terça-feira, 5 de agosto de 2014

Da Montanha Mágica ao Rio do Ouro (Férias – Dia 4)

O rio corre e soa tranquilo, alguns poucos metros abaixo dos meus pés, oferecendo assim à noite uma acrescida paz, benefício que comprovo no instante em que chego à janela para espreitar a lua na companhia do meu pai, e acabamos os dois a olhar as estrelas, tentando decifrar todos os luzeiros que o céu guarda.
Estamos no Douro, o Pinhão é já ali e a Quinta de La Rosa oferece-nos abrigo.
No meu quarto tenho livros, muitos livros, e uma parede de granito que a casa grande da quinta herdou da escarpa que se faz à água e que o Homem foi “tecendo” de socalcos, os degraus extraordinariamente férteis por onde “cresce” o vinho.
A imponência da Terra expressa por uma rocha imensa, o rio, as estrelas, o luar e as palavras todas impressas em tantos livros, tudo isso numa perfeita intimidade comigo e com a minha nudez; e é tão fácil conseguir depreender quão óbvio e pequeno é o poder do Homem sobre as maravilhas todas do universo.
Assim, numa simples noite de luar.
Para chegar aqui desde Monfortinho cruzámos a Estrela, no caminho entre a Covilhã e Seia, com uma pausa na Pousada da Serra para um almoço com amigos.
Os mosaicos, a arquitectura dos espaços comuns, e também as muitas fotos que estão espalhadas pela unidade hoteleira inaugurada em Abril passado, transportam-nos para a anterior finalidade do edifício: o sanatório dos ferroviários.
Como no livro de Thomas Mann, a Serra aqui a tentar ser Estrela, e uma Montanha Mágica para as imensas vítimas do terrível bacilo de Koch. O romancista Alemão afirma no seu livro que “todo o interesse na doença e na morte é, em verdade, apenas uma outra expressão do nosso interesse pela vida”.
E a vida, sim, é o centro de tudo quando passamos pela Serra da Estrela à conversa sobre as nossas anteriores visitas, sobre a minha estreia ali com os meus avós em 1974 num passeio de uma semana, e a vida espreita por detrás de tantas histórias e tantas palavras que se vão cruzando com estas tão antigas e que quase sempre nos fazem rir.
E a vida, sim, é extraordinária nos momentos passados à janela de uma quinta que espreita o Douro, falando de estrelas com o meu pai, e admirando a lua em quarto crescente.
E a vida, sim, é perfeita no instante em que numa mensagem me sorris e me falas de amor.
E a vida, sim…
Tudo o mais serão apenas expressões diferentes e às vezes bem enviesadas deste interesse pelo extraordinário que é viver. 

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