sábado, 16 de julho de 2011

Português: Reprovado!

Ao longo do meu percurso académico, do básico à universidade, e com pós-graduações incluídas, não tenho dúvidas sobre quem elejo como o meu melhor professor.
Pela lembrança das aulas que eu considero como perfeitas, pelas matérias leccionadas da forma mais interessante possível, e sobretudo pelo impacto extremamente positivo que os seus métodos tiveram em toda a minha vida, quer na perspectiva pessoal, de estudante e profissional, o meu melhor professor foi sem dúvida o Padre Dr. Mário Aparício Pereira, então tal como agora, Capelão da Santa Casa da Misericórdia de Vila Viçosa.
Foi meu professor de Português na Escola Secundária de Vila Viçosa, ainda nas velhinhas instalações anexas ao Paço Ducal, quando eu frequentava o 10º ano de escolaridade.
As aulas de apenas um ano lectivo foram suficientes para que eu aprendesse a gostar de Camões, de Eça, Ferreira de Castro, Manuel da Fonseca, e tantos outros escritores maiores da Língua Portuguesa.
Aprendi o real valor da Língua e a importância do respeito pelas suas regras como forma de a preservar sendo como é, um valor distintivo, maior e imprescindível ao ser Português.
Reforcei o meu gosto pela leitura, pela História e imaginem só que foi nestas aulas que eu aprendi a ouvir, ver e gostar de Ópera. Foi aqui o meu primeiro contacto com Verdi.
Mas mais valioso do que tudo, a melhor herança para a vida foi sem dúvida ter aprendido nestas aulas e no contacto com este Mestre, o quão importante é ser exigente connosco próprios e o não nos contentarmos em sermos bons se podemos ser muito bons.
Assaltaram-me hoje à lembrança estas memórias quando li no jornal que a média das classificações dos exames de Português no 12º ano foi de 8,9 valores numa escala de 0 a 20, com os alunos a terem muita dificuldade em responder a questões de gramática, a demonstrarem não saber interpretar textos e manifestando também muitas lacunas ao nível da escrita.
Quando tento encontrar uma resposta para o porquê deste desaire, inevitavelmente chego à conclusão de que tal aconteceu porque nos últimos anos e com a obsessão doentia das taxas de insucesso escolar, em vez de as melhorar indo á raiz do seu problema, se fez uma camuflagem e uma cosmética aliviando o grau de exigência.
O sistema de ensino e os seus responsáveis, colocaram os métodos, os conteúdos e os níveis de exigência nos antípodas dos do meu professor, e o resultado é a mediocridade e o triste espectáculo de um povo com cada vez mais habilitações mas com cada vez menos cultura.
Um outro dia, num ambiente informal comecei a declamar “O Mostrengo” de Fernando Pessoa, e uma amiga, licenciada em Medicina há alguns anos, atirou-me com o seguinte comentário:
- Com esse patriotismo todo, “essa coisa” deve ser do Camões.
Pois deve, deve…
E eu?
Sou a Amália Rodrigues, não?

1 comentário:

  1. Se tu fosses professor, sofrias, tanto ou mais do que eu, ao ver a impotência que temos para lutar contra esse sistema que defines! E, como eu, muitos professores sofrem também, porque são exigentes e têm a consciência de que só com exigência podemos ir mais longe! Infelizmente, os números falam mais alto! Para onde irá este país?!

    ResponderEliminar