domingo, 6 de fevereiro de 2011

Sou do Fado

Entrei no mundo do fado por acaso no início dos anos noventa, e logo pela porta maior.
Ao ir trocar um CD à megastore da Valentim de Carvalho, no Rossio, e porque o CD que ia trocar tinha um preço mais elevado, fui forçado a escolher algo mais que equilibrasse a troca. O valor era próximo do de uma cassete áudio, uma peça que nos era muito útil porque em viagem, nos nossos auto-rádios, constituíam as únicas alternativas às estações emissoras.
Talvez por estar na Valentim de Carvalho, eram inúmeras as cassetes de Amália Rodrigues, e a minha escolha acabou por ir para uma delas. Nunca me tinha debruçado muito sobre a obra de Amália, e a curiosidade levou-me a colocá-la como companhia nas minhas viagens mais próximas.
De tantas, é impossível dizer-vos quantas vezes ouvi a cassete de Amália. Fiquei preso à sua voz enorme, às voltas e reviravoltas que essa voz, inspirada e embalada pelo som inigualável da guitarra portuguesa, cantava os sentimentos expressos nas palavras dos poetas, esses eleitos e privilegiados seres que conseguem casar a alma com as palavras.
Compreendi António Variações quando afirmou “todos nós temos Amália na voz e temos na sua voz a voz de todos nós”, e comecei então a procurar e a descobrir pouco a pouco, a obra de Amália.
E assim, por alturas dos meus vinte e cinco anos, se estabelecia a minha ligação ao fado. Não considero que tenha sido tarde, é necessário provar a vida com intensidade, para além de descobrir e amar Lisboa, para ser mais fácil chegar ao fado.
Fui descobrindo outras vozes do fado: Maria da Fé, Maria Armanda, Teresa Tarouca, Paulo Bragança, Camané, Mísia, Cristina Branco, Gonçalo Salgueiro, Mafalda Arnauth, Ana Sofia Varela, Mariza, Kátia Guerreiro…
É impossível nomeá-los todos.
Todos pelas suas vozes me marcaram ao longo destes anos.
Portugal apresentou recentemente a candidatura do fado a património imaterial da humanidade, esperando-se que a partir de Novembro, altura em que será conhecida a decisão da UNESCO, o fado possa ombrear com o tango ou o flamenco, duas expressões artísticas fortíssimas e marcas da identidade Argentina e Andaluza, respectivamente.
Torço para que tal aconteça.
Considero que é justo que a humanidade reconheça como seu património, aquilo que já é e sempre será um património imaterial de Portugal, a banda sonora do ser Português.
Para terminar e porque este também é um espaço onde se cultiva o orgulho Calipolense, sempre deixo o registo de que no musical “Fado - História de um povo” de Filipe La Féria, em cena no Casino do Estoril, há um fado interpretado pelo Gonçalo Salgueiro onde se fala de Vila Viçosa e de D. Carlos I. Mesmo quando a história de Portugal é contada em fado, Vila Viçosa não poderia deixar de estar presente.

1 comentário:

  1. Que exemplo de Calipolense...
    Quem me dera fazer passar aos meus filhos este tipo de sentimentos.
    Como eles dizem só pode ser do tio Quim Barreiros.
    Beijinhos
    Ana Almas

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