quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A remexer na areia

Deitado na praia olhando para cima e beneficiando da visão de 180 graus de céu, vou mexendo e remexendo a areia ao ritmo dos pensamentos.
O meu sobrinho João, de férias em Vila Viçosa, fez-me chegar um fax com os personagens que ele quer ver na próxima história que eu escrever para ele e para o Luís. O primo Afonso tem de constar num enredo que terá de falar de monstros.
E enquanto remexo a areia vou pensando como irei eu colar os meus agora três super heróis a uma história de monstros com nomes que ele já inventou, e que... valha-me Deus.
Quando tratamos o amor por tu, por vezes tomamos o benefício de ser confidentes dos amigos que sofrem ou cantam amores.
Tenho uma amiga tão apaixonada, que por estes dias de férias e estando afastada da sua paixão, sonhou duas noites seguidas que a mesma nunca iria chegar ao que deseja: partilhar todas as luas com o seu amor.
Mandou mensagem e aqui vou eu alimentando de fé, a morte deste "monstro" chamado medo que lhe vai poluindo o sonho.
Aqui estou remexer na areia tentando pôr monstros numa história enquanto os sacudo de uma outra história bem mais real.
Libertando a areia das minhas carícias, de vez em quando levanto a mão e olho-a atentamente reparando que está diferente; os anos salpicaram-na de pêlos brancos.
Mas mesmo assim diferente, não hesito em colocá-la em frente ao sol fazendo sombra e pensando como antes: tenho uma mão capaz de agarrar toda a imensidão do sol.
Depois sorrio não conseguindo deixar de pensar que, para além do sol, nesta mão também cabe o universo inteiro quando toco na tua mão e dou sentido à espera tecida pelos anos que semearam os pêlos brancos.
E regresso à areia, palpando-a e encontrando pequenas conchas.
Afinal isto dos monstros é uma coisa fácil de lidar...
Primeiro porque somos sempre nós a colocá-los nas nossas histórias, e segundo porque quem consegue agarrar o sol e tomar o universo na sua mão no momento em que as peles se enleiam para falar de amor, também domina qualquer monstro.
Sei-o há muito.
Troco mensagens com a minha amiga até conseguir palpar-lhe o sorriso.
A história do João fica mais ou menos alinhavada...
E assim se faz a tarde de quem estando só nunca sente a solidão.
E do mexe e remexe da mão na areia trouxe uma concha, a mais pequena e a mais perfeita.
Guardei-a para ti como presente, afinal foste tu que me mataste os monstros, que prolongaste a magia da infância até aqui onde as mãos estão mais velhas, ofereces-me o universo com as tuas mãos e apareceste assim como esta concha, inesperado e perfeito enquanto eu mexia e remexia as horas de todos os meus dias.

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