domingo, 27 de fevereiro de 2011

Sementes de Esperança

A minha amiga Zinha Duarte cumpriu hoje o 45º aniversário. Dos meus amigos, tal como eu nascidos em 1966, foi a primeira a fazê-lo. Até ao final do ano, todos a acompanharemos.
Na vertigem do tempo, quase não nos demos conta da rapidez com que chegámos a meio da década dos quarenta.
Vivemos sempre com muita intensidade e nunca virando a cara à acção e sempre dispostos a pagar o preço inerente às decisões, mas tal não impede este sentimento de admiração por hoje estarmos aqui quando ainda ontem vivíamos a segunda década das nossas vidas, algures pelos anos setenta e oitenta do século vinte, na pacatez da nossa Vila Viçosa, uma terra então mais fechada ao mundo e sobre si própria, mas que por ser assim nos proporcionava encontros mais profundos connosco próprios e com todos os que nos rodeavam.
Tínhamos sempre tempo e espaço para ir mais a fundo em tudo o que fazíamos, sobrava-nos sempre a disponibilidade para conversar, vivíamos no conforto de nunca estar sós.
Era o tempo em que se saboreava a liberdade e se dizia adeus a muitos tabus, era um tempo novo que nós, então muito novos, decidimos partilhar intensamente uns com os outros, fazendo das cumplicidades da verdadeira amizade, o fermento que nos fez Homens diferentes.
Com toda a sinceridade vos digo que foi um privilégio viver esse tempo com os meus amigos e com humildade vos digo que hoje eu seria uma pessoa diferente, por certo pior, se não tivesse tido a oportunidade de intensamente partilhar com eles a minha vida de então.
O tempo hoje é pouco para estarmos juntos, mas sempre que tal acontece, acontece logicamente festa, e pegamos sempre nas conversas no ponto em que as deixámos na vez anterior, tal como acontecia quando diariamente nos encontrávamos no bar da nossa Escola Secundária, então na versão cavalariças do Paço Ducal.
E tudo isso acontece porque as raízes da amizade são profundas e sãs, jamais a deixando morrer.
Muitos parabéns Zinha, e por favor não faltes nunca aos nossos jantares e cafés porque as tuas gargalhadas são a melhor banda sonora do filme das nossas vidas felizes.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Expresso 2000

Foi hoje publicada a edição 2000 do jornal Expresso, meu habitual e indispensável companheiro nas manhãs de sábado.
Comecei a ler o Expresso por alturas de 1984/1985 quando entrei na Faculdade. Pela popularidade entre os estudantes, os porteiros da Cantina Nova, na Avenida das Forças Armadas, improvisavam todos os sábados ao almoço, uma venda de Expressos, e todos nós acompanhávamos a refeição “fantástica” de fim-de-semana, com as notícias do jornal que nessa mesma altura começou a ser dirigido por José António Saraiva.
E as notícias de primeira página, os destaques, eram mote para a conversa numa das poucas refeições semanais em que não tínhamos pressa e podíamos calmamente conviver com os colegas.
Mesmo quando havia cinema na parte da tarde, o Quarteto era mesmo ali ao lado, a cinco minutos de passo apressado, não estando assim comprometida a tertúlia dos imigrantes, dos que tínhamos a família a centenas de quilómetros e que nos colegas íamos construindo uma família alternativa.
Sempre volumoso e com muitos cadernos, esse Expresso de dez escudos e sem direito a saco de plástico, começou então a acompanhar-me todos os fins de semana e a impor-se como algo de primeira necessidade, de tal forma que hoje é impossível imaginar um sábado sem o ter ao meu lado. Um sábado sem Expresso seria como uma Páscoa sem folar, um Natal sem filhós ou um Benfica sem golos.
Desde sempre me agradou a isenção com que os diferentes temas são abordados.
Não há notícias ou assuntos proibidos e há uma diversidade de colunistas que permite sempre o exercício saudável do contraditório, possibilita que observemos um assunto desde vários ângulos e diferentes perspectivas, estimulando-nos dessa forma a pensar sobre ele e a reflectir sobre a nossa própria opinião.
O Expresso oferece-me credibilidade e seriedade, na política, na economia, na cultura, nos temas sociais e no desporto.
Admiro-o por tudo isso, por não vender a alma ao diabo, leia-se, não ceder à tentação do sensacionalismo que crassa na imprensa em Portugal nos dias que correm.
Ao longo destes anos de ligação surgiram novas propostas, novos jornais semanários, mas nunca nenhum conseguiu destronar o Expresso. Por exemplo, o Independente pela mão de Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas, era ousado e apetitoso na procura do escândalo e na construção das antecâmaras das demissões de ministros, era irresistível pela curiosidade, ou não fosse ele o antídoto do Cavaquismo BPénico, mas nunca conseguiu perturbar a minha fidelidade ao jornal fundado por Francisco Pinto Balsemão.
Hoje, dia 26 de Fevereiro de 2011, adquiri a edição 2000 do Expresso por três euros, com a esperança de que o jornal agora liderado por Ricardo Costa me possa fazer companhia em todos os sábados do futuro, porque o Expresso jornal será sempre a melhor companhia para o expresso café que me faz acordar em cada fim-de-semana.

Feios, porcos e maus… à Portuguesa!

Na Baixa da Banheira, ali para a margem sul do Tejo, há uma vivenda Esmeralda, onde vive uma mulher cujo nome permitiu baptizar a vivenda, casada com um despedido da Lisnave que passa os dias de pijama a ver qual a melhor forma de roubar a Sport TV à parabólica do vizinho, que tem uma sogra viciada em drogas e que as cultiva no quintal, um filho homossexual mas que engravida uma Brasileira, um outro filho alérgico a banhos e também viciado em drogas, e uma filha à beira dos 18 anos, cuja maior ambição profissional é poder despir-se para uma web cam, revelando os seios aos velhos americanos que lhe alimentam a conta bancária com os irresistíveis dólares.
Poderia ser real, mas não é.
É uma peça de teatro chamada “Mais respeito que sou tua mãe”, com um grupo de excelentes actores, entre os quais Joaquim Monchique numa interpretação excepcional da doméstica Esmeralda, a trave mestra desta família disfuncional mas nada irreal nos dias que correm.
A ida à Casa do Artista garante duas horas de gargalhadas intensas porque nas frases, nos gestos, nos tiques, na forma de vestir, permanentemente identificamos o nosso mundo.
E este nosso mundo…só dá mesmo para rir.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

sábado, 19 de fevereiro de 2011

O Discurso do Rei

Com o título original de “The King’s Speech”, trata-se de um filme de Tom Hooper que carrega a marca assinalável de 12 nomeações para os Óscares deste ano, entre as quais a de Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Actor Principal (Colin Firth), Melhor Actor Secundário (Geoffrey Rush) e Melhor Actriz Secundária (Helena Bonham Cárter).
Foi talvez esta perspectiva de vitória na noite de Hollywood do próximo dia 27 de Fevereiro que motivou a minha escolha na última ida ao cinema.
E o filme superou as minhas maiores expectativas.
Trata-se efectivamente e em minha opinião, de um filme excelente, daqueles para ver, rever, um filme dos que permanecem para sempre na nossa memória.
O argumento centra-se na conturbada sucessão do rei Jorge V de Inglaterra, quando às portas da segunda guerra mundial, uma americana divorciada faz Eduardo VIII abdicar do trono em favor do seu irmão, o rei Jorge VI, pai da actual monarca, Isabel II.
Tímido, inseguro e afectado de uma terrível gaguez, a Jorge VI nunca se tinha colocado a perspectiva do poder, o qual assume com humildade num momento extremamente difícil da história do seu país, e com uma enorme crença no princípio de que pode mais quem quer do que quem pode.
Para ultrapassar as limitações colocadas pela gaguez, o rei estabelece uma relação com um terapeuta da fala muito peculiar, uma relação conturbada, que mais do que a técnica lhe oferece o conforto e a confiança que lhe permitem comunicar com os seus súbditos, em directo ou através da rádio.
Os diálogos entre os dois são verdadeiros monumentos da sétima arte e são a parte mais apetitosa deste espreitar para os bastidores de um período da história que não está assim tão distante de nós.
As interpretações do trio de protagonistas nomeados para os Óscares são excelentes com Colin Firth a merecer um destaque muito especial pela positiva. Supera-se e supera tudo o que antes eu o vira fazer no cinema. Óscar mais do que garantido.
Uma última palavra para a banda sonora: excelente!

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Muitos anos de solidão

As notícias desta semana deram um destaque especial ao ocorrido com uma idosa que residia em Rio de Mouro, concelho de Sintra, encontrada morta no chão da cozinha da sua casa, após ter estado nove anos desaparecida.
Não tinha nenhum familiar e por companhia tinha um cão, encontrado morto na varanda da casa.
Só a solidão no seu limite superior possibilita que uma pessoa morra em 2002 e que ninguém dê conta da sua ausência, até 2011.
Esta é a prova de que mesmo vivendo rodeados de milhões de pessoas, vivemos quantas vezes na maior solidão, habitando “andares-gaveta” de prédios gigantes, gavetas onde estamos arrumados e acompanhados apenas por animais de estimação e por nós próprios.
No entanto, e não sei se isto dará algum conforto, há sempre quem nunca se esqueça de nós, e só isso possibilitou a descoberta desta senhora já cadáver há nove anos: as finanças.
Por incumprimento dos deveres fiscais, a casa foi leiloada, e foi o novo proprietário que ao tomar posse da sua nova casa, se deparou com tão macabro achado.
O Cartão de Contribuinte ganhou definitivamente a guerra ao Bilhete de Identidade, para já não falar na goleada sobre o Cartão de Eleitor.
Há alguns anos atrás, acompanhei uma acção de rastreio ao risco cardiovascular em plena Praça do Rossio, em Lisboa. Após divulgação pela TVI tivemos uma afluência tal de público, que tivemos de encerrar a fila cerca de 3 horas antes do final do rastreio.
Colocámo-nos no final da fila e íamos falando com as pessoas que chegavam, na sua maioria idosas, solicitando-lhes que não permanecessem ali porque não iríamos ter qualquer hipótese de lhes avaliar a Pressão Arterial e o Colesterol.
Para nosso grande espanto, ninguém arredava pé e toda a gente se dispôs a ficar ali connosco à conversa, pessoas totalmente desconhecidas, sobre nada e sobre tudo.
Ao fecharmos a tenda à hora prevista, despediram-se simpaticamente de nós, agradecendo a oportunidade de uma tarde diferente na nossa companhia. O não fazer o rastreio era menos importante.
Duas histórias, dois exemplos de solidão, uma certeza de que mais do que a Hipertensão ou o Colesterol elevado, é a solidão e a ausência de amor e afectos, que mais importa, que mais dói e mata, quando falamos do coração.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Sou do Fado

Entrei no mundo do fado por acaso no início dos anos noventa, e logo pela porta maior.
Ao ir trocar um CD à megastore da Valentim de Carvalho, no Rossio, e porque o CD que ia trocar tinha um preço mais elevado, fui forçado a escolher algo mais que equilibrasse a troca. O valor era próximo do de uma cassete áudio, uma peça que nos era muito útil porque em viagem, nos nossos auto-rádios, constituíam as únicas alternativas às estações emissoras.
Talvez por estar na Valentim de Carvalho, eram inúmeras as cassetes de Amália Rodrigues, e a minha escolha acabou por ir para uma delas. Nunca me tinha debruçado muito sobre a obra de Amália, e a curiosidade levou-me a colocá-la como companhia nas minhas viagens mais próximas.
De tantas, é impossível dizer-vos quantas vezes ouvi a cassete de Amália. Fiquei preso à sua voz enorme, às voltas e reviravoltas que essa voz, inspirada e embalada pelo som inigualável da guitarra portuguesa, cantava os sentimentos expressos nas palavras dos poetas, esses eleitos e privilegiados seres que conseguem casar a alma com as palavras.
Compreendi António Variações quando afirmou “todos nós temos Amália na voz e temos na sua voz a voz de todos nós”, e comecei então a procurar e a descobrir pouco a pouco, a obra de Amália.
E assim, por alturas dos meus vinte e cinco anos, se estabelecia a minha ligação ao fado. Não considero que tenha sido tarde, é necessário provar a vida com intensidade, para além de descobrir e amar Lisboa, para ser mais fácil chegar ao fado.
Fui descobrindo outras vozes do fado: Maria da Fé, Maria Armanda, Teresa Tarouca, Paulo Bragança, Camané, Mísia, Cristina Branco, Gonçalo Salgueiro, Mafalda Arnauth, Ana Sofia Varela, Mariza, Kátia Guerreiro…
É impossível nomeá-los todos.
Todos pelas suas vozes me marcaram ao longo destes anos.
Portugal apresentou recentemente a candidatura do fado a património imaterial da humanidade, esperando-se que a partir de Novembro, altura em que será conhecida a decisão da UNESCO, o fado possa ombrear com o tango ou o flamenco, duas expressões artísticas fortíssimas e marcas da identidade Argentina e Andaluza, respectivamente.
Torço para que tal aconteça.
Considero que é justo que a humanidade reconheça como seu património, aquilo que já é e sempre será um património imaterial de Portugal, a banda sonora do ser Português.
Para terminar e porque este também é um espaço onde se cultiva o orgulho Calipolense, sempre deixo o registo de que no musical “Fado - História de um povo” de Filipe La Féria, em cena no Casino do Estoril, há um fado interpretado pelo Gonçalo Salgueiro onde se fala de Vila Viçosa e de D. Carlos I. Mesmo quando a história de Portugal é contada em fado, Vila Viçosa não poderia deixar de estar presente.