quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Há tanta vida que se esconde nos dias escuros


É noite de uma segunda-feira que inundou Lisboa, e chove também copiosamente quando já noite, eu me despeço de Vila Viçosa da forma de sempre, rezando uma ave-maria à Senhora da Conceição ali naquela rampa que liga o Terreiro do Paço e o depósito da “cegonha” e me faz passar ao portão do meu velho liceu.
Tenho sempre a sensação de que expresso um “até já” a tanta coisa minha que persistirá sempre por ali.
Sigo…
A auto-estrada para Lisboa está um breu só rasgado pelos faróis do meu carro e de uns muito poucos que se cruzam comigo, e também pelos relâmpagos da trovoada que generosamente me vão revelando a elegância dos sobreiros e dos montes, meus fiéis companheiros em tantas tardes de viagem pelo Alentejo.
E não fosse a trovoada, até o castelo de Evoramonte passaria despercebido, ganhando no entanto com estes flashes, um semblante misterioso a lembrar os sumptuosos repousos eternos dos desinquietos espíritos dos condes da Transilvânia.
Não vejo corvos a rasgar os céus.
Só consigo vislumbrar dezenas de sapos que a chuva convocou para a auto-estrada, e fosse eu supersticioso e acharia que estava a ser carne de bruxaria no percurso para uma grande desgraça.
Eu vou com calma e a cumprir limites de velocidade, por entre palavras de amor prometi a alguém que o faria.
E a viagem segue na coerência deste breu e na fidelidade da trovoada, de tal forma que o Castelo de Palmela, poiso dilecto de “Templários” admiradores do apóstolo São Tiago, apresenta um perfil semelhante ao seu congénere alentejano que albergou a convenção que nos fez oficialmente “liberais” na rendição do “absolutismo” de D. Miguel, algures por 1834.
Não tarda e chego à ponte.
Já vejo Lisboa e já não chove.
Estou quase a chegar a casa e a primeira coisa que vou fazer depois de pôr a água a ferver para um chá de jasmim, é tirar algumas notas.
Há tantas histórias que nos assaltam (como os sapos saltitantes) durante duas horas de viagem por uma estrada escura à mercê de relâmpagos para ver algo mais do que o asfalto e os separadores e sinais.
Pois é…
Há tanta vida que se esconde nos dias escuros.

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