domingo, 31 de julho de 2011

Além Tejo

O sol a pique incendeia de calor o imenso mar cor de palha à nossa frente onde os sobreiros de tronco cor ocre despejados de cortiça são ilhas castanhas e verdes em alinhamento desordenado no longínquo horizonte que parece não ter fim.
Ouvem-se grilos, cigarras e o eco dos nossos passos caminhando ao encontro desta festa de aromas infinitos onde só o poejo é prenúncio da água de alguma tímida fonte.
Ao longe, há uma cascata de branco cal, entrecortada a azul e amarelo em linhas rectas verticais e horizontais, e no topo, um campanário de sinos soltos, sinaliza as almas e a fé, e junta-se ao sol a dar as horas à gente que dá vida a esta terra com marca do sul.
A solidão, a quietude e a dolência destes dias, devolvem-me a alma.
É verão.
É Alentejo.
Sou eu a chegar a casa.

sábado, 30 de julho de 2011

A árvore no campanário


Se este é um espaço para partilha e para avivar memórias, tem sido com naturalidade que à sombra das laranjeiras deste Pomar, tenho puxado para a conversa, as histórias das vidas dos que me são queridos e próximos, as histórias que se cruzam com a minha própria história, e de que com grande orgulho e humildade, reconheço que estando presentes, me tornaram mais rico e melhor pessoa.
A minha mais assídua interlocutora nestas conversas e minha especial amiga Manuela faz hoje anos (eu sei mas não digo quantos), e hoje tomo a liberdade de a colocar no centro desta conversa, sendo não por acaso mas por mérito seu, um exemplo contrário a tudo o que falei no meu post anterior.
Quando há alguns anos atrás se nascia numa terra pequena como a nossa, à saída da maternidade, leia-se o quarto dos nossos pais que era onde nascíamos, já trazíamos connosco o nosso destino traçado e a marca do local até onde a nossa condição nos permitiria chegar. Embora muitas vezes disfarçada de histórias de nobreza familiar, a condição era dada pelo maior ou menor desafogo financeiro, porque neste mundo o dinheiro compra tudo até a história.
Perante isto eram duas as atitudes possíveis: a resignação e a luta por ir mais além e romper com o destino que nos era oferecido.
Quando penso na Manuela, e pensar nela é também pensar no seu marido e meu amigo José Maria, e reflicto no que sempre nos uniu tanto ao longo destes anos, identifico com clareza que foram as cumplicidades nesta luta de rasgar o Curriculum Vitae que nos era apontado como limite, escrevendo um outro mais pleno de ambição, legítima, e onde a nossa felicidade se pudesse cumprir.
Esta construção assente na ambição teve o mérito de ser norteada pela importância do ser antes do ter, porque é isso que faz quem tem fé e quem a vive em plenitude fazendo de Deus o seu Herói, e fazendo da palavra de Deus, a verdadeira Bússola que aponta o caminho.
Este querer foi traduzido em trabalho e muitos sacrifícios e abnegações e garanto-vos, jamais beliscou a felicidade dos outros, pelo contrário, olhou para ela muitas vezes em primeiro lugar.
Há alguns anos atrás, de visita a Samora Correia, deparei-me com a fachada de uma igreja onde estava implantada uma árvore.
Lembrei-me desta imagem para homenagear a Manuela e reforçar aquele que acho ser o traço mais forte do seu carácter: a perseverança.
Quando nós queremos, até das pedras fazemos terra para criar raízes e poder dar frutos.

Estrelas, anjos e heróis

Uma estrela da música internacional, dona de uma voz portentosa que de forma fulgurante a projectou para o firmamento da Soul Music, apareceu morta na sua residência. O mundo não estranhou a ocorrência pois há muito se habituara a vê-la viver na zona do risco máximo, os territórios para os quais as drogas e o álcool, são passaportes com visto incluído.
Passeio por Lisboa e vejo espalhados pela cidade, cartazes a anunciar um livro sobre um assassino confesso, jovem, modelo de profissão ou de ambição, que aguarda julgamento numa prisão americana. O título da obra é muito representativo, “A queda de um anjo”.
Numa via rápida que rompe as terras da Beira Baixa, ali para os lados de Proença-a-Nova, um jovem de 17 anos morre na madrugada, quando com o seu grupo de amigos, se entretinha a tourear carros a alta velocidade, filmando os momentos para posterior colocação na Internet.
Três momentos da minha semana, três momentos perturbadores e representativos do nosso tempo, o “tempo da fama”.
Há alguns anos atrás, ser famoso era a consequência natural do reconhecimento pelo mérito de grandes feitos, hoje a fama passou ela própria a ser o objectivo principal.
Para a alcançar, à escala planetária, nacional ou até local, passou a valer tudo e perdeu-se a noção do risco, do bom senso, do ridículo, do bom gosto, do respeito pela nossa vida e pela vida dos outros.
Quando um homem de skate em descida rápida por uma estrada e que é empurrado para a valeta por um carro que passa, é transformado em herói nacional via YouTube, com direito a destaque nos telejornais, acho que não necessitamos de mais exemplos do que vos falo.
No contexto deste “tempo da fama”, o poder reconhecido aos media é infinito e maior do que tudo, até maior do que a justiça, com as limpezas de imagem a pretenderem substituir os tribunais na hora de julgar e condenar.
É nos terrenos da imprensa e buscando o trunfo da opinião pública, que se joga este jogo do poder e do faz de conta.
E quando se atinge a fama?
Às vezes não se sabe bem o que fazer com ela.
Muitas vezes cria-se a ilusão do poder absoluto, de que tudo é possível e permitido, e que jamais chegarão as consequências negativas dos excessos, quer sejam de álcool, de drogas ou das velocidades.
Num jardim florido, uma roseira que pretenda dar as rosas mais viçosas e ser a primeira em fulgor e perfume, antes de se preocupar com os ramos que quer ver crescer, terá primeiro de se preocupar com as suas raízes e com a busca do alimento e água para que se nutra e sacie, evitando assim ficar-se pelas intenções e transformar-se numa ilusão.
Faltam raízes às vidas deste tempo…

sábado, 23 de julho de 2011

Um ataque ao coração da paz


Aterrei pela primeira vez em Oslo no verão de 2000 e recordo-me da sensação que então tive: a comodidade da chegada a um local tranquilo.
O meu hotel ficava numa zona residencial onde embaixadas e famílias conviviam sem grandes aparatos de segurança.
Ao deslocar-me do hotel para o centro da cidade, atravessava os jardins do Palácio Real, de acesso livre como qualquer outro jardim público da cidade, sem portões fechados e quase que a permitir tocar à campainha e convidar o Rei e a Rainha para tomar um café.
Tive o privilégio de passar a tarde de um domingo no parque Vigeland, esse lugar magnifico criado pelas mãos do escultor Gustav Vigeland, que colocou na pedra, sob a forma de esculturas gigantes, todas as formas de relacionamento entre os Homens, recordando-nos que nascemos para não estar sós e que o amor, a amizade, a paz e a tolerância estão na nossa própria essência.
Recordo-me da felicidade de todos quantos buscavam as sombras do parque para estar em família ou em grupos de amigos, que inspirados na mensagem do escultor, se constituíam eles próprios como monumentos vivos desses sentimentos fortes e positivos que nos transportam para o conforto da união que faz com que o conceito de humanidade ganhe sentido.
Todos deveríamos ter a oportunidade de um dia poder passar por este local que está, não por acaso, na cidade que todos os anos serve de cenário à entrega do Prémio Nobel da Paz, esse galardão que nos recorda a cada Outono que há gente que se empenha e entrega as suas vidas para que o mundo seja melhor e valha mais a pena.
Ontem, dia 22 de Julho de 2011, o coração desta cidade da paz foi atacado pelo terrorismo, e as dezenas de mortos resultantes deste ataque são feridas profundas e dolorosas numa das últimas reservas de esperança dos nossos tempos.
O terrorismo tem e terá sempre a marca da cobardia e não há causa no mundo, por mais justa que se julgue, que não perca a razão ao fazer assentar a sua luta na morte de um ser humano sequer que seja.
Com estes ataques ao coração de Oslo, hoje mais do que nunca, sinto a maior das vulnerabilidades e sinto o desconforto de que em qualquer lugar e a qualquer hora, qualquer um de nós pode ser vítima desta guerra feita por cobardes e hipócritas.
O grande pintor Edvard Munch nasceu na Noruega e tem em Oslo um museu magnífico com as maiores das suas obras. De entre elas, a inquietante “O grito”, de 1893, é a grande atracção com o seu misto de mistério, dor, revolta, solidão, terror…
Edvard Munch antecipou e pôs na tela, o sentimento da Noruega e da Europa em geral, neste mês de Julho marcado a vermelho de sangue no calendário da paz.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Janela (in)discreta

No reino de sua majestade Isabel II, terra de bons princípios e excelentes maneiras, desenrola-se por estes dias um escândalo que tem na sua essência actos ilícitos e indecentes de espionagem e invasão da privacidade de cada um, utilizados como forma de sustentar publicações jornalísticas, os chamados tablóides, que pondo de lado os mais elementares princípios da ética, substituíram a sempre desejada informação credível, por maledicência, boatos, mentira e intrigas.
O escândalo envolve milionários, jornalistas e políticos, beliscando até o actual governo, provando que entre o jornalismo e a política, os corredores são imensos e demasiado esconsos, permitindo todas as cumplicidades.
Num dilema idêntico ao do ovo e da galinha, nunca saberemos se esta imprensa nasceu primeiro e foi ela que conduziu ao aparecimento de uma geração que compra a futilidade para a ler e alimentar a mais perversa e mórbida curiosidade sobre a vida alheia, ou se foi o inverso, e esta imprensa apenas aproveitou uma janela de oportunidade evidenciada pelo mercado.
E em Portugal?
Talvez a situação não seja muito diferente do Reino Unido, mas ficou-me a curiosidade e fui à procura das notícias que os Portugueses mais lêem, que mais compram para ler e que mais lhe são oferecidas para comprar e ler.
Hoje, dia 20 de Julho de 2011, dos vinte jornais e revistas mais em destaque no quiosque luso, anotei as seguintes notícias como as mais relevantes nas primeiras páginas:
DIÁRIO DE NOTÍCIAS – Avaliação dos professores;
CORREIO DA MANHÃ – Casas devolvidas à banca;
JORNAL DE NOTÍCIAS – Médicos corruptos;
PÚBLICO – Custo da adopção do Acordo Ortográfico;
i – Revolução liberal no emprego;
DIÁRIO ECONÓMICO – Interessados na venda do BPN;
JORNAL DE NEGÓCIOS – Negócios futuros da CGD;
A BOLA – Novas contratações do Benfica;
RECORD – Novas contratações do Benfica;
O JOGO – Novo jogador do FCPorto;
CARAS – Aniversário de casamento de um jogador de futebol;
VIP – Gravidez de uma actriz;
LUX – Lua-de-mel de príncipes;
NOVA GENTE – Príncipes de férias em Portugal;
FLASH – Apresentadora de TV traída;
TV GUIA – Ex-namorada de vedeta tenta o suicídio;
TV 7 DIAS – Suicídio do pai de um actor;
MARIA – Enredo de telenovela da SIC;
MARIANA - Enredo de telenovela da TVI;
TELENOVELAS - Enredo de telenovela da SIC.
O que em resumo se traduz por:
• Figuras públicas / Sociedade 35%
• Desporto 20%
• Telenovelas / Ficção 15%
• Política 15%
• Economia 15%
Ou seja, a política e a economia têm na informação criada e consumida em Portugal, a mesma importância relativa das notícias que assentam em enredos de telenovelas. Não é que a nossa política não pareça por vezes uma telenovela!
As notícias sobre figuras públicas suplantam o conjunto de notícias sobre economia e política.
Perdoem-me a inexactidão desta estatística muito artesanal, mas que penso não está muito distante da nossa realidade do vale tudo e da superficialidade.
O fútil suplantou o essencial e a dignidade foi arruinada pelos princípios pérfidos e primários da bisbilhotice barata.
Para além disso, a opção é abandonar os territórios da realidade e viver no contexto dos contos da carochinha e da ficção das telenovelas, quer sejam as de enredo ou as desportivas.
Na fachada deste tempo, a indiscrição passou a ser a regra e o que mais se deseja é que se possa abrir uma janela.
Mas uma janela discreta, por favor.

sábado, 16 de julho de 2011

Português: Reprovado!

Ao longo do meu percurso académico, do básico à universidade, e com pós-graduações incluídas, não tenho dúvidas sobre quem elejo como o meu melhor professor.
Pela lembrança das aulas que eu considero como perfeitas, pelas matérias leccionadas da forma mais interessante possível, e sobretudo pelo impacto extremamente positivo que os seus métodos tiveram em toda a minha vida, quer na perspectiva pessoal, de estudante e profissional, o meu melhor professor foi sem dúvida o Padre Dr. Mário Aparício Pereira, então tal como agora, Capelão da Santa Casa da Misericórdia de Vila Viçosa.
Foi meu professor de Português na Escola Secundária de Vila Viçosa, ainda nas velhinhas instalações anexas ao Paço Ducal, quando eu frequentava o 10º ano de escolaridade.
As aulas de apenas um ano lectivo foram suficientes para que eu aprendesse a gostar de Camões, de Eça, Ferreira de Castro, Manuel da Fonseca, e tantos outros escritores maiores da Língua Portuguesa.
Aprendi o real valor da Língua e a importância do respeito pelas suas regras como forma de a preservar sendo como é, um valor distintivo, maior e imprescindível ao ser Português.
Reforcei o meu gosto pela leitura, pela História e imaginem só que foi nestas aulas que eu aprendi a ouvir, ver e gostar de Ópera. Foi aqui o meu primeiro contacto com Verdi.
Mas mais valioso do que tudo, a melhor herança para a vida foi sem dúvida ter aprendido nestas aulas e no contacto com este Mestre, o quão importante é ser exigente connosco próprios e o não nos contentarmos em sermos bons se podemos ser muito bons.
Assaltaram-me hoje à lembrança estas memórias quando li no jornal que a média das classificações dos exames de Português no 12º ano foi de 8,9 valores numa escala de 0 a 20, com os alunos a terem muita dificuldade em responder a questões de gramática, a demonstrarem não saber interpretar textos e manifestando também muitas lacunas ao nível da escrita.
Quando tento encontrar uma resposta para o porquê deste desaire, inevitavelmente chego à conclusão de que tal aconteceu porque nos últimos anos e com a obsessão doentia das taxas de insucesso escolar, em vez de as melhorar indo á raiz do seu problema, se fez uma camuflagem e uma cosmética aliviando o grau de exigência.
O sistema de ensino e os seus responsáveis, colocaram os métodos, os conteúdos e os níveis de exigência nos antípodas dos do meu professor, e o resultado é a mediocridade e o triste espectáculo de um povo com cada vez mais habilitações mas com cada vez menos cultura.
Um outro dia, num ambiente informal comecei a declamar “O Mostrengo” de Fernando Pessoa, e uma amiga, licenciada em Medicina há alguns anos, atirou-me com o seguinte comentário:
- Com esse patriotismo todo, “essa coisa” deve ser do Camões.
Pois deve, deve…
E eu?
Sou a Amália Rodrigues, não?

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Tolerância servida em tabuleiros


Confesso-vos que há muito desejava ir a Tomar ver ao vivo a Festa dos Tabuleiros.
Consegui concretizar esse desejo no passado fim-de-semana e tenho de vos reconhecer que o que vi superou em tudo as minhas maiores e melhores expectativas.
Celebra-se o Espírito Santo fazendo a festa da cor.
É a cor dos altos tabuleiros transportados à cabeça pelas mulheres cujo traje branco faz realçar ainda mais, as garridas flores de papel que os enfeitam por entre as três dezenas de pães que compõem cada um.
É a cor das ruas decoradas com as mais ricas e melhores colchas de cada Nabantino, e também com as mesmas flores nascidas do jeito e do gosto de quem traduz em pedaços recortados de papel, a vontade de bem receber.
É sobretudo a cor dos rostos felizes de quem recebe e de quem chega.
A foto que coloquei acima tirei-a com o telemóvel à porta da Sinagoga de Tomar e a Estrela de David feita em flores de papel por cima da entrada, prova que todos, Católicos e Judeus, estávamos na mesma festa.
Li um dia e faz-me algum sentido, de que estas manifestações de fé e devoção pelo Espírito Santo, tão evidentes nos Açores, em Tomar ou em alguns locais da Beira Baixa, nasceram em territórios de elevada presença de Judeus, que em tempos de intolerância pela fé que professavam, encontraram nestas manifestações uma forma de se integrarem num contexto também abarcado pela fé Católica, sem ferirem assim, no essencial, a fé que transportavam no seu íntimo.
Encontraram no Espírito Santo o denominador comum, o ponto de encontro.
Por estes dias ouço e vejo as notícias que chegam de Belfast, na Irlanda do Norte.
Neste mês de Julho, tal como acontece todos os anos, os Protestantes celebram as vitórias de Guilherme de Orange sobre os Católicos, realizando marchas que são sempre brindadas com chuvas de pedras atiradas pelos crentes da Igreja de Roma.
O que une na essência da fé, Protestantes / Anglicanos e Católicos, é muito maior do que aquilo que une Judeus e Católicos, apenas não existe vontade de procurar os denominadores comuns e atiram-se pedras, ferem-se e matam-se Homens, tudo em nome de um Deus que até é Amor e se fez Homem para pregar a paz.
Há pois duas formas distintas e antagónicas de estar na vida e olhar o mundo.
Podemos viver com espírito positivo, procurando o que nos une e apoiando-nos aí para viver em paz e construir comunidade.
Podemos viver obcecados pela procura das diferenças, sustentando dessa forma a separação, a guerra e a violência com todos os que nos rodeiam.
Quando o olhar é temperado pelo coração e o bom senso, impera a primeira opção e aí verdadeiramente o mundo avança, porque a paz e a tolerância serão sempre pilares essenciais ao desenvolvimento.
E isto aplica-se às nações mas nasce do mais íntimo do nosso ser.
Em Tomar, nos Tabuleiros, talvez seja a Tolerância o maior segredo que dá cor à festa.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Moody’s classificada como MMEE

Em 1991 assentei praça em Tavira para cumprir o então obrigatório, serviço militar.
Já com vinte e muitos anos, eu e mais 119 garbosos homens, após alguns anos a estudar na universidade, fomos dar o corpo, e a mente, claro, à preparação da defesa nacional, ficando aptos para em caso de necessidade, sairmos em defesa da pátria.
Em finais de Setembro, ainda com muitos turistas nas esplanadas à beira do Rio Gilão, os nossos pelotões carregados com G3, cheios de lama e com a cara pintada de preto com o recurso ao papel químico que antes acompanhava os boletins do Totoloto, um verdadeiro Platoon do Sotavento, eram um elemento que atraia as atenções e animava a malta.
Riam os turistas e riamo-nos nós por dentro, pelo facto de estarmos a ser treinados para uma guerra à semelhança da guerra colonial, com os inimigos a atacarem por detrás de arbustos, quando tínhamos a noção, muito clara após a primeira guerra do golfo, de que os perigos e os ataques nesse tempo já eram de outra natureza, vinham do céu sob a forma de mísseis e poderiam ser de natureza química ou biológica, por exemplo.
O que acho que nunca ninguém imaginou por esses dias, era de que haveríamos de chegar a um momento em que a soberania nacional fosse posta em causa pelos ataques especulativos de um bando de opinativos consultores teóricos pós-modernos, agrupados em agências de rating, que com base nos seus modelos preditivos complexos, irreais e aposto, jamais testados, a partir dos seus escritórios no topo de um qualquer arranha-céus americano, e tendo por arma modernos e sofisticados PCs, atirasse a nossa economia para o lixo, classificando-a de “Ba2” (Vá lá alguém entender estas siglas).
Com argumentos fúteis e vagos, numa atitude irresponsável indutora da nossa maior e legítima revolta, classificam igualmente de lixo, os maiores bancos nacionais, importantes empresas e até cidades como Lisboa ou Sintra.
Incompreensível.
Ou talvez não, se pensarmos que o ataque tem por detrás outros elevados interesses, não visando apenas Portugal, mas pretendendo atingir o Euro, ferindo-o de morte, num contexto de permanente bombardeio às economias mais débeis da zona da moeda única europeia.
Tivessem os líderes europeus de hoje o mesmo espírito europeísta de quem idealizou o Euro, e talvez a resposta a estes ataques já tivesse sido muito mais eficaz, impedindo-nos de chegar aqui.
Em alguns países, incluindo Portugal, têm sido apresentadas na justiça, queixas contra estas agências e a sua acção nefasta, tendo elas sempre respondido, defendendo-se, que se limitam a emitir uma opinião num quadro de liberdade de expressão.
Não fosse o impacto negativo que estas opiniões têm sobre os bolsos de milhões de pessoas, e o assunto até teria alguma graça.
Mas já que estamos nesse âmbito da liberdade de expressão, sinto-me à vontade para como cidadão de um país democrático, dizer que atribuo à Moody’s, com base no meu critério pessoal e nas suas acções recentes e também nas passadas, quando por exemplo reconheceu a saúde financeira do Lehman Brothers alguns dias antes da falência, a classificação de MMEE: Monte de Merda a Exigir Extinção.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Joaquim e Francisca

Este fim-de-semana estive em Montargil num hotel recentemente inaugurado. Pela profusão de palmeiras e piscinas, para além da constante visão da imensa água da barragem, fácil seria imaginar que me encontrava num resort de qualquer destino tropical, mas a decoração dos espaços interiores com fotografias gigantes a preto e branco, todas elas exprimindo rostos, gestos e paisagens do Alentejo, teve o condão de me devolver às memórias dos meus dias no campo, do meu tempo de infância.
Por estes dias assinalámos o trigésimo aniversário da partida dos meus avós maternos, Joaquim e Francisca, que ocorreu no verão de 1981 apenas com o intervalo de 13 dias, porque quem muito ama não sobrevive na ausência do amado.
Registei esta coincidência porque foram eles os meus mestres, os melhores professores a explicar-me como é esta arte de viver da e com a terra, pagando a suor o duro tributo pela fertilidade que nos permite alimentar a vida.
Algures numa manhã de Inverno aprendi como com varas, mãos hábeis e o desconforto de uma posição de cócoras, se apanha a azeitona antes de a ensacar e encaminhar para o lagar, fábrica de azeite.
Aprendi como se faz o mel, como se podam as árvores de fruto, como se trata a terra tendo em conta o que lhe vamos pedir na colheita, como se rega, como se colhem os legumes e a fruta…
Nos ribeiros de água limpa e fresca dos vales, vi de perto essa arte de lavar a roupa, de a pôr a corar e a secar no meio da esteva, por forma a roubar-lhe o aroma que faz dos lençóis o mote para as melhores e mais repousadas noites.
Dos aromas da salsa, dos coentros, dos poejos e da hortelã, todos juntos num imenso alguidar de esmalte meio de água no poial onde estavam os cântaros cheios da água mais fresca, jamais me poderei esquecer por muitos anos que passem, e serão eles sempre para mim o real cheiro do campo.
Pelas rugas e pela aspereza das mãos dos meus avós, aprendi como foi difícil a vida num tempo que já não foi felizmente o meu, um tempo sem relógios e em que apenas o sol bastava para ao nascer ou ao pôr-se, dar o sinal para começar ou terminar a jorna.
Um dia, a pretexto de uma ida a Fátima e aproveitando a proximidade à Nazaré, os meus avós viram pela primeira vez o mar. Fizeram-no com mais de sessenta anos, acompanhados por mim e pelo meu irmão, que com cinco décadas menos, há muito estávamos familiarizados com o Atlântico.
Subindo ao Sítio e olhando o horizonte, a minha avó não resistiu a questionar espantada:
-Meu Deus, isto é tudo água?
O mundo tem sempre e só para cada um de nós, a dimensão do pouco ou muito que nos é dado dele conhecer.
Jamais esqueci este episódio e poucas vezes terei contemplado um horizonte do nosso ou dos outros mares, sem que estas palavras me tenham acorrido à memória.
Sei que jamais olharei o mais exótico e longínquo dos mares sem em consciência me sentir o privilegiado que chegou ao ponto da colheita numa sementeira que começou há muito, que foi rude na intensidade e longa no trajecto, uma sementeira fertilizada pela honestidade e simplicidade dos que em silêncio e muita dor lutaram para que o meu tempo fosse de largas visões e horizontes.
Joaquim e Francisca, mestres, professores, avós e heróis infinitamente maiores do que eu.