da cidade que descubro diferente quando lhe entrego o meu olhar.
As mesmas ruas, os mesmos templos, as mesmas casas… mas tudo se revela novo nesta hora em que o teu respirar insufla no meu a atmosfera única dos mais perfeitos beijos de amor.
Os teus lábios a temperarem de sonhos e rosas, a brisa fresca e cor de Tejo, da noite de Lisboa.
E aquele abraço…
Aquele instante em que a minha mão se funde com a tua e descemos juntos com a cidade aos nossos pés, sem sabermos nunca onde acaba um, onde começa o outro; felizes juntos e apenas porque este Outono é nosso, como serão todas as demais estações.
E bebo do teu cheiro e sinto a minha pele a saciar-se na tua…
No Carmo, a liberdade transpira de todos os recantos, das tílias, da promessa lilás dos jacarandás; e nós, os filhos da madrugada, fazemos desta hora a festa rubra de todas as flores.
Cumpre-se o amor sem os grilhões que lhe apagam a verdade, e assim se grita a liberdade.
Gosto tanto de ti…
Sinto-o em tudo e também na saudade que soluça em mim no trajecto de volta a casa. Rádio desligado, músicas rendidas ao silêncio, que tantas e perfeitas são as tuas palavras que ecoam em mim nesta hora e se prolongam pela noite em que te peço aos sonhos.
Algures pela manhã, a guitarra afinará o toque com as palavras de amor que se soltaram dos dias deste ser feliz que semeaste em mim.
Todas as palavras de amor que ditaste à poesia…
O tocador arrancará da guitarra os “Verdes Anos”, de Paredes, enquanto as palavras dirão o que nós somos.
Somos tudo, o futuro, cúmplices e príncipes de todas as luas.
Somos a liberdade, a voz, a paz, a melhor cidade…
Somos a face nova de todas as velhas ruas.
Somos os dias…
E eu gosto tanto de ti.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

O anormal ali era eu


A pequena Jéssica, chamemos-lhe assim por inspiração do seu fato de treino cor-de-rosa com a “Hello Kity” da cabeça aos pés, é claramente uma princesa para o pai, que olha embevecido para aquele esplendor anafado ao estilo de uma “Morcela de Burgos”.
A mãe, precursora daquela forma extra lipídica de ser, parece ter andado a roubar roupa a gente que vestia três números abaixo dela, e os calções deixam-lhe as pernas à porta do casting para o anúncio aos melhores presuntos de Chaves. Bebe o café revelando umas unhas pintadas de vermelho mas já muito descascadas, não se percebendo muito bem se estão a meio caminho da acetona ou do próprio verniz comprado na banca da Feira de Carcavelos.
Há ainda um irmão com piercings e que rapou parte da abundância de pêlos das pernas para fazer uma tatuagem com uma figura imperceptível; mas esse, recostado na cadeira como se estivesse na praia, nem levanta os olhos do i-phone.
A mãe fala com o pai mas este só lhe responde com monossílabos emitidos de forma tão violenta que é como quem lhe atira pedras.
Mas ela insiste em falar-lhe enquanto ajeita os cabelos que estão tão bem pintados quanto as unhas.
Esta senhora e as tintas parecem ser duas rectas inevitavelmente paralelas de encontro ao infinito.
Mimos, o pai só tem para a “princesa” que come um folhado misto, não nos privando das intimidades do seu longo processo de mastigação intra cavidade oral.
Na televisão ao fundo do café, Passos Coelho parece dar explicações no parlamento relativamente ao caso Tecnoforma, mas o aparelho está sem som porque no ar soa Leonard Cohen em cuja música me concentro para usufruir de alguma paz.
Bastaram uns poucos minutos a olhar para o Primeiro-ministro para concluir que o som da televisão é dispensável e nem sequer é por eu saber ler nos lábios, os argumentos dos “nossos” políticos são-nos familiares e infelizmente pelo conteúdo, são demasiado previsíveis.
Por falar nisso, aposto que a família da Jéssica nem sonha que no seu país há um Primeiro-ministro, quanto mais que se chama Passos Coelho e que anda a tentar justificar recebimentos em cima de um pedido de subsidio de reinserção laboral após trabalho de deputado em exclusividade.
Eu acabo de tomar o meu café e saio para a rua a fim de regressar ao trabalho.
O acto normal de tomar uma bica?
Entre a TV e a cena à minha frente eu fico com sérias dúvidas.
Contribuinte certinho, sem direito a qualquer subsídio social de inserção seja para onde for, cabelo rapado a pente três e sem tintas, roupa com o tamanho certo, sem fazer escândalo e uma presença discreta.
Não…
O anormal ali era eu.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Há tanta vida que se esconde nos dias escuros


É noite de uma segunda-feira que inundou Lisboa, e chove também copiosamente quando já noite, eu me despeço de Vila Viçosa da forma de sempre, rezando uma ave-maria à Senhora da Conceição ali naquela rampa que liga o Terreiro do Paço e o depósito da “cegonha” e me faz passar ao portão do meu velho liceu.
Tenho sempre a sensação de que expresso um “até já” a tanta coisa minha que persistirá sempre por ali.
Sigo…
A auto-estrada para Lisboa está um breu só rasgado pelos faróis do meu carro e de uns muito poucos que se cruzam comigo, e também pelos relâmpagos da trovoada que generosamente me vão revelando a elegância dos sobreiros e dos montes, meus fiéis companheiros em tantas tardes de viagem pelo Alentejo.
E não fosse a trovoada, até o castelo de Evoramonte passaria despercebido, ganhando no entanto com estes flashes, um semblante misterioso a lembrar os sumptuosos repousos eternos dos desinquietos espíritos dos condes da Transilvânia.
Não vejo corvos a rasgar os céus.
Só consigo vislumbrar dezenas de sapos que a chuva convocou para a auto-estrada, e fosse eu supersticioso e acharia que estava a ser carne de bruxaria no percurso para uma grande desgraça.
Eu vou com calma e a cumprir limites de velocidade, por entre palavras de amor prometi a alguém que o faria.
E a viagem segue na coerência deste breu e na fidelidade da trovoada, de tal forma que o Castelo de Palmela, poiso dilecto de “Templários” admiradores do apóstolo São Tiago, apresenta um perfil semelhante ao seu congénere alentejano que albergou a convenção que nos fez oficialmente “liberais” na rendição do “absolutismo” de D. Miguel, algures por 1834.
Não tarda e chego à ponte.
Já vejo Lisboa e já não chove.
Estou quase a chegar a casa e a primeira coisa que vou fazer depois de pôr a água a ferver para um chá de jasmim, é tirar algumas notas.
Há tantas histórias que nos assaltam (como os sapos saltitantes) durante duas horas de viagem por uma estrada escura à mercê de relâmpagos para ver algo mais do que o asfalto e os separadores e sinais.
Pois é…
Há tanta vida que se esconde nos dias escuros.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Um cardápio demasiado pobre


No meu país a grande maioria das pessoas está objectivamente de costas voltadas para a política, e quem não está parece virar-se para o “Costa”, muito empenhado nas primeiras “Primárias” nacionais, num tempo em que este léxico até foi retirado às escolas que passaram a ser “Básicas”.
Mas primária ou básica, pouco importa, para a escola ou para o ideário deste “estrabismo socialista” que parece motivar mais pela atracção pelo poder do que propriamente por um projecto exequível e credível, o qual ainda estará a ser construído tendo em vista o calendário eleitoral.
Para quem pede eleições antecipadas há tanto tempo…
Do outro lado dão-se “Passos” para as eleições que supostamente todos deveríamos mandar “lixar” a bem da nação; e directamente do “Cadafalso”, o carrasco que há muito nos cortou a cabeça quer pôr-nos na boca um rebuçado adocicado por migalhas de IRS ou Salário Mínimo.
Meu amigo, só pode ser para que os nossos cadáveres fiquem mais doces e as formigas (as mesmas ou outras siamesas no carácter e na credibilidade) nos ataquem mais depressa nesse dia zero da nova legislatura em que continuaremos sepultados pelas “pazadas” de terra enviadas por Madame Lagarde a partir da “Torre do Descontrole” do FMI e do “Reichstag” de Herr Merkel.
E assim eu, contribuinte reputado e de boas contas, digo perante este menu:
- Não como nada disto.
Uma amiga militante de um partido confidenciava-me um outro dia entre ginjas que não era possível, eu teria forçosamente de seleccionar algo entre este “arco do poder”.
Se isto é um arco, eu diria que está como o da Rua de São Bento esteve durante anos desfeito em peças numeradas na placa central da Praça de Espanha (e até o nome da praça tem o seu simbolismo histórico e político).
E não, não tenho forçosamente de escolher, nem isto nem as terceiras vias bacocas, exibicionistas, bazófias, popularuchas e fúteis.
Num restaurante quando o menu não agrada, pedimos desculpa e saímos, não nos obrigando a ingerir iguarias de que não gostamos.
Aqui é igual e é esta a raiz da orfandade do eleitor nacional perante um “cardápio” tão pobre e repleto de um “dejá vu” demasiado caro para tão pouca qualidade.
Sebastianismo?
Não porque as espadas não ficaram sepultadas nas praias de Alcácer Quibir e estão desenferrujadas e prontas para a luta.
E desistir é coisa de fracos que Portugal não merece. 

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Derrota? Uma vitória por goleada.


Há dias em que o mundo parece ter sido convocado por alguma entidade divina para nos massacrar arduamente e testar o nosso espírito de resistência…
Hoje foi assim.
O despertador tocou ainda o sol não tinha nascido, o arrancador da lâmpada fluorescente da cozinha não cumpriu a sua função e o pequeno-almoço foi tomado às apalpadelas, o café da vizinhança não abriu hoje por motivos de ordem pessoal e não houve hipótese de tomar uma bica, o trânsito para Lisboa estava caótico e a esperança de encontrar fluidez ao virar de cada esquina foi sempre uma ilusão, as “louras” motivaram dezenas de apitadelas por se esquecerem que há piscas no carro, as pessoas estavam antipáticas, os guarda-chuvas pingavam-nos os pés nos elevadores, a fila para a bica estava como a do trânsito…
À medida que as situações se sucedem, nós vamos sentindo interiormente uma fúria a trepar por nós que nos vai tomando conta da voz só entregue agora a monossílabos lançados como pedras, os olhares transformam-se em lança mísseis visuais, os gestos fazem-se bruscos e a violência com que por exemplo se bate com a agenda na mesa traduz uma vontade de dar um par de bofetadas em alguém.
Mas então sentamo-nos, começamos finalmente a tomar a bica, respiramos e pensamos:
- Joaquim Francisco, por favor. Estar neste estado e sentir-se derrotado pelo trânsito e pelo infortúnio do arrancador da lâmpada da cozinha é quase tão ridículo como ser campeão e deixar-se perder em casa com o modesto Moreirense.
E a fúria começa a apagar-se chegando ao ponto em que até já conseguimos sair um pouco de nós e vermo-nos por ali sentados a sorrir ligeiramente.
Vem então a reacção definitiva ao estilo de pontapés de tiro ao golo, e tudo acaba restituído à sua condição de segunda liga… e avançamos definitivamente para a vitória.
Ali ao lado há um jardim muito bem cuidado, e que bem sabe estar do lado de cá a admirar as flores com infinitos tons; a senhora que recolhe a chávena sorri como resposta ao meu sorriso; chegou uma mensagem de amor, e até o menino na mesa em frente que conta as aventuras que viveu na consulta de oftalmologia ainda há pouco, consegue ter alguma graça.
Quando voltamos ao trânsito já demos a volta e já estamos a ganhar ao “Moreirense”, põe-se uma música no carro e já se assobia.
O mundo contra nós?
Mas o que é o mundo inteiro quando comparado connosco?
Não há hipótese. Vitória por goleada. 
Muito mais seria preciso para nos derrotar.

sábado, 20 de setembro de 2014

Estas palavras que nos oferecem asas


Quando o silêncio se impõe a qualquer hora, pesa muito e faz com que me sinta só; confesso-vos que a esferográfica e um pedaço de papel são os meus melhores amigos.
Por palavras vou registando tudo aquilo que a mente vai ditando, e de repente, morreram os impossíveis, o silêncio também foi enterrado com eles... e eu estou muito para lá das quatro paredes onde fisicamente me encontro; com o privilégio de estar onde quero realmente estar.
E com quem quero estar.
Do meu quarto vejo um jardim com plátanos de folhas amarelecidas e avermelhadas, sinto o Outono, e leva-me a memória para os finais das tardes de Vila Viçosa, quando o aquecedor já se agradecia aceso por detrás do balcão da Livraria Escolar, servindo simultaneamente para assar bolotas e castanhas que nos aqueciam as mãos e a alma, esta então solta e empenhada em tantas histórias.
Acho que foi aí que aprendi a força das palavras e me fiz eternamente seu amigo, aprendendo a voar com elas muito para lá do óbvio, por mais que ele pareça um destino irreversível.
Há pouco apanhei uma folha vermelha de plátano que vi de repente aos meus pés no jardim do hotel, está aqui e faz-me companhia a mim e a quatro botões de rosa de cor vermelha que tenho sobre a secretária, enquanto escrevo que um dia passearei contigo cruzando de mão dada todos os Outonos que a vida nos der para fazermos nossos.
Só?
Definitivamente não estou, apesar de não haver mais ninguém aqui comigo.
Durante o nosso passeio pelo parque até já parámos os dois à beira de uma velha fonte de granito tingida de folhas da cor do Outono para um beijo e para que num abraço eu te sussurrasse ao ouvido que, claro, sou teu.
E sigo pelas palavras que assim me dão boleia para um sonho que sabe a mel… e a castanhas.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Dublin por uma montra


Estou só numa mesa próxima da montra
Bebo um chá de jasmim
Quente
Muito quente
E assim…
Com o i-phone desligado por falta de bateria
Sem nada para ler
O que me resta?
Olhar a gente
Que mais poderia ser?

Passa um homem de bigode
Franzino mas espigadote
Que para beijar a loura que vai à sua frente
Só se fosse de escadote

E de repente…
Passam três senhoras carregadas de ouro
Que pelo tamanho comprido da saia
E pelo dossier tão antigo que levam consigo
Eu diria
Vêm da igreja e do ensaio do coro

Vejo um gordo que se abana a cada passo
Dois homens envolvidos num abraço
Uma rapariga de cabelo lilás
Que pelos sacos que traz
Esgotou a Zara

Uma velhota de cachecol
Que para sair a esta hora
Por certo o fez por pão mole
Quase é atropelada
Por um rapaz que corre nos passeios e na estrada
E que… suado
Com o cansaço que leva
Pode ir para qualquer lado
Mas não para muito longe

Do mesmo lado das do coro
Passa então um com ar de monge
Mesmo à frente de um casal que pára para se beijar

Vejo um executivo com phones nos ouvidos
Uns modernos… todos divertidos
E na esquina à minha frente
Há um grupo que se prepara para cantar

Resolvo então dizer à gente um “até já”
E regresso ao chá

Já está morno
Mas ainda peço um scone que entretanto vi sair do forno

Eu sei que estou a abusar
Mas começo a comer
É melhor
Não vá ainda alguém dizer que o barbudo não pára de olhar
Ali na montra

E ainda por cima a comer scones

Ele que até está como uma lontra…

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Até o Liffey ganhou ares de Tejo…


Numa conversa que começou com assuntos exclusivamente profissionais e que desembocou em Portugal com a admiração e o porquê de eu falar um Castelhano fluente (Juan Blas andas sempre a ser falado!), uma médica de nome Maria, da Cidade do México e, suponho, porque não lhe perguntei, com uma idade algures pelos setenta anos; disse-me que conhecia muito bem Lisboa e o Rio Tejo.
Perguntei-lhe quantas vezes é que ela tinha estado por ali, e a resposta, surpreendeu-me:
- Nenhuma.
E explicou:
- Conheço Lisboa e o Tejo através das canções de Amália Rodrigues.
Nem mais.
Eu respondi-lhe com a minha admiração por Chavela Vargas, e assim, num Centro de Congressos em Dublin e a mirar o Liffey, a conversa acabou com um dueto improvável entre as duas divas, imortais como assim se prova.
E porque o Tejo voltava sempre à conversa, eu falei-lhe de Camões, das Tágides, ninfas evocadas para dar inspiração em “Os Lusíadas”, e de como o nosso rio é então berço de tantos deuses que inspiram poetas… e apaixonados; e disse-lhe que às vezes não resisto e vou namorar para as margens onde o rio beija a cidade e onde beneficio de uma vista de 180 graus de um intenso azul.
E depois chego a casa e escrevo sobre o amor.
Ela sorriu e disse-me baixinho:
- Não é inspiração. As almas dos poetas andam todas por ali e sussurram-lhe coisas bonitas ao ouvido, e o senhor nem dá conta.
Eu brinco:
- Pois não, só tenho olhos para a pessoa mais bonita do mundo, que me acompanha.
Ela sorriu, despediu-se agradecendo a conversa e desejou-me sorte.
Já havia mais gente à espera para eu atender.
Sinceramente não sei se os poetas andam pela beira Tejo ou por aqui, tão pouco sei se me sussurram coisas ao ouvido, o certo é que a poesia existe e se solta de tudo e de onde às vezes menos se espera.
Até de uma brevíssima e improvável conversa de trabalho.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

O mundo, esse T0 tão apertado


Começar o dia a comer um Bolo Finto torrado trazido na véspera de Vila Viçosa…
Tomar o café na pastelaria da D. Isabel, que é de Proença-a-Nova e conhece dezenas de pessoas que eu também conheço, aproveitando como sempre para falar do tempo, das viagens que a minha mala sempre denuncia, e das ocorrências transmitidas pelas notícias da TV…
Uma manhã de trabalho no escritório em Porto Salvo, em conjunto com os meus colegas, e almoçar com eles uma muito agradável e saudável “Pescada Cozida com Todos”…
Tomar um chá em Dublin depois de aterrar pelas seis da tarde e de ter descoberto no ar que a Air Lingus nem uma bolacha de água e sal nos serve a bordo. Vá lá que descobrimos na revista de bordo algumas palavras em Gaélico que são semelhantes ao Português. A revista chama-se “Cara” (amigo) e até narra a história de um bebé que nasceu a bordo há quarenta anos, que recebeu o nome de Patrick em homenagem ao santo dos Irlandeses… bebé que por acaso até é Português…
Jantar com o meu colega em Temple Bar com o empregado Brasileiro a descobrir que falávamos a mesma língua e a contar-nos que tem dupla nacionalidade porque a avó era de uma aldeia próxima de Castelo Branco, Louriçal do Campo, que por acaso até é a terra do meu amigo Celso. Acabamos a falar das cerejas, e como a história é recorrente, depois de a Tonicha em 1971 ter cantado em Dublin, na Eurovisão, a “Menina do Alto da Serra”, nós acabamos os três a falar da avó / menina Florinda e das suas aventuras no alto da serra… da Gardunha…
Regressar ao hotel, apanhar um mapa na recepção e ser interceptado por um funcionário do hotel que fala Português com sotaque do nosso e é de Viseu…
Sentar-me na reunião ao lado de um colega Francês que me pergunta se a minha agenda tem uma capa que reproduz um trabalho do Picasso. Eu explico-lhe que não e vou mostrando todas as gravuras que tem dentro e que são do nosso Almada Negreiros…
Esta sucessão de acontecimentos que envolvem gente de diferentes continentes, diferentes línguas e diferentes culturas, bem poderia ser chamada de “Uma aventura no T0 que é o mundo”.
Tudo porque quando nos fixamos naquilo que nos une, muito mais do que aquilo que nos separa, as distâncias encurtam e tudo parece bastante mais próximo; e até o mundo parece bem mais pequeno.
Como as estruturas mais pequenas e simples são teoricamente mais fáceis de gerir do que as outras, talvez este fosse um caminho para vermos tudo de forma diferente e podermos eliminar certas dificuldades que o mundo enfrenta.
Com boa vontade, que é algo que ajuda sempre nestas coisas.  

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Mas sim… amor…


Mesmo que os quilómetros tenham o sabor a décadas que parecem não ter fim, envolve-me e embala-me a certeza de chegar a ti naquele instante que reescreve a História, reordena a vida, despreza todo o supérfluo, e sepulta as dores e todas as solidões.
A oeste nada de novo… mas a oriente há uma ponte que desenha uma curva sobre o rio e que me transporta para o essencial: para ti e para o teu abraço, de onde sei, sempre se solta a poesia.
Encontro-me comigo e com todo o melhor do universo na hora em que me entrego ao teu olhar, e quando por entre a timidez que nos ofereceram os anos, nos dizemos:
- Amo-te!
E se outra palavra maior existisse para cumprir fidelidade a um tão grande e perfeito sentir, por certo habitaria aqui.
Mas sim…
Amor…
E amor somos afinal nós os dois; e de nós soltam-se milhões de palavras que enchem a tarde da cidade.
Há um barco muito pequeno com homens à pesca no Mar da Palha, há formigas em delírio a trepar por um banco à sombra do jardim, há um lençol tecido de betão que estendido, oferece sombra no pavilhão do Siza, há dois copos de Gin, há meninos em triciclos, há uma luz de indefinida cor que tinge as nuvens na hora do pôr-do-sol…
E estamos nós de mãos entrelaçadas e a escrevermos juntos a mais bonita história de amor.
   

domingo, 14 de setembro de 2014

Instantes de uma romaria


Vindo do lado do Castelo vejo a lua tímida por entre as nuvens e por cima da Igreja de São Tiago. Na igreja mais antiga de Vila Viçosa, as pedras carregam letras de outras devoções.

Endóvelico? Presorpina?

Nós somos simples elementos de um universo gigante e somos instantes, pedaços de uma História longa feita de muitas devoções e muitos outros templos.

E a marca desta noite, o que a História e o universo nos pedem por aqui quando por cima de nós há um tecto de luzes coloridas, é a celebração da festa. 


A vida cantada por afectos, beijos, abraços, palavras, gestos...

A amizade saboreada como uma fartura polvilhada de açúcar e celebrada num brinde com sabor a ginja.

Antes do fogo de artifício, sobem ao céu então as muitas palavras, as gargalhadas tecidas das cumplicidades de anos e nascidas do assumido cruzamento das nossas histórias, o que nos faz tão bem, como se fosse pão a fornecer as raízes do alento.

E fazem-se projectos porque de aqui à próxima festa há doze meses para preencher da melhor vida; e para a grande maioria de nós os cinquenta são já uma realidade.

Voltaremos sempre num sábado de Setembro.

Para a romaria?

Sim, mas...

Para nos mimarmos.

sábado, 13 de setembro de 2014

Capuchos 2014 - Dia 1 / Programa de prevenção da depressão



Aos doze dias do mês de Setembro do ano da graça de dois mil e catorze reuniu-se em távola rectangular de febras e grelhados no ancestral Largo dos Capuchos, em Vila Viçosa, o grupo de amigos mais fantástico do universo.


À sombra da igreja da Senhora da Piedade, não tivemos qualquer piedade para a má disposição e numa terapia feita de gargalhadas renovamos os votos de felicidade para o ano que se segue.

Duas deliberações importantes a registar, vamos reiniciar os passeios de Outono e Primavwra mas em versão Low Cost - Crise 2014, e aprovamos novo plano anti-depressão.
Relativamente a este último ponto, cada elemento do grupo deverá olhar-se ao espelho pela manhã, louvar a Deus pela sua beleza e repetir de seguida:
"Eu sou fantástico(a), quem gosta de mim tem um gosto de excelência e quem me deixa comete suicídio".
Se ao longo do dia sentir a auto-estima a fraquejar, deverá repetir o gesto.
Foi declarado por unanimidade que a camisola vermelha da Madalena que tem um burro e a frase "Olá mano" é património material de interesse do grupo e de que a cápsula do Manuel, onde ele se enfia, é da mesma forma um bem imaterial... e já agora, difícil de entender.
As decisões foram brindadas com ginja, à excepção de um elemento que não bebeu porque ainda tinha de se levantar e não podia dormir nos Capuchos.
Publique-se!

De saída e já depois de chegar a casa, encontrei a minha mãe muito feliz pelos dez poemas de amor publicados e pelo sentimento que eles encerram.
Leu e gostou muito.
Troquei beijos por SMS com a inspiração dos poemas e não resisti a adormecer a sentir-me amado e imaginem... mais maduro do que nunca.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

A previsível terrível queda do pão do pobre e a possibilidade de comer um bom fiambre


Talvez a saudade seja da mais arável e fértil terra para deixar florescer a poesia; e não estranho que na manhã de Setembro em que já chove como no mais adiantado Outono, eu siga pelo trânsito infernal da manhã, pensando em ti e sentindo que o universo se faz meu.
Todo meu e com a vantagem de que no universo que me dás não chove nem há engarrafamentos.
Hoje é 11 de Setembro.
Em Março de 2001 passei por Nova Iorque numa viagem de trabalho. Tinha 24 horas para estar na cidade que nunca dorme e encontrava-me na companhia de um colega que nunca tinha estado por ali e a quem eu tinha prometido uma visita relâmpago pelo que eu rotulava de mais importante da "Grande Maçã" depois de algumas visitas.
Prometi:
- Não desperdiçaremos nem um segundo.
Chegámos ao início da tarde com uma chuva terrível que quase nos impedia de sair do hotel.
O Pedro comentou:
- O Joaquim mentalize-se de que o pão do pobre cai sempre com a manteiga para baixo.
E parecia esse o nosso irresistível fado.
O dia seguinte amanheceu com um sol radioso, e com muito menos tempo para cumprir o prometido, eu desafiei-o:
- Vou mostrar-lhe a cidade toda mas só que de uma outra forma.
E fomos juntos até ao topo do World Trade Center para vermos a cidade, mas numa perspectiva de quem está “quase no céu”.
O Pedro ficou com a impressão de que afinal nem tudo se desperdiçara com a queda do pão.
Seis meses depois, a 11 de Setembro caiam as Torres Gémeas ruindo com elas esta possibilidade de ver a cidade toda numa só manhã e num só olhar.
O imprevisível ensina-nos que não há momentos desprezíveis e até aqueles que parecem mais rotineiros, mais difíceis e com estatuto de recurso, podem ser instantes únicos, irrepetíveis e gravados para sempre na nossa história pessoal.
Uma manhã no trânsito infernal com a manteiga viradíssima para baixo na queda do pão de pobre, mas a pensar em ti, pode ser afinal uma excelente oportunidade para comer o melhor pitéu, o melhor fiambre, e é algo único e irrepetível.
E quem diz comer fiambre diz colher e soltar a poesia; vivendo cada instante como se fosse o último.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Os meus versos

Por vezes perguntam-me o que é que existe
Que segredos habitam os meus versos
Se é coisa alegre, assim-assim, ou triste
Temas pacíficos ou controversos

Nos meus versos há estradas e ruas
Há casas onde mora muita gente
Há festa, palavras minhas e tuas
Na rima perfeita de estar contente

E os meus versos são veias, correntes
De sangue, amor, paz, fé e liberdade
Há ideias tranquilas ou mais quentes
Mas sempre com o que importa: a verdade

E os meus versos têm trigo e pão
Vinho, café, arroz doce, aletria
Têm a acidez quente de um limão
Ou o mel de te ter em cada dia

Às vezes sente-se neles saudade
E os meus versos parecem um fado
Que a saudade é dor de qualquer idade
Basta apenas amar e ser amado

E os meus versos, meu amor-perfeito,
São afinal doces beijos para ti
A história simples contada ao meu jeito
Dos dias mais felizes que já vivi

terça-feira, 9 de setembro de 2014

A abjecta discriminação


Domingo, a missa das 18.30 na Basílica dos Mártires, ao Chiado, tinha começado há algum tempo, e um homem avança pela coxia central procurando um lugar na igreja quase cheia, enquanto outro o tenta impedir puxando-lhe pelo braço.
Na primeira igreja construída em Lisboa depois da reconquista em 1147, 867 anos depois de D. Afonso Henriques ter lançado a primeira pedra num templo destinado a enterrar os mártires do cerco da cidade, que lhe dão título; ainda há Homens que por questões mundanas e nada divinas tentam impedir que outros tenham acesso ao “altar”, neste caso porque o indivíduo em causa tinha o aspecto andrajoso de quem tem de vaguear pelas ruas e não tem um tecto.
Seria a minha fé uma ilusão, que não é, se eu não considerasse aquele indivíduo alguém em tudo igual a mim, e para naquela circunstância lhe abrir espaço para que ele se pudesse sentar ao meu lado. Não o fiz porque ele rompeu a resistência do outro e subiu pela coxia; mas houve quem o fizesse mais à frente dando-lhe a possibilidade de ele se sentar e permanecer por ali até a missa terminar.
Por todos os motivos e ainda mais aquele que está sempre à mão para nos diferenciarmos dos demais, nem nos damos conta de que a nobreza não é feita de títulos e estatutos, mas é tecida por carácter.
Um Homem grande não é um juiz bacoco entregue ao permanente desprezo pelos outros e à incessante procura das diferenças que o promovam socialmente; um Homem grande é aquele que busca tudo aquilo que o possa ligar à humanidade inteira.
E aos olhos de Deus...
A discriminação, seja ela qual for, é a negação do próprio Deus e um desprezo pela fé.
Infelizmente, a igreja ainda é um refúgio para gente muito importante mas analfabeta no entender da palavra de Deus, e gente inerte na hora de a aplicar.
Infelizmente, a mão daquele homem que puxou o outro ainda é representativa das mãos de muitos outros Homens.
Valha-nos a esperança dos que pensam e agem de forma diferente, daqueles que desprezam os fúteis aspectos mundanos e sentam os irmãos ao seu lado.


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Rima anti-depressiva para sobrevivência na A5


A neblina é densa
E a auto-estrada
Onde não se vê quase nada
Fica propensa a um despiste
Um acidente
Algo que enerve toda a gente
Porque quem é a pessoa que resiste à agonia de estar parada?

E de repente…

Isto já não anda
Ali à frente alguém se despistou
Bateu
O piso está escorregadio
O asfalto parece um rio
E ninguém sabe o que lhe deu
A criatura acelerou
E o controlo perdeu

Entre buzinas
Acelerações traquinas
Sente-se a ânsia de uma ambulância
Que quer chegar depressa ao acidente
Afasta-se para a berma toda a gente
Uma apita a um mais distraído que pela postagem do Facebook foi traído
E se esqueceu de chegar à frente

Eu desligo o motor
Quase esqueço que sou condutor
Agarro o jornal
Leio as gordas
O país segue mal
Há faces ocultas descobertas em grandes açordas

Não vale a pena desesperar
Pouso o jornal
Agarro o i-Phone
Esta espera é normal
Lisboa ainda é uma miragem
E antes que eu fique com falta de ar...

De repente...

Escuto

Atrás de mim já houve um que bateu noutro depois de uma grande travagem

Abro a janela

No carro ao lado um casal aproveita para namorar
Do outro lado há uma que acaba de se maquilhar
Outro toca bateria no volante

Não há meio de que a neblina se levante

E eu...
Antes de me irritar

Já sei

Vou pôr isto tudo a rimar

Já que estou aqui sozinho e continuo sem poder andar...

Dirão vocês que eu não estou bom
Mas também nunca o fui

Ui
Finalmente

Ligo o motor
Recomeço a andar
E não demora muito a que chegue ao pé do chui

A tipa da maquilhagem
Pára mesmo à frente da cena
E abana a cabeça como que a dizer
Ena
Ena

De aqui a pouco estará no café
Heroína a contar a toda a gente
A história da não travagem

Ah pois é

Se não fosse o acidente
O que teria ela para contar?

E eu sigo
Agora feliz e quase a cantar

Lisboa já se vê

Sem acidentes
A cidade seria mesmo aqui ao pé

Já em Lisboa
Já estacionado
Acabo a rima com afinco
Estou estoirado e a precisar de um café

Que boas e lindas são as manhãs da A5

Ah pois é

domingo, 7 de setembro de 2014

(Sem título)

Conhecedora deste intercâmbio permanente entre Céu e Terra, uma das estrelas mais brilhantes do firmamento, e que se destacava de entre todas as que nos enchem as noites de infinitas e mágicas cores; andava há muito inquieta a olhar para a Terra e com uma enorme vontade de se tornar uma menina igual a tantas outras que habitam o Planeta Azul.
Confidenciou este propósito às estrelas vizinhas que de imediato lhe chamaram louca pela atracção por tal propósito.
- Tu vais deixar de ser uma das estrelas mais brilhantes... Não faças isso, estamos tão bem aqui em cima a ver tudo, e aquilo lá por baixo não parece andar muito bem.
E lembravam sempre:
- Para além de que o nosso pai não gosta que nos antecipemos às suas decisões.
Mas ela insistia:
- Eu quero ser uma menina como aquelas que eu aqui de cima vejo por ali a baloiçar, a mergulhar na água dos oceanos, a comer chocolate…
E tanto pensou e era tanta a força desta vontade que um dia foi mesmo falar com o pai de todas as estrelas e lhe confidenciou este desejo.
A princípio ele ficou triste com esta possibilidade de ir perder uma das suas estrelas mais reluzentes, mas prometeu ir pensar no caso.
- De aqui a uns dias mando-te chamar.
A estrela agradeceu, ficou esperançosa numa resposta positiva, mas ao mesmo tempo demasiado inquieta.
E se ele lhe dissesse que não.
Uma espera com dúvidas é sempre tão difícil.
E o tempo que parece uma eternidade…
Passou uma semana e o pai das estrelas chamou então a sua discípula de volta à sua presença.
Com um ar muito sério começou:
- Continuas com vontade de te tornar uma menina?
- Sim senhor.
Respondeu a estrela de imediato.
- Muito bem. Eu pensei no teu assunto e vou deixar-te ir.
A Estrela rasgou o sorriso mas ele continuou imperturbável:
- Vais, mas vais ter de prometer que não trairás nunca a condição de estrela. Porque uma estrela é sempre uma estrela. E todas as crianças são estrelas.
A Estrela sorriu feliz.
- Eu aceito.
- Mas há uma outra condição essencial que eu te imponho, já que tens tanta vontade de ir, terás de ficar por lá pelo menos cem anos.
- Eu aceito.
Respondeu novamente a estrela.
E depois de agradecer ao seu Pai, retirou-se e foi desde logo preparar as malas para fazer a viagem num destes dias.
A estrela está a preparar a bagagem, e este texto não tem nome porque as estrelas que habitam a Terra e a quem foi anunciada a chegada deste reluzente ser, ainda não decidiram que nome ele irá ter.
Por isso este texto aguarda e um dia terá esse nome feliz.

sábado, 6 de setembro de 2014

Esta noite…

Esta noite...
Toda a noite sonhei contigo.
Voávamos juntos cruzando o céu que o pôr-do-sol desarmou de azul e tingiu de laranja, como pássaros livres e enamorados pela geometria perfeita das quadrículas das ruas da Baixa de Lisboa.
Aqui e ali, numa esquina, a ver o rio, o Chiado ou o Castelo, pousávamos para que as palavras pudessem sair envoltas no acrescento da verdade doce que sempre lhes oferece o olhar.
E eu não me canso nunca de te olhar...
Caminhante sequioso em busca de uma fonte, sou eu pelos dias nesta vontade de te ter por perto... e poder voar.
Às vezes por entre o olhar e as palavras, enquanto voamos ou caminhamos sobre a calçada, interpõem-se as mãos, indutoras perfeitas do despertar sensorial desta  infinita paixão que começa na alma, muito a montante do que é humanamente explicável.
E tão siamesa é esta vontade que faz com que as minhas mãos suspirem de amor pelas tuas...
E os meus braços pelos teus braços…
E os nossos lábios nos convoquem para a hora de um beijo...
Quem voa, mesmo que às vezes apenas num sonho, conhece o enormíssimo valor da liberdade, e foi ela por certo que nos inspirou o canto deste tanto querer, num voo que com o anoitecer se fez cúmplice da lua e colheu dela toda a magia.
Toda a noite sonhei contigo, e o mais curioso é que não me recordo de ter pedido ao sonho para não se deixar morrer, como sempre fazemos quando eles são bons e se aproxima a madrugada.
Eu sei que num amor assim a consciência e o estar vígil nunca conseguem matar a nossa capacidade de sepultar os impossíveis nos panteões, deixando-nos ir pela liberdade.
E depois há Lisboa…
Se há cidades que nunca dormem, Lisboa, pelo contrário e por ti, dorme todas as noites abraçada a mim.
E tu e ela fazem-me voar.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Viver ao sol

Por mais que insistam em falar-nos do destino, a verdade é que somos nós os arquitectos da nossa própria história, oferecendo ao tempo essas "mãos" impulsionadas pelo muito querer e inspiradas em tudo o que sonhamos e desejamos muito.
Por isso, meu querido amigo, não foi o tempo que te fez assim por artes de magia ou até por um simples acaso, foste tu que sempre te sonhaste e fizeste grande.
Por ti, as lágrimas das saudades de casa confidenciadas aos tachos gigantes quando aos quinze anos os lavavas no hotel perdido no meio da serra, se fizeram hoje coloridos cristais de açúcar que tu moldas dando uma expressão única ao amor de tantos.
Por ti, por exclusivo mérito teu, os quilómetros percorridos a pé entre a cidade e a aldeia quando os escudos eram poucos para o autocarro, se tornaram hoje caminhos por entre flores e sorrisos, e são os tapetes para sorrires por entre o teu sucesso.
Por ti, a neve fria do inverno da serra que te gelava os pés, é hoje um manto gigante que te acaricia e embala em todos os sonhos, tornando legítimos mesmo até os mais ousados.
Por ti, os aromas todos se soltaram como que por magia por entre tudo o que a terra nos oferece.
Por ti, o choro se fez um fado alegre, os silêncios encheram-se de palavras grandes e únicas, os medos se converteram em aleluias, e as sombras morreram pelo benefício do sol mais generoso, o sol que acompanha os especiais.
Por isso, por ti e para ti, haverá sempre uma música inspirada que tempere o ar de poesia, e por ti, e para ti, a Nana Mouskouri será sempre eterna a interpretar Vivre au soleil.
Rui, parabéns pelo meio século de vida que hoje cumpres.
Segue assim porque há no mínimo mais cinquenta anos para seres feliz e para nos fazeres pessoas mais felizes.
Um brinde especial… por ti!

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Entre Sophias e Ginas

Depois de uma viagem de táxi para o aeroporto em que o meu estômago foi agitado como numa montanha russa pelas travagens e arranques da condução de um motorista louco que passou o tempo todo ao telemóvel com um tal de Massimo qualquer coisa; regressar de Roma num avião cheio de peregrinos Italianos que vêm para Lisboa para depois irem até Fátima é uma espécie tão estranha de paraíso que quase nos faz querer e desejar muito todas as chamas do inferno.
Nada poderá ser pior do que isto.
As primas afastadas da Sophia Loren gritam como se não existisse amanhã, não conseguem escutar que o embarque será feito por filas, não vêm a sinalética com os números dos lugares, bloqueiam a coxia com as suas ancas avantajadas alimentadas a Lasanha, esparguete e Cannelloni, tropeçam nas bengalas umas das outras, chamam alto pelos maridos; e por entre os copos de vinho tinto que pedem às meninas da TAP, dão cabo da cabeça ao padre que as acompanha e que ganhará um indiscutível estatuto de santidade no final de tal viagem.
Perante esta visão dantesca, as hospedeiras adoptam um bem Italiano enigmático sorriso de Gioconda, assim algures entre o estar feliz e o estar incomodado com uma forte dor de barriga, acabam por desistir em pôr ordem na aeronave; enquanto eu, sentado a uma janela e acompanhado por um casal em que a mulher, sentada na coxia, é tão gorda que cria uma intransponível barreira entre mim e qualquer espaço de mobilidade que eu possa ter, acabo por matar as pouquíssimas saudades daquelas excursões em que o “Malhão, malhão” era acompanhado pelo toque de uma pandeireta e as anedotas eram contadas ao microfone por alguém que já tinha bebido um pouco mais do tinto que ia no garrafão.
O momento de maior aflição vivo-o no entanto quando a mulher tenta baixar a mesa à sua frente para poder comer a parca refeição que lhe iam oferecer, pois não conseguindo endireitá-la mas não desistindo de tentar e fazer pressão, eu fico com a claríssima sensação de que os pulmões lhe irão saltar pela boca a qualquer momento e acertar-me em cheio algures descompondo-me o fato.
As vendas a bordo também foram interessantes, com as “Ginas Lollobrigidas”, temendo por certo os raios de sol da Cova da Iria, a experimentarem todos os óculos de sol existentes no carrinho e sorrindo umas para as outras com um estilo entre o Jô Soares e o Benny Hill no apogeu dos seus respectivos programas de humor.
Depois finalmente Lisboa, a viagem de autocarro até ao terminal nos mesmos preparos, mas consigo finalmente perceber que viajámos todos num avião de nome José Régio.
Agora não me espanta nada, pois o que vivemos foi a incorporação do mais negro de todos os cânticos.
E como diz o magnifico poeta, repito eu agora já liberto deste “Tiramisú” mas de travo bem ácido:
- “Não, não vou por aí!”
Ou melhor, antes não tivesse vindo.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Coisas ao redor de uma cerveja e de um pôr-do-sol

Quando em pequeno eu brincava em Vila Viçosa na minha Rua de Três, uma rua estreita de casas caiadas de Alentejo e rodapés vermelhos, azuis e amarelos; eu aprendi que uma conversa à porta numa roda de vizinhos pode ter mais emoção e efeitos especiais do que um filme de Hollywood, as pedras soltas da calçada podem ser as primeiras peças de uma casa para brincar, um pedaço de madeira pode ser um microfone, e até o portão fechado da olaria do "Tapum" pode ser o palco brilhante do Festival da Eurovisão.
A capacidade de sonhar será algo que nasce connosco, mas treina-se assim neste tanto querer que consegue criar impossíveis por cima da aparência do quase nada.
E assim, qualquer fim do mundo fica ali ao acessível virar de uma esquina.
Ontem ao fim da tarde, depois de andar a tirar fotografias ao pôr-do-sol sobre a Ponte Sisto, tomei uma cerveja fantástica e fresca, sentado numa esplanada do Trastevere, um dos bairros mais especiais da cidade de Roma, talvez um carisma muito idêntico ao do nosso Bairro Alto.
Ao meu lado, um homem toca um Bouzouki, instrumento de corda que nos transporta logo para as bandas do Mar Egeu, numa sonoridade que me faz recuar para 1972 quando a Vicky Leandros, Grega por nascimento, ganhou a Eurovisão pelo Luxemburgo com a fantástica canção “Après toi”, um dos ícones dos festivais organizados por nós à porta do "Tapum", sem que soubéssemos francês e com as palavras a surgirem com um som estranho parecido com o posteriormente famoso “Asereje”.
Por aqui, agora, sabe-me bem a cerveja; releio a ultima mensagem que fala de amor, recebo uma foto com colegas que estando juntas se lembraram de mim e manifestam saudade, recebo a foto dos meus sobrinhos no seu primeiro dia do regresso à escola, telefono aos meus pais e ouço-lhes a voz...
E fico baralhado sem saber se sonhar é uma capacidade que se treina ou se é afinal a própria vida em momentos perfeitos como este; quando a vida se entrelaça assim na nossa mais fiel vontade e em tudo e todos os que amamos, e nos amam.
A resposta não interessa.
O que interessa é que estou feliz aqui ao som do Bouzouki como há quarenta e tantos anos a brincar na Rua de Três quando a percussão das cantigas era dada pelo toque em qualquer lata.
O segredo?
Antes como agora, construirmos o que queremos por cima daquilo que se tem.
Tudo saberá sempre a muito e a perfeito, não tanto pelo que se tem, mas muito mais pela força do que queremos.