domingo, 31 de agosto de 2014

As cidades eternas

A bordo de um avião da TAP baptizado de Eusébio vejo Lisboa ficar para trás enquanto escuto a algaraviada de um grupo de Italianos que revisitam as fotos num i-Pad que sacaram de uma mala onde há Pastéis de Belém comprados no aeroporto e imagens coloridas de Santo António para colar nas portas dos frigoríficos.
Por entre este histérico visionar das fotos, há uma criatura que de repente espreita pela janela e confunde o Shopping de Loures com uma enorme mesquita.
De aqui a um par de horas aterraremos em Roma com a certeza de que todas as cidades são eternas. Mesmo que não o sejam no mapa redesenhado pela História e vulnerável a tantas opções de ordem estratégica e política, são eternas em nós.
E não é só por causa das fotos, dos souvenirs mais ou menos criativos, ou até da lembrança do sabor de uns quaisquer pastéis; as cidades são eternas pelo que delas guardamos desses momentos em que foram o cenário perfeito para a realização da nossa felicidade, a sós ou especialmente acompanhados por quem amamos e a quem atribuímos o título de especial.
Por isso é que há cidades que amamos sem conseguir arranjar um detalhe arquitectónico, geográfico ou outro, que o possa explicar.
Ontem ao fim da tarde passeei sozinho por Lisboa. Deixei umas amigas no Terreiro do Paço e subi a Rua Augusta até ao Rossio para depois chegar ao Chiado.
Sem as lembranças de outras tardes, Lisboa seria apenas um desenho cuidado e perfeito de linhas de pedras vazias de vida. O solo bordado pelos tons do basalto.
A Lisboa eterna acompanhou-me a mim nas lembranças das palavras, dos olhares, das cumplicidades e até da paixão por aquelas Bolas de Berlim cujo creme parece ser uma derretida boca na expressão de um irresistível sorriso.
As lembranças que me assaltaram a cada esquina e a cada mais pequeno detalhe.
Por entre a saudade, claro.
Depois das divagações sobre as privilegiadas relações de Portugal com o Islão com base nas dimensões gigantescas de uma “mesquita” implantada ali no vale de Loures, as mulheres divertem-se agora a fazer fotos aos maridos que já dormem (ou fingem para não terem de as aturar e de lhes dar resposta).
A Italiana da frente "esmagou-me" como se faz ao fiambre numa sandes quando resolveu recostar o banco, e a gorda ao meu lado já cruzou a perna e já me deu um pontapé.
De aqui a nada aterraremos todos na sua cidade a que chamam eterna, comerão os Pastéis de Belém, porão o Santo António a brilhar nos frigoríficos entre a Torre Eiffel e a Estátua da Liberdade; mas nada disso será mais eterno do que tu em mim e nas saudades de Lisboa.
Nem a própria Roma.

sábado, 30 de agosto de 2014

As palavras por entre os silêncios

Há muito que o meu i-pad pessoal é “terreiro” preferido para as brincadeiras do João e do Luís quando me visitam, e por isso, e como tio extremoso, lá vou de vez em quando descarregando umas aplicações por sua indicação e segundo as suas vontades.
Assim, com o aparelho bem composto de icons que abrem jogos de monstros, pássaros, ursos e afins; já me habituei a que às vezes durante a noite, estas criaturas abandonadas e vítimas da minha falta de jeito, paciência e tempo para jogar, vão rompendo o silêncio com sons algures entre o chiar de um boneco, o toque de um despertador ou o repenicado canto de uma ave.
Vantagem: já estou imune a qualquer fantasma que resolva visitar-me, pois dormirei descansado julgando que se trata de uma mensagem enviada pelo i-pad.
Fui buscar este exemplo com algo de caricato apenas para demonstrar que o silêncio não existe, nem mesmo quando ele parece o destino inevitável para a noite de um homem que está sozinho.
Talvez porque estar sozinho não seja sinónimo de estar só, a ausência das palavras físicas de outrem são sempre substituídas pelas tantas outras que carregamos na inesgotável reserva da memória.
Os silêncios são oportunidades únicas para revisitarmos as nossas Histórias… e aquilo que parece um vazio é afinal uma festa de tantas palavras; da mesma forma que a escuridão de uma sala nos proporciona a melhor forma de ver um filme.
E tal como nos jogos do i-pad, a saudade faz despoletar sinais; e os fantasmas jamais conseguem sobreviver o tempo suficiente para nos pregarem um pequeno susto que seja, afinal estamos sempre acompanhados pelo melhor de nós.
Mas nem só de passado se “temperam” os silêncios…
À boleia do voo rebelde que nos oferece o pensamento, pelos silêncios vamos até onde e quem queremos, abraçando-nos ao ilimitado recurso da criatividade e da ambição no desenhar dos nossos maiores sonhos.
É sempre do aparente vazio de uma tela em branco que nasce uma obra de arte.
Assim…
Sempre que de noite eu te abraço
Entre os meus silêncios, vendo-te sorrir,
A esperança renasce de um novo traço:
Eu fiz o novo dia que vai surgir!

Tenham um excelente sábado e sorriam muito.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

“A nossa Merkel” é um genérico manhoso, de má qualidade e sem bioequivalência

Apesar de contribuir mensalmente para o “equilíbrio” das contas públicas com mais de metade do meu vencimento, entre Segurança Social e IRS, este fim-de-semana vou ter de fazer um esforço suplementar e retirar da minha conta mais alguns milhares de Euros que endossarei para o Ministério das Finanças por via bancária.
O sucesso desta operação de “assalto à mão desarmada” às minhas poupanças e às dos meus concidadãos é apresentado sob a forma de números, rácios e outros indicadores do âmbito da economia, estatísticas onde se realça a protecção da banca e do sistema financeiro per si.
Não interessa se recentemente tenho tentado ajudar um amigo que tem o pai no corredor de um hospital público há oito dias por ainda não lhe terem arranjado uma cama para o tratar com o mínimo de dignidade após o AVC que sofreu.
Desde que o PIB funcione…
Eu sei que me chamarão básico, iletrado e possivelmente populista por me socorrer deste tipo de argumentos, mas não consigo deixar de me sentir defraudado por me estarem a roubar o oxigénio enquanto o meu país morre de asfixia.
Porque são as pessoas que fazem um país, já o tenho repetido várias vezes.
Acho que nada acontece por acaso…
Há algumas semanas enquanto lia o jornal Expresso deparei-me com um daqueles artigos ao estilo de “Omo lava mais branco” em que a depuração da imagem da Ministra das Finanças assentava no título de “A nossa Merkel”, desde logo a pressupor que tal comparação é um elogio para qualquer pessoa.
A senhora loura que ontem me entrou pela sala pela porta dos telejornais a debitar números, era então apresentada como uma brilhante economista que nos anos oitenta tirou o curso por opção na Universidade Lusíada, numa altura em que as pessoas com posses evitavam o ambiente conturbado das universidades públicas.
Terá a jornalista confundido os anos oitenta com outros anos quaisquer pois entre 1984 e 1989 tirei a minha licenciatura na Universidade de Lisboa e nem uma greve ou conturbação ocorreu. Confusão talvez propositada e por conveniência porque nos anos oitenta só frequentava a Universidade Lusíada quem não tinha média para entrar numa outra qualquer de natureza pública. Era definitivamente uma escola de recurso para alunos com médias baixas no secundário onde a dita senhora acabou por se licenciar com uma média de 14, o que não é lá grande cartão-de-visita para quem depois ficou por lá a formar novos “crânios”.
A “nossa Merkel” é então um genérico manhoso e de má qualidade, sem bioequivalência relativamente à senhora que gere a Alemanha (e por inerência, a Europa).
Não será só culpa dos intérpretes pois o guião é em si mesmo muito mau, mas infelizmente para nós, a política está repleta destas pessoas menos capacitadas, com deficit de formação, que “compraram” os seus títulos em instituições de menor credibilidade e que foram fazendo curriculum por via de sucessivas nomeações.
E saberá Deus que vícios privados habitam por detrás das virtudes de tais curricula.
Expostas ao benefício da construção de uma imagem pública de excelência com o beneplácito da imprensa, são estas pessoas que “gerem” o país e que justificam em grande medida a asfixia da nossa história mais recente.
Sem a mínima noção de quem gerem as vidas e as dores de muita gente.
Digo-o eu e disse-o o insuspeito Prof. Adriano Moreira ainda esta semana na TVI24 quando afirmou que o governo está a esquecer valores e princípios.
Nada acontece por acaso…
Ontem ao escutar a ministra e estando na posse da carta das finanças com o código para fazer a minha transferência algures por este fim-de-semana, não pude deixar de me sentir da mesma forma de quando há alguns anos os “cábulas” me cobiçavam aquelas provas que me deram livre acesso a uma universidade pública que frequentei por entre a maior paz do universo.
Aqui pedem-me dinheiro num processo em que só a alma está imune à cobiça.
A alma que diz não e se revolta perante a mediocridade.  


quinta-feira, 28 de agosto de 2014

E pimba… o regresso!

Há sempre algo que vem legitimar o título de tonta atribuído a esta estação do sol e das praias, e talvez tenha sido isso que senti justificar o facto de estar parado num semáforo de uma esquina de Lisboa e ter descoberto de repente que a loura que conduzia o super Mercedes que estava ao meu lado era a cantora Ágata.
Logo ali e em dia de regresso ao trabalho, a nossa fragilidade apela aos santinhos todos num pranto ao estilo de “Mãe querida, mãe querida…” e desliza para um secundaríssimo plano, o antecipado desconforto do regresso aos Mocassins depois de um mês de liberdade total para os pés em gozo de férias.
Já para não falar do aperto que as gravatas me oferecem ao pescoço habituado à brandura dos pólos…
Por entre o "perfume", que não de mulher, mas desse improvável dueto da Rainha do Pimba com um Quim Barreiros que não é o original; nada mais poderá constituir factor de risco para uma possível depressão pós-férias de verão.
Saberá no entanto Deus qual a causa para a imensidão do castigo que para mim constituiu tal visão demoníaca (e loura), como se de repente eu tivesse saltado para um videoclip do "saudoso" programa "Made in Portugal", para dentro de “A Casa dos Segredos” da Teresa Guilherme, para uma página central e poster da revista “Ana mais atrevida”, ou então para um daqueles programas da tarde em que os apresentadores me põem à mercê de Captopril debaixo da língua quando falam mil vezes por hora dos números de oitocentos e qualquer coisa e das enormíssimas vantagens de ligar e ganhar milhares e milhares de Euros.
Foi portanto com os pés devidamente aconchegados, com o pescoço aprumadinho num fantástico nó de duas voltas, e sem qualquer laivo de queixume que voltei a tomar a bica pelas sete horas da manhã na pastelaria do costume e a dar dois dedos de conversa enquanto folheio e leio as gordas do Record.
E as gordas, juro que não é piada para a Ágata.
Depois o trabalho, a alegria de rever os colegas e um dia fantástico, claro; se até a colega que faz a limpeza escutava por aqui e partilhou comigo o som do Waterloo dos Abba, da Eurovisão de 1974, um pouco antes das oito da manhã…
É que só podia correr bem...
Porque se o segredo e o melhor dos dias é o bom humor, nada de mau acontece se nos agarrarmos a ele com unhas e dentes dizendo a toda a hora que "podes ficar com o resto e dizer que eu não presto, mas não fiques com ele..."
Ele, o bom humor claro, que a outra coisa bem diferente se referia a Ágata nos seus “malditos amores”.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

As sedes, os silêncios e o imenso querer dos heróis

O silêncio será sempre a melhor oportunidade para atribuir valor à música e às palavras; a ausência, a melhor forma de fazer justiça ao inquestionável valor de um abraço; e a saudade pode constituir uma fantástica e definitiva oportunidade para sentirmos que sim, este é o nosso definitivo amor de onde nunca iremos partir.
Só valoriza muito a água quem sente ou já sentiu sede, o pão vale muito pouco para quem nunca sentiu fome, e a liberdade é um dom fundamental para todos, mas muito especialmente para aqueles que um dia sentiram a mordaça que lhes limitou o desfrutar da sua própria verdade.
Depois… a adversidade é para os fortes uma escola de virtudes e para os fracos um fabuloso pretexto para dar brilho à sua “aura” de coitadinhos e desgraçados abandonados pela sorte.
E às vezes, no fim das tardes quentes de verão, quando o sol tinge de vermelho o horizonte e nós lhe entregamos o olhar, enquanto à janela escutamos a voz brava de alguém que do outro lado da linha partilha connosco a ânsia de muito querer viver por entre um interregno em que a saúde se foi; nós aprendemos tudo isso enquanto a emoção nos tolhe as palavras e nos põe o pensamento e o coração em cambalhotas a cem à hora.
E sentimo-nos muito grandes e ricos embora estejamos a chorar.
Amanhã o sol nascerá por certo mas é necessário ir procurá-lo ao outro lado da vida, perdão, da casa.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

O último dia de férias

Já está, cheguei ao meu último dia de férias.
Durante um pouco mais de três semanas tive tempo para passear no campo, na serra, nas cidades, nas ruas com muita gente, nos trilhos solitários e só meus, à beira mar, nas margens dos rios, dos lagos azuis, das ribeiras com aroma de hortelã e poejo…
Cantei, assobiei, comovi-me, chorei, ri muito, encantei-me com as palavras dos poetas e com as canções que fui escutando. Li e reli Eugénio de Andrade e definitivamente fiz minha (nossa) a fantástica Where dreams go to die, de John Grant.
Escrevi prosa, crónica, romance e poesia, à luz de um luar gigante ou de um sol mais ou menos envergonhado; a olhar o Douro, o Tâmega e o mar Atlântico; escrevi por entre o cheiro a flores, a campo, a maresia… mas sempre a pensar em ti.
Sorri muito sob o privilégio do afecto dos meus pais a quem dei o braço em inesquecíveis passeios, e também sob o efeito doce das palavras e das memórias que soubemos ir semeando pelos dias.
Bebi, brindei com vinho, cerveja e sangria, comi petiscos, gaspacho, sardinhas, bolas de Berlim…
Iniciei muitos dias a saborear o mar e simultaneamente o prazer de um bom café com gelo.
Li mensagens, comentei fotos, vídeos, partilhei piadas e até já gritei golos do Benfica.
Falei muito e saboreei todos os silêncios e o privilégio que ele nos oferece de podermos falar a toda a hora com aqueles a quem queremos muito.
Arrumei o escritório vasculhando memórias.
Abandonei o relógio para que não existisse hora para nada, existindo simultaneamente tempo para tudo.
Estive na praia, procurei conchas, falei com o mar nos instantes ali naquele terreno mágico onde as ondas se rendem à areia e ela nos desenha o caminhar.
Tomei banhos no mar e à excepção da chuva num domingo no Monte de Santa Luzia, não despejei sobre mim qualquer outra água fria. No mundo já se mete demasiada água, e para além disso, gosto mais de nomear os que amo por via do coração e do pensamento.
Namorei, umas vezes sob o olhar doce da pessoa por quem se me solta a poesia, outras, muitas mais, naquele abraço perpétuo que a memória sempre nos oferece fazendo com que a distância de quem amamos seja apenas um desprezível detalhe de natureza geográfica.
Mas já está… as férias acabam hoje.
Tenho no entanto de confessar que gostando muito do que faço no trabalho e das pessoas com quem o faço, já tenho saudades e me vai fazer muito bem o regresso.
Há mais de um mês que não tomo o café matinal com a minha querida colega Carla Antunes, e isto é uma violência.
No fundo, quer falemos de férias ou trabalho, o segredo é sempre o mesmo, é fazermos nossos todos os dias pondo-lhes a marca do que queremos, rodeados pelas pessoas de quem gostamos.
Venham de lá então os doces dias de trabalho.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Eu jamais quererei morrer

As calçadas da Mouraria, pátria mãe de todos os fados, souberam esperar mil anos, por nós, pelos nossos passos e pelo canto tom de flor que sempre se solta do teu olhar.
A noite a cair sobre a viela, e a alma a acender-se lentamente ao ritmo do velho candeeiro que lá do alto já perdeu o conto às lágrimas da gente na Rua do Capelão.
E por entre este choro que transpira e ressoa das paredes cúmplices de tantos sofreres de amor, por entre a poesia que nos beija entrelaçada na brisa do fim da tarde, por entre a liberdade, fiel irmã e companheira de Lisboa, os teus braços foram o cais do melhor destino, e o nosso abraço foi aquilo que será sempre: o cumprir do meu melhor fado.
Aqui mudámos o tempo e o ciclo vazio de duas tristes histórias.
Agora, há muitos mais mil anos que esperam por nós, a eternidade e esta festa que matou solidões e encheu de amor e palavras de verdade, as tardes de Lisboa e os mais recônditos recantos da mais escondida e estreita viela.
Há tantas calçadas atapetadas de fados que esperam pelos nossos passos cúmplices de eternos enamorados.
A eternidade…
Há tanta vida que se solta dos beijos que tu me dás.
Tu és a minha vida, e assim, eu jamais quererei morrer.

Há exactamente 26 anos o Chiado ardia num dia de verão em que chorámos por Lisboa.
O tempo devolveu-nos o Chiado a tempo de nos sorrir nas tardes perfeitas que Lisboa nos oferece para namorar.
Pelo sonho da Mouraria deixo aqui um beijo à cidade mais bonita do universo.

domingo, 24 de agosto de 2014

“Arranjem-nos a água…”

Deixo o mar e cruzo o Alentejo com o sol a pique pela hora do meio-dia.
A imperial solidão dos montes, a espera dos sobreiros, o tom de ouro do feno que preserva em si a eterna genética rubra das papoilas, o olhar perdido pelo horizonte que parece não ter fim, enquanto a alma relembra a sede das árvores de Florbela, e o corpo, mais do que tudo, pede uma gota de água fresca “colhida” algures numa fonte, daquelas do campo que são guardiãs de histórias de amor.
Naquela casa que se avista quase a chegar à aldeia da Messejana, ali muito próximo de Aljustrel, pararia eu agora se pudesse para a frescura de um Gaspacho em festa de orégãos, daqueles que o Tio Filipe preparava sempre que vinha do campo e que nós repetíamos voltando a atestar a malga por duas e três vezes.
Só nós Alentejanos e por entre este calor, reconhecemos que esta sopa é uma necessidade e um prazer supremo nestes dias quentes de verão.
Mas hoje sigo e fico-me pela vontade.
Mais à frente e por entre os olivais, consigo vislumbrar a Igreja de Nossa Senhora da Assunção, ou Nossa Senhora de Entre as Vinhas, um templo barroco e imponente que as gentes regressadas do Brasil importaram para aqui matando saudades da “colónia” que lhes ofereceu prosperidade.
No meio do campo e de quase nada se podem fazer jóias assim.
Assalta-me depois à memória a história da Praia da Messejana, esta aldeia aqui bem no interior da planície.
Por alturas da primeira república, algures pelo ano de 1920, ganhou protagonismo um homem desta região chamado Brito Camacho. Os seus conterrâneos reconhecendo o seu poder de influência, estabeleceram uma longa lista de solicitações com melhoramentos para a freguesia, que lhe entregaram numa sua visita a casa.
Depois de os escutar atentamente e depois daquele extenso rol de pedidos, Brito Camacho usou do humor à boa maneira Alentejana e perguntou-lhes se não queriam também uma praia. Os interlocutores não se deram por vencidos e responderam:
- Arranje lá a água que a areia arranjamos nós.
Pelo Alentejo nunca necessitámos passar procuração para alguém nos inventar as anedotas.
Hoje e nesta tarde de sol intenso, eu prossigo o meu caminho e não tardo a chegar ao rio que é quase sempre o nosso destino, e que nos oferece esse doce privilégio de Lisboa: o Tejo.
Reencontro o mar na vista da minha janela e deixo-me ir pelo que resta de tarde, com os sabores do Alentejo a fervilharem num Sericá que partilharei à noite com um grupo de amigos por entre palavras e afectos num jantar que será a coroa num longo dia de viagem com os pensamentos e as lembranças.
Passa pouco da uma da manhã quando regresso a casa e se cruza à minha frente o voo de uma coruja.
Diz-se pela minha terra que estas aves, habitantes das torres das igrejas e de lugares inóspitos das cidades e dos campos, carregam em si o mau agoiro e um sinistro prenúncio de desgraça; mas um homem que vai aqui feliz e com o coração já confortado pelas palavras de um beijo de amor, pode lá pensar em maus agoiros…
Sigo e aposto que adormeço a sorrir por entre o cansaço.
Os dias felizes são como as praias, e nem sequer precisamos que nos arranjem a água, somos nós que preparamos tudo: água, areia, sol…
Às vezes com muito pouco mas com muita força.
Da mesma forma que de um dia com uma viajem terrível numa auto-estrada com milhares de carros e gente, se consegue às vezes escrever uma história como esta.
Um bom domingo para todos.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A Coreia do Norte e a sacristia

Quando me sento perante o desafio de uma página em branco tento sempre ser fiel na transposição daquilo que sinto para as palavras que escrevo; e o resultado, uns parágrafos de mim, ficam soltos e à mercê das opiniões e do sentir de quem lê.
Faço isto numa crónica, num poema e até no âmbito da ficção, num romance ou num conto, espaço onde as personagens carregam sempre algo de nós, nem que seja às vezes apenas um breve e discreto “julgamento” implícito.
Gosto tanto da expressão de desacordo quanto da concordância total de alguém que me leia, porque acredito que deste confronto de ideias se constrói a verdadeira riqueza da humanidade.
E a liberdade para podermos ser nós nestes diálogos é um bem de primeira necessidade, como pão.
Foi noticiado recentemente que a prelatura da Opus Dei mantém um Index de livros proibidos nos quais se incluem 79 obras de autores Portugueses, com Eça e Saramago à cabeça; sendo que para mim o primeiro é o maior escritor Português de todos os tempos, e Saramago, juntamente com Cardoso Pires, os meus favoritos de entre os contemporâneos.
Acho esta situação vergonhosa no sentido em que sendo eu crente e Católico, vejo criar na Igreja um enclave que junta o pior do mundo; um corredor ao estilo da Coreia do Norte dominado pelos “Kim Jon-un’s de Sacristia”, espaço obscuro dominado pelo radicalismo que cobre com “Burkas” muito opacas o intelecto dos crentes seus “irmãos”.
Quem proíbe desvaloriza sempre a inteligência dos demais, não lhes reconhecendo a capacidade de fazerem o seu próprio julgamento sobre aquilo que se lhes depara, quer seja em livro, numa peça de teatro, na pintura ou em qualquer outra expressão artística.
E o desvalorizar da inteligência dos “irmãos” é “cuspir” sobre o próprio Deus que os criou à Sua imagem.
Por outro lado, quem proíbe passa a si próprio um certificado de mediocridade, na medida em que se assume com capacidade para ser um chefe que comanda um “rebanho” de gente que pensa toda da mesma forma, mas proclama a sua incapacidade para ser “líder” de um grupo de pessoas que pensam e discutem ideias com base naquilo que verdadeiramente pensam e ambicionam.
E não evoquem o Espírito Santo para reclamar maior clarividência e legitimar estas atitudes imbecis.
A História não se apaga, e proibir “O Memorial do Convento” privando as pessoas do “facto” de Baltasar e Blimunda se terem conhecido no Rossio durante um Auto-de-Fé, não limpa infelizmente a nódoa de que um dia, e em nome da mesma fé, as pessoas foram queimadas vivas por ordem da Inquisição.
Em nome do obscurantismo e da uniformidade do pensamento que vê os Homens de fé como inactivos e acéfalos seres dentro de redomas de vidro, em vez de nos verem como somos, gente do mundo que pensa e vive a fé e que a confessa muito mais por obras e convicções do que pelas ladainhas aprendidas de cor no contexto da redoma.
Ao longo da minha existência aprendi tanto com gente crente como com ateus, porque gente igual na riqueza de valores e no afecto que me dedicaram. Ter fugido daqueles que à partida pensavam e agiam de forma diferente de mim, seria desde logo amputar muito daquilo que hoje sou.
Quantas vezes o contraditório foi raiz para as minhas maiores convicções.
Quem nos ama e é grande ensina-nos sempre a pensar, quem é medíocre e não nos tem em grande conta impõe-nos regras na hora de agir.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A remexer na areia

Deitado na praia olhando para cima e beneficiando da visão de 180 graus de céu, vou mexendo e remexendo a areia ao ritmo dos pensamentos.
O meu sobrinho João, de férias em Vila Viçosa, fez-me chegar um fax com os personagens que ele quer ver na próxima história que eu escrever para ele e para o Luís. O primo Afonso tem de constar num enredo que terá de falar de monstros.
E enquanto remexo a areia vou pensando como irei eu colar os meus agora três super heróis a uma história de monstros com nomes que ele já inventou, e que... valha-me Deus.
Quando tratamos o amor por tu, por vezes tomamos o benefício de ser confidentes dos amigos que sofrem ou cantam amores.
Tenho uma amiga tão apaixonada, que por estes dias de férias e estando afastada da sua paixão, sonhou duas noites seguidas que a mesma nunca iria chegar ao que deseja: partilhar todas as luas com o seu amor.
Mandou mensagem e aqui vou eu alimentando de fé, a morte deste "monstro" chamado medo que lhe vai poluindo o sonho.
Aqui estou remexer na areia tentando pôr monstros numa história enquanto os sacudo de uma outra história bem mais real.
Libertando a areia das minhas carícias, de vez em quando levanto a mão e olho-a atentamente reparando que está diferente; os anos salpicaram-na de pêlos brancos.
Mas mesmo assim diferente, não hesito em colocá-la em frente ao sol fazendo sombra e pensando como antes: tenho uma mão capaz de agarrar toda a imensidão do sol.
Depois sorrio não conseguindo deixar de pensar que, para além do sol, nesta mão também cabe o universo inteiro quando toco na tua mão e dou sentido à espera tecida pelos anos que semearam os pêlos brancos.
E regresso à areia, palpando-a e encontrando pequenas conchas.
Afinal isto dos monstros é uma coisa fácil de lidar...
Primeiro porque somos sempre nós a colocá-los nas nossas histórias, e segundo porque quem consegue agarrar o sol e tomar o universo na sua mão no momento em que as peles se enleiam para falar de amor, também domina qualquer monstro.
Sei-o há muito.
Troco mensagens com a minha amiga até conseguir palpar-lhe o sorriso.
A história do João fica mais ou menos alinhavada...
E assim se faz a tarde de quem estando só nunca sente a solidão.
E do mexe e remexe da mão na areia trouxe uma concha, a mais pequena e a mais perfeita.
Guardei-a para ti como presente, afinal foste tu que me mataste os monstros, que prolongaste a magia da infância até aqui onde as mãos estão mais velhas, ofereces-me o universo com as tuas mãos e apareceste assim como esta concha, inesperado e perfeito enquanto eu mexia e remexia as horas de todos os meus dias.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

“Lindas, cheirosas e fantásticas”

Se são inteiramente gratuitos, a chuva e o nevoeiro em Agosto no alto do Monte de Santa Luzia, em Viana do Castelo; o acesso ao sol e ao mar supostamente quente do sul tem um elevadíssimo preço pago directamente por transferência bancária a partir da nossa conta corrente de tolerância e paciência.
E a factura, sem direito a desconto no IRS, e ao jeito de portagem, começa logo a pagar-se nas Áreas de Serviço da A2, antecâmara do pior que nos espera por aqui.
Escolhi um hotel numa zona não muito mediática e em que o acesso à praia até pressupõe uma viagem de barco, pensando desta forma evitar os malefícios do turismo de massas, mas foi em vão.
As “pseudo-tias” genéricas de imitação barata que gritam nas filas dos centros comerciais aos fins-de-semana nos dias livres em que não têm de ir à repartição vieram todas para aqui comigo.
Vestiram-se de rendas brancas e pretas por onde se espreitam os fatos de banho da La Redoute a tentar em vão esconder a celulite que não morreu com os drenantes que beberam durante a primavera, enfeitaram as cabeças das filhas com fitas de seda fazendo-as parecer embrulhos de presente da “Teresa Alecrim”, entregaram os i-pads aos Afonsos, aos Bernardos e aos Santiagos, vestiram os maridos de Lacoste mas com os crocodilos afogados nas asneiras que constantemente lhes saem da boca por entre a imagem de tio beto marinheiro entregue ao inevitável destino de ti Manel dos matraquilhos... e vieram todas atrás de mim.
Todos juntos, gritam no restaurante como se quisessem ser ouvidos em Casablanca, entornam a comida por todos os sítios, empurram-se uns aos outros, dizem asneiras, coçam a genitália na fila dos grelhados; mas sempre tudo a bem da descontracção das férias para partilharem de aqui a dias na repartição.
Por entre as rendas e as cores impossíveis dos cabelos pintados no cabeleireiro SanJam do Shoping mais perto de casa, elas "mascaram-se" de tudo, e comparado com isto, o Carnaval de Torres Vedras é uma produção de ópera do São Carlos.
Ontem ao jantar tive à minha frente uma criatura tão prateada que o vestido dela a esvoaçar entre as mesas pejadas de gente era uma versão em tecido daquelas frases estúpidas que as pessoas põem no Facebook só para chamarem à atenção: “engoli uma mosca”, “estou grávida” ou “acabei de fazer amor com um jacaré”.
Não fosse eu um proprietário de lentes anti-reflexo, e ainda tinha engolido o garfo.
Nas praias competem em cor com as sombrinhas, em cheiro com a Moqueca de camarão, e em ruído com a sirene do Cabo de São Vicente.
Até as gaivotas se têm mantido à distância.
A mesma distância que eu gostaria de ter tido de um grupo no toldo ao lado que entre Francês e Português se divertiram toda a tarde a rebolar na areia, aos gritos, quase me impedindo de escutar a “oração de sapiência” da criatura que no toldo do outro lado, explicava os benefícios do seu creme Ambre Solaire que era simultaneamente protector e bronzeador.
Estando por aqui sozinho, calmo e calado, tento passar despercebido nas refeições e também no areal onde recostado à sombra me entrego à leitura de Ovídio e de "A arte de amar"; mas sem sucesso.
Ontem o filho de uma "tia" aproximou-se a perguntar se eu queria comprar pulseiras de elásticos.
Rosnei-lhe um não muito feroz e hoje estou a pensar levar um letreiro para pôr no toldo ao jeito de "Cuidado com o cão".
À noite, sentado numa esplanada a beber uma Água Tónica, fui agredido no pescoço por um dos “embrulhos da Teresa Alecrim” que usava a base da cobertura como ensaio para a dança de varão que um dia possivelmente ainda irá praticar profissionalmente.
A mãe nem desviou os olhos do i-phone e o pai é que ainda disse a medo:
- Princesa não incomode o senhor.
Princesa…
Enfim, corro o risco de ser o Alien de serviço mas pouco me importo com esse estatuto enquanto tiver uma nesga de mar só para mim, um quarto com jardim e com flores que perfumam a noite, e essa infalível terapia da Bola de Berlim, ainda que devidamente compensada por um reforço da dose de Metformina.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

As flores cúmplices do luar

No jardim em frente ao meu quarto há um canteiro enorme com flores cúmplices do luar que só libertam o seu cheiro depois do sol se esconder para lá do horizonte.
Um perfume intenso e inesperado que me abraça na noite enquanto caminho escutando o canto de cigarras, sentindo ao longe a perseverança do afecto das ondas enrolando-se na praia.
Quem disse que não há encantos guardados nos momentos em que o sol não brilha?
O segredo será talvez o "acender" de todos os sentidos e não amputarmos a hora do benefício de qualquer um deles.
O sol voltará sempre, já o sabemos, tenha a noite a aparência de longa ou curta, tenha ou não o luar a companhia de doces aromas de flores... mas a espera da madrugada nunca é um tempo morto e é em si mesma um tempo de "prazeres" únicos a não rejeitar.
A vida não é intermitente e nunca é ou será cativa do brilho do sol que nos faz os dias.
A madrugada devolveu-me o azul do mar de que eu desfruto enquanto caminho só pela areia sentindo aqui e ali o beijo fresco de uma onda mais ousada e distendida.
Este azul tem a cor do sorrir de alguém.
Gosto do cheiro da maresia, deste odor salgado de algas e de tudo o grande que o mar guarda em si.
Mas o perfume das flores guardo-o apenas da noite.
E o teu sorriso?
Também está guardado nas noites, em mim e nos meus sonhos, muito mais do que aqui ao sol no azul do mar.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Uma carta de amor

Meu amor,
Nem as estradas de sempre conseguem ser velhas quando como hoje me oferecem um caminho novo: vou ter contigo.
E a rota banal de tantos dias, traçada entre sobro e olivais, tem nesta tarde, e por ti, as virtudes do cumprir de um destino.
Tudo faz sentido.
Se na vida há sempre um primeiro amor, eu hoje sei que tu és o meu último e definitivo amor.
Cheguei.
Tudo o de antes ganhou estatuto de irrelevante e o depois deste amor não existe. Por ser tão grande e tão justo para com os meus maiores sonhos, este amor é a própria eternidade.
Todos os meus passos, toda a minha história, foram para chegar aqui a este abraço.
E se eu pudesse, mil anos viveria contigo.
Enquanto espero que chegues e me sento à sombra de uma árvore num banco no Camões, olho em volta para as casas e a luz do Chiado, palpo no peito esta certeza de que tu vens, e consigo sentir uma estranha saudade deste momento que é em tudo perfeito.
É a este momento que eu quero voltar sempre tal como Sophia o faz nas tardes junto ao mar.
E depois tu chegas, dás-me um abraço, caminhamos lado a lado em direcção ao rio, e o Tejo faz-se um lago em 180 graus de azul.
Enquanto toda a gente brinca com as margens, enquanto os cacilheiros cumprem a sua sina e ligam norte e sul, nós vamos tecendo a tarde de palavras, de beijos secretos soltos pelos nossos olhares enamorados.
E as minhas mãos que há milénios esperavam pelo toque assim perfeito das tuas…
Ao chegar o instante mágico do pôr-do-sol sabemos que já dissemos infinitas vezes a palavra amor, mas muito poucas vezes para a paz que sentimos neste entrelaçar das nossas duas almas que se desejam e que por isso se fazem uma só.
Meu amor…
Nunca as estradas serão velhas quando percorridas para chegar a ti; e as cartas de amor jamais serão banais, sendo eternas bebendo das palavras deste sentir que não tem fim.
Toda a noite sonhei contigo, toda a noite senti o teu cheiro, o calor do teu abraço, a vida toda que se solta dos teus beijos...
Sim, sou teu.
Serei sempre.
Sinto-o mais do que nunca nesta madrugada que é prefácio de uma vida inteira que espera as minhas palavras e os teus traços.
E por isso te escrevo e te mando um beijo.
Teu eternamente,
FC   

domingo, 17 de agosto de 2014

“Não chores…”

"Não chores pelo teu sofrimento, luta pela tua felicidade"
Dos idos de 1954, a minha mãe recorda-se de os meus avós lutarem pelo aumento de um escudo no valor pago para ceifar o trigo de sol a sol, valor que era há muitos anos de dezasseis escudos para as mulheres e de vinte para os homens.
Recorda-se de o meu avô recomendar prudência à minha avó, sempre mais rebelde e de verbo fácil, porque no Baixo Alentejo já tinham assassinado uma mulher que lutava pelo mesmo objectivo. Tinha sido um soldado da GNR com um disparo da sua arma.  
"Não chores pelos que te abandonaram e luta pelos que estão contigo"
Era solidão o que sentia pelos montes fora nas manhãs de inverno em que de joelhos nas margens dos ribeiros de água límpida mas gelada, o pão se ganhava lavando a roupa das clientes endinheiradas da terra.
As minhas avós falavam da solidão e do abandono pela sorte. Com elas vivia apenas a fé que desfiavam em perpétuas Ave-Marias rezadas à medida que os dedos cobriam a roupa do aroma do sabão azul e branco.
"Não chores pelo que perdeste, luta pelo que tens"
A liberdade chegou numa manhã de Abril de 1974, e um ano depois eu acompanhei os meus avós na primeira vez que foram votar. Estivemos horas numa fila nas instalações do Ciclo Preparatório.
Pelo sofrimento e pelo silêncio foram muitos os anos perdidos, mas agora o que interessava era o valor muito elevado do que se tinha: uma inédita liberdade.
As três frases magníficas que aqui cito neste texto são da autoria do Papa Francisco e foram recentemente utilizadas por Ricardo Salgado numa entrevista ao Diário Económico.
Os bancos mudam e passam a chamar-se “Novos”, e “Cristão Novos” também é designação que a História registou em compulsivas conversões em séculos passados, mas “Velhos Ricos” com estes “Novos” argumentos é coisa que definitivamente não se tolera à luz da memória, do bom senso e sobretudo do pudor.
As palavras do Papa que fazem todo o sentido para muita gente, para a grande maioria das pessoas minhas concidadãs e para a herança que recebemos dos nossos avós (e os meus de quem aqui falo são os meus verdadeiros heróis), dificilmente farão sentido para o “Último Banqueiro”, que por seu “mérito” e para desgraça dos contribuintes “malandros” que mais uma vez irão suportar o “experimentalismo financeiro com elevados lucros para os próprios”, se condenou a ele mesmo a esse estatuto de “Último”.
O Papa falou mais para nós do que para Ricardo Salgado, porque o sofrimento, a solidão e as perdas doem muito mais sem pão e em casas simples de pedra, do que nos salões do Palace do Estoril à volta de um lauto banquete.
A “pobreza” dos banqueiros é a “riqueza” que nós nunca conseguiremos alcançar. 

sábado, 16 de agosto de 2014

O príncipe que não sabia o que era a poesia

No seu castelo com janelas grandes rasgadas para a serra, parapeitos adornados de tulipas que nos dias de vento deixavam entrar o aroma fresco da maresia, porque o Atlântico não ficava longe; vivia um príncipe de olhar sereno e sorriso feliz.
O jardim era o seu mundo, e o seu confidente nas brincadeiras, nos sonhos e nas angústias, era um enorme pé de abacate que lhe dava abrigo, sombra e lhe retribuía em frutos verdes e gigantes, o afecto feito de tantos cuidados e carícias.
Às vezes nas tardes mais quentes, sentado junto à janela do primeiro andar, ou mesmo junto ao seu pé de abacate, o príncipe lia os livros guardados na biblioteca do castelo, apreciava a prosa que o fazia sonhar, mas ficava sempre triste quando tentava entender os poetas.
As palavras destes pareciam-lhe vagas e o príncipe ficava sempre triste por não poder e não saber entender a poesia.
Este sentir manteve-se sempre igual, até que numa tarde quente e risonha de primavera, estando ele entregue aos seus pensamentos à sombra do seu pé de abacate, o Deus que sempre cuida do coração dos Homens, lhe apareceu num pensamento e lhe deu as coordenadas de um caminho.
E disse-lhe:
- Vai e aprenderás o que é a poesia.
O príncipe que sempre vivera ali fechado no seu castelo, não hesitou, de pronto preparou a mochila com algumas poucas coisas de que necessitava, e fez-se à estrada seguindo as indicações deste Deus que não tem nome mas que todos conhecemos.
Subiu estrada fora, península arriba e foi dar a uma terra verde da cor dos seus abacates, uma terra onde corriam incansáveis rios e ribeiras, uma terra onde os Homens cantavam com fé ao som de gaitas e brindavam com o “vinho” que sabiam colher das macieiras.
Aí, o príncipe apaixonou-se na hora em que alguém chegou e lhe entrou de rompante por todos os sonhos.
E sem saber como, e sem que o Deus dos apaixonados lhe tivesse voltado a aparecer em pensamento, o príncipe regressou ao seu castelo, ao seu pé de abacate, às janelas para a serra que traziam o cheiro a maresia… e começou a ler e a entender finalmente todas as palavras dos poetas, até aquelas que pareciam indecifráveis.
Cumprira-se a profecia do Deus do amor em conversa tida numa tarde de primavera.
Afinal, a poesia é a linguagem das almas apaixonadas, e o príncipe enamorado e com o coração lá longe entre os bosques onde habitam deuses e sonhos, aprendeu por tudo e também pela saudade, os segredos desta “fala” que expressa os sentimentos, mesmo os mais profundos.
E o príncipe viveu feliz para sempre no seu castelo, com as suas plantas, o mar, os seus sonhos e claro, a poesia.
Álvaro José, muitos parabéns pelo teu aniversário.
Desculpa a brincadeira mas terias de figurar na galeria de textos dos meus amigos.
E nesta coisa dos poetas, eu nunca consegui perceber como é que tu não os entendias, tu que pela tua generosidade e amizade, és afinal uma pessoa ao jeito de um “verso” do melhor que tem a poesia.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

A poesia que se solta de um pôr-do-sol (Férias – Dia 14)

Primeiro começamos a conseguir olhar o sol de frente, e daí a pouco ele desaparece mergulhando naquele exacto sítio lá ao longe onde o mar parece tocar o céu.
Sabemos que o pôr-do-sol é uma ilusão que a esfericidade da Terra nos oferece, e também estamos conscientes da relatividade de um momento que sendo para nós o anoitecer, para muitos será o inicio de uma nova manhã; mas deixamo-nos ir pela magia desta hora, que as ilusões são especiarias que nos dão sabor e gosto aos dias, e esmaga a poesia quem se faz escravo cego da razão.
Da mesa do nosso último jantar de férias vemos o pôr-do-sol no mar de São Pedro de Moel, beneficiando da generosidade de quem nos pôs a mesa, quadrada, e deixou devidamente livre o lugar que condenaria algum de nós a não o ver.
Vamos apreciando os tons do sol, do céu e do mar, falo da "hora dos mágicos cansaços" e dos abraços, de Florbela, e deixamo-nos levar pelas inevitáveis palavras.
Levamos duas semanas a conversar, e de Florbela passamos pelo amor, pelos namoros de há cinquenta anos (eu sou da mesma idade do amor dos meus pais), os bailes nas sociedades recreativas, a vergonha do primeiro beijo só após um ano de namoro...
E eu ouso pegar no i-phone e ler um dos meus poemas de amor.
Ali os três sentados, eu e os meus pais, sabemos que o amor assim tão perfeito não é compatível com disfarces, é a festa das almas abertas, é a arte dos recomeços; e tudo, mesmo até o pôr-do-sol, pode ser o inicio de um dia novo e bem melhor.
Por isso terminaram as férias mas seguem as palavras e este infindável amor que tem expressão em todos os momentos.
Já temos planos para o ano que vem e para estas duas semanas que sempre reservamos no calendário.
Nunca nos deixaremos morrer e nós sabemos que ter planos e ambições é tão fundamental quanto o respirar para quem se quer manter vivo.
Sabem que nestas férias e em todas as refeições brindei com o meu pai fazendo tilintar os copos dos tintos que se foram cruzando connosco, e ensinei-o que para dar sorte temos de nos olhar de frente no momento do brinde. Ele agora escancara-me sempre os olhos.
Assim e para terminar, brindo com todos vós na alegria de ter sentido os vossos olhares sobre estas partilhas:
- À vossa!
E viva a vida recheada de amor e poesia.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O mar é sempre azul (Férias – Dia 13)

Primeiro as badaladas das oito horas no relógio da capela da Casa da Ínsua, o fresco da manhã servido pelas janelas que miram ao pátio e à sombra dos plátanos centenários, e mais tarde um café acompanhado pela ousadia de uma fatia de Pão-de-Ló temperada por uma excelente compota de tomate que tem um inesquecível aroma de canela.
O dia hoje vai levar-nos até São Pedro de Moel, e o GPS alia-se a nós “empurrando-nos” para o cumprimento do destino maior do ser Português: o mar.
Em Portugal, por mais longe que estejamos do mar, estaremos sempre perto; e no contexto do universo, duzentos quilómetros são a largura perfeita para uma imensa praia.
E mesmo quando cruzamos as serras mais altas, templos e altares de imponente granito; quando nos entregamos aos caminhos bordejados de vinho ou pão; ou então quando nos sentamos na margem de um rio ou na soleira de uma porta de uma aldeia lá longe junto à fronteira; o mar sempre se pressente.
Carregamos no olhar uma genética de marinheiro; no choro, o triste tom da saudade que agita lenços e os faz voar como pombas no cais das partidas; e na alma, muito mais do que nas mãos ásperas e calejadas pelo tempo e pelas cordas que nos ligam ao sonho, temos o mundo inteiro que fazemos nosso em cada dia temperado de um incansável querer.
Por isso seguimos sentindo como inevitável esta estrada que passa o Dão e se alinha com o Mondego, tomando-lhe a rota até ao mar.
Figueira, Pedrogão, Vieira, São Pedro de Moel...
Chegámos.
Da janela hoje vê-se o mar, e os grilos, o toque breve dos sinos e a persistência da fonte que corre no pátio da Ínsua, hoje foram substituídos pelo som do vaivém das ondas que pinta a praia de um branco intenso de espuma.
E o horizonte vê-se azul lá ao longe num beijo imaginário entre o céu e o próprio mar.
Pelo caminho a mãe hoje tomou as rédeas da conversa e partilhou connosco as histórias tão cheias de alinhavos e pospontos desde o dia em que com treze anos levou de casa uma cadeira baixinha e se sentou ao redor de uma mestra que dispensava a fita métrica porque dizia ter centímetros no olhar, a mesma mestra que quando lhe pediam para baixar meio centímetro numa bainha, promovia a "emenda de cabide", pendurando a peça sem lhe tocar, mas satisfazendo a cliente...
Pelo caminho, o eco e o ressoar das palavras de amor: "gosto tanto que me ames assim"...
E um dia ganha-se às vezes entre memórias, riso e palavras de amor, quando seguimos estrada fora buscando o mar; nós, os instituídos marinheiros pela força de sonhar, os que nunca tememos fazer-nos ao sonho, de caravela, com uma caneta na mão, ou então com uma simples cadeira baixinha.
À noite, da minha janela, já não o vejo, apenas escuto o vaivém do mar. Mas depois de um dia com palavras de amor, quem é que se rende à escuridão?
"Gosto tanto que me ames assim..."
Mesmo de noite, ao luar, o mar e a vida seguem sendo azuis.
E eu... sou um eterno um marinheiro, muito mais pelo sim ao sonho nesta aventura preciosa de te amar, do que pela inevitável lusa genética que obviamente carrego no olhar.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O amor é uma obsessão exclusiva dos poetas e dos loucos (Férias – Dia 12)

Adormeço embalado pela persistência da água que corre na fonte do pátio da quinta, e noite fora, quando acordo e me dou conta das badaladas suaves do relógio da capela, o ruído da água a correr lá está, sereno, rompendo o silêncio das noites no campo.
E não há melhor despertar do que aquele que nasce de uma noite assim.
Mas a manhã leva-nos à cidade, a Viseu, sem que saibamos que à Terça a manhã é de feira; e em Agosto, há uma imensidão de carros e gente a entupir rotundas e vielas, com as matrículas e a fala da gente, a indicar-nos que chegámos à "festa" onde se matam as saudades acumuladas por uma dolorosa eternidade vivida longe de casa.
E chamo-lhe festa porque é isso que leio no olhar da gente.
Compras, passeio, café, almoço... e a tarde traz-nos de volta à irresistível quinta para um longo e demorado passeio entre frutos e flores.
E entre palavras e memórias.
Numa varanda junto à casa grande há uma fonte de granito que mantém de fonte apenas a traça e a bica, mas que ao contrário daquela que me embalou noite fora, está vazia de água.
Nada corre.
Reparo então que no tanque desta fonte alguém pôs terra transformando-o num canteiro; e agora nascem flores.
Mas eu que paro por ali e me encosto, faço-o ao jeito de quem "abraça" uma fonte.
A essência está lá e mantém-se viva por cima da ausência de água.
Eu sei que não sou poeta e que nunca o serei, apesar desta persistência algo tonta de oferecer palavras aos sentires; mas mesmo assim, onde mais me vejo próximo dos verdadeiros poetas é nesta condição de conseguir ver as fontes como quem persiste a ver amores por entre o vazio e o silêncio.
Talvez porque o amor seja um exclusivo e privilégio sentir dos loucos e dos poetas, não existindo em mais nada, nem em mais ninguém.
Talvez.
Mas se assim for, que eu morra como vivo, na coerência irracional desta loucura.
E na tarde da Ínsua, ali sentado junto ao canteiro que eu insisto em chamar fonte, e ao jeito de quem namora:
Na eternidade de um imenso querer
As fontes são fiéis irmãs de amores
Até na sede, saudade por não te ver
Há raízes, terra… e nascem flores
Poeta?
Acho que apenas um louco que dorme embalado pelo benefício da água das fontes do campo.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Metamorfoses (Férias – Dia 11)

Imediatamente a seguir à noite da lua gigante que nos pôs a todos a olhar para o céu, a manhã trouxe o sol, e com ele uma nova face para a cidade que ainda ontem era um pranto de chuva.
Não somos de desistir e voltámos a subir a Santa Luzia, mas desta vez para apreciar devidamente o Lima e o Atlântico, os dois em perfeita sintonia com um céu intenso de azul.
Daí a pouco cruzámos o próprio rio Lima, e mais tarde o Douro sobre a Arrábida, olhando a foz à nossa direita.
Já não passámos o Vouga…
Saímos da A1 em Santa Maria da Feira e daí seguimos para Vale de Cambra, Arouca, e encetámos a subida à Serra da Freita.
Um pouco mais de mil metros de altitude, a subida por entre a vegetação que vai dando lugar ao granito, rei e senhor no topo da Serra devidamente adornado por uma vegetação rasteira em tons de amarelo; o encanto da paisagem, e a sensação de que há um paraíso por descobrir ali mesmo ao lado da rota de tantos dias.
Surpreende-me totalmente o caminho que se nos oferece em exclusivo, a estrada onde apenas o homem que guarda uma manada de pachorrentas vacas, nos acena algures quase a chegar a Manhouce, terra do canto com pronúncia do norte.
Depois… São Pedro do Sul, Viseu e a Casa da Ínsua, em Penalva do Castelo.
É cedo e decido ir dar um passeio pelo jardim.
O sol incide lateralmente sobre a fachada que mira a sul, e eu sigo o trajecto das linhas desenhadas pelas camélias.
O chão seco de Agosto, as flores e as lembranças…
Os fins de tarde do campo são o paraíso para quem estando só se alimenta das mais doces memórias, aquelas que são capazes de matar as “solidões”.
E soltam-se as palavras à beira de um lago onde os cisnes coabitam com uns muito rurais e simpáticos patos que me fazem companhia.
Os dias são como a vida, são tecidos por nós no tear das mudanças e das opções que tomamos, e a esperança, muito mais do que o medo ou a incerteza, é o diesel de um motor que nos faz crescer e nos transporta para o tempo e para o espaço onde queremos estar, onde somos felizes.
Sabemos que há dias em que a neblina não nos deixa ver nada e outros em que o sol nos liberta o horizonte; há dias que parecem noites e noites que parecem dias porque beneficiam de luas gigantes; há dias em que tudo parece previsível mas que nos surpreendem quando seguimos por um novo caminho que está afinal tão próximo de onde circulamos mas que até aí se manteve inédito.
E descobrimos novas montanhas e renovamos os horizontes.
À noite voltámos a uma varanda para um serão de conversa. Desta vez não ouvi grilos, apenas escutei as rãs.
E acabava de escrever sobre metamorfoses quando leio que partiu o actor Robin Williams. Fez-me chorar em “O clube dos poetas mortos”, fez-me rir na “Gaiola das loucas”, fez-me sonhar com o seu Peter Pan…
A vida é como o cinema e pede-nos definitivamente que encaremos o dia com um sorriso esboçado pelos lábios, pelo querer ou então pelas palavras de um eterno:
- “Good morning Vietnam” 

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Travestis, shopping e bebidas quentes (Férias – Dia 10)

Chove copiosamente quando saímos do hotel em direcção ao Monte de Santa Luzia, e à medida que subimos, o nevoeiro adensa-se de tal forma que começamos a acreditar ser possível ver por ali o D. Sebastião, ou então, e embalados pela sétima arte e entre uma enorme profusão de almas penadas, a Nicole Kidman a protagonizar o fantástico filme “Os outros”.
Mas não, espera-nos a missa das onze com o baptizado de um rapaz com nome impronunciável, e que será qualquer coisa entre “Gerson” ou “Jéssio” (todo o dia discuti o nome com a minha mãe e não conseguimos chegar a um consenso), o que para o caso pouco importa, mas que motivou inclusive uma confusão de género por parte do padre celebrante que começou a cerimónia a assumir que de uma rapariga se tratava.
O padre que também não resistiu a confessar que durante o seu sacerdócio já tinha baptizado gente com nomes mais agradáveis.
E se não vimos por ali o D. Sebastião perdido nos nevoeiros, com a ajuda de todos os convidados do pequeno G ou J qualquer coisa, vimos o que é estar no palco de uma noite de gala de “A casa dos segredos”, ou então num qualquer show de travestis em alguma casa da especialidade.
E perdoem-me desde logo estas apreciações da minha parte que são muito pouco católicas.
Mas tenho que confessar que por via do famoso programa da TVI, se a Teresa Guilherme tivesse aparecido, eu não me espantaria; embora a Teresa Guilherme esteja para uma missa como o leitão da Bairrada está para um banquete de judeus.
Saltos prateados de quinze centímetros, vestidos de folhos e esvoaçantes, cabelos coloridos armados ou esticados, unhas de cores impróprias, silicones que dispensam soutiens…
Ao meu lado, um destes seres esteve a missa toda de boca aberta a mascar pastilha elástica, oferecendo dessa forma uma sonoridade estranhíssima a todas as orações que ia fazendo:
- “Pgai nhosso que nhestais nho gcéu gnsantifignhado segnham nham o gvonho nhome…”
Só não fez balões mas eu estava a ver que ainda lá ia.
No final da missa, a mesma chuva, o mesmo nevoeiro, a abortada tentativa de ir almoçar a Moledo, e pronto, pela boca morre o peixe, acabámos a almoçar num Centro Comercial daqueles que são iguais em toda a parte mas que pelo menos nos garantia não tomar duche no percurso entre o carro e a mesa da refeição.
Num dia de férias de verão como nos domingos de inverno na pior opção nos arredores de Lisboa.
Dirão que cada um tem o que merece, e eu pelo menos ainda consegui que pelas seis da tarde existisse para mim um lugar ao sol na esplanada, para uma bebida fresca, embora a alma estivesse mais para algo quente.
Mas tomar uma meia de leite numa esplanada às dezoito horas de um dia de Agosto depois de um forçado almoço no Shopping, era garantia certa de anti-depressivo em perfusão endovenosa durante algumas horas.
Assim fiquei mais fresco e… molhado, pois quando me levantei dei conta que antes de me sentar, o sol não tinha tido força e tempo suficientes para secar as consequências da tromba de água de antes.
Um passeio e uma refeição leve, mas já fora do Shopping, e, rezando para que Jesus e os seus discípulos não metessem tanta água como as cadeiras da esplanada, lá me sentei a ver a Supertaça de futebol.
No final ganhou o Benfica mas porque eu me lembrei a tempo e expulsei o meu pai do quarto em direcção ao dele.
Cartão vermelho directo.
É que o seu Sportinguismo dá-me azar.
E depois deste dia de férias tão especial…
Com franqueza, Rio Ave?
Deus me livre. Era só o que me faltava.