sábado, 9 de agosto de 2014

Buscando o mar (Férias – Dia 8)

Há dias que amanhecem nublados para que nos possa sobrar o olhar e nos consigamos ver bem por dentro.
E com o Alvão e o Tâmega escondidos, restaram as dálias vermelhas, e sobretudo, os pensamentos e as lembranças tecidas por tantas palavras e sensações, para que o dia pudesse sorrir com intensidade.
Um Homem feliz é um Homem bem agarrado às suas raízes, um Homem envolvido na coerência entre a herança e o seu presente. Sinto-o ao pequeno-almoço quando tudo e nada é um pretexto para uma conversa e uma gargalhada à mesa com os meus pais.
As conversas de onde nascem as memórias daqueles que nos encheram os dias do passado e já partiram, dos amigos de hoje, dos outros quatro membros da família mais próxima…
A minha mãe esqueceu-se de trazer um dos seus terços e reza todos os dias pela manhã enquanto nós dormimos, desfiando as contas daquele que eu trago comigo no carro. As raízes e o mesmo tronco comum, a linguagem e os gestos de uma mesma fé.
E um Homem feliz é também um Homem que não trava sentimentos e se deixa ir pela verdade, é um Homem que envia e recebe palavras de amor com mais nenhum outro motivo que não seja o próprio amor.
Sinto-o quando leio o que me escreves, e também quando busco as palavras mais justas para a tradução deste inédito sentir.
E um Homem feliz é um Homem que viajando estrada fora, consegue disponibilizar o olhar para a festa que o caminho, com mais ou menos nuvens, sempre lhe oferece.
De Mondim de Basto viajámos para Guimarães, e foi debaixo de uma chuva inusitada e quente de Agosto, que percorremos o centro histórico ao redor da Senhora da Oliveira.
Aqui nasceu Portugal, para renascer depois em 1640 na minha Vila Viçosa, e como Portugal necessita urgentemente de renascer…
Tomámos um café, comprámos um presépio para a colecção e um galo cor de laranja, e seguimos buscando o mar na rota do Cávado, almoçando depois junto ao mar de Esposende.
Um mar cinzento a impor lembranças de olhares azuis, um mar de inverno em pleno Agosto, mas o mar nunca é triste, e mesmo assim revolto nas ondas contra o areal, sempre nos embala e nos leva pela poesia.
Recordo Sophia:
Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.
Chegámos a Viana do Castelo envoltos pela neblina e ao fim de meio dia não conseguimos ainda sequer vislumbrar Santa Luzia.
Sobra-me o olhar para pensar em ti.
Pelo facto de te amar tanto assim, sinto que sou irmão do tempo no mar de Sophia, porque por muito que pareça estranho, estando “preso” a ti, eu encontrei toda a minha liberdade.
E que bom foi ter um dia cheio de nuvens a permitir espreitar tão profundamente para dentro do que sou.

Sem comentários:

Enviar um comentário