terça-feira, 9 de setembro de 2014

A abjecta discriminação


Domingo, a missa das 18.30 na Basílica dos Mártires, ao Chiado, tinha começado há algum tempo, e um homem avança pela coxia central procurando um lugar na igreja quase cheia, enquanto outro o tenta impedir puxando-lhe pelo braço.
Na primeira igreja construída em Lisboa depois da reconquista em 1147, 867 anos depois de D. Afonso Henriques ter lançado a primeira pedra num templo destinado a enterrar os mártires do cerco da cidade, que lhe dão título; ainda há Homens que por questões mundanas e nada divinas tentam impedir que outros tenham acesso ao “altar”, neste caso porque o indivíduo em causa tinha o aspecto andrajoso de quem tem de vaguear pelas ruas e não tem um tecto.
Seria a minha fé uma ilusão, que não é, se eu não considerasse aquele indivíduo alguém em tudo igual a mim, e para naquela circunstância lhe abrir espaço para que ele se pudesse sentar ao meu lado. Não o fiz porque ele rompeu a resistência do outro e subiu pela coxia; mas houve quem o fizesse mais à frente dando-lhe a possibilidade de ele se sentar e permanecer por ali até a missa terminar.
Por todos os motivos e ainda mais aquele que está sempre à mão para nos diferenciarmos dos demais, nem nos damos conta de que a nobreza não é feita de títulos e estatutos, mas é tecida por carácter.
Um Homem grande não é um juiz bacoco entregue ao permanente desprezo pelos outros e à incessante procura das diferenças que o promovam socialmente; um Homem grande é aquele que busca tudo aquilo que o possa ligar à humanidade inteira.
E aos olhos de Deus...
A discriminação, seja ela qual for, é a negação do próprio Deus e um desprezo pela fé.
Infelizmente, a igreja ainda é um refúgio para gente muito importante mas analfabeta no entender da palavra de Deus, e gente inerte na hora de a aplicar.
Infelizmente, a mão daquele homem que puxou o outro ainda é representativa das mãos de muitos outros Homens.
Valha-nos a esperança dos que pensam e agem de forma diferente, daqueles que desprezam os fúteis aspectos mundanos e sentam os irmãos ao seu lado.


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