quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Entre Sophias e Ginas

Depois de uma viagem de táxi para o aeroporto em que o meu estômago foi agitado como numa montanha russa pelas travagens e arranques da condução de um motorista louco que passou o tempo todo ao telemóvel com um tal de Massimo qualquer coisa; regressar de Roma num avião cheio de peregrinos Italianos que vêm para Lisboa para depois irem até Fátima é uma espécie tão estranha de paraíso que quase nos faz querer e desejar muito todas as chamas do inferno.
Nada poderá ser pior do que isto.
As primas afastadas da Sophia Loren gritam como se não existisse amanhã, não conseguem escutar que o embarque será feito por filas, não vêm a sinalética com os números dos lugares, bloqueiam a coxia com as suas ancas avantajadas alimentadas a Lasanha, esparguete e Cannelloni, tropeçam nas bengalas umas das outras, chamam alto pelos maridos; e por entre os copos de vinho tinto que pedem às meninas da TAP, dão cabo da cabeça ao padre que as acompanha e que ganhará um indiscutível estatuto de santidade no final de tal viagem.
Perante esta visão dantesca, as hospedeiras adoptam um bem Italiano enigmático sorriso de Gioconda, assim algures entre o estar feliz e o estar incomodado com uma forte dor de barriga, acabam por desistir em pôr ordem na aeronave; enquanto eu, sentado a uma janela e acompanhado por um casal em que a mulher, sentada na coxia, é tão gorda que cria uma intransponível barreira entre mim e qualquer espaço de mobilidade que eu possa ter, acabo por matar as pouquíssimas saudades daquelas excursões em que o “Malhão, malhão” era acompanhado pelo toque de uma pandeireta e as anedotas eram contadas ao microfone por alguém que já tinha bebido um pouco mais do tinto que ia no garrafão.
O momento de maior aflição vivo-o no entanto quando a mulher tenta baixar a mesa à sua frente para poder comer a parca refeição que lhe iam oferecer, pois não conseguindo endireitá-la mas não desistindo de tentar e fazer pressão, eu fico com a claríssima sensação de que os pulmões lhe irão saltar pela boca a qualquer momento e acertar-me em cheio algures descompondo-me o fato.
As vendas a bordo também foram interessantes, com as “Ginas Lollobrigidas”, temendo por certo os raios de sol da Cova da Iria, a experimentarem todos os óculos de sol existentes no carrinho e sorrindo umas para as outras com um estilo entre o Jô Soares e o Benny Hill no apogeu dos seus respectivos programas de humor.
Depois finalmente Lisboa, a viagem de autocarro até ao terminal nos mesmos preparos, mas consigo finalmente perceber que viajámos todos num avião de nome José Régio.
Agora não me espanta nada, pois o que vivemos foi a incorporação do mais negro de todos os cânticos.
E como diz o magnifico poeta, repito eu agora já liberto deste “Tiramisú” mas de travo bem ácido:
- “Não, não vou por aí!”
Ou melhor, antes não tivesse vindo.

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