domingo, 13 de fevereiro de 2011

Muitos anos de solidão

As notícias desta semana deram um destaque especial ao ocorrido com uma idosa que residia em Rio de Mouro, concelho de Sintra, encontrada morta no chão da cozinha da sua casa, após ter estado nove anos desaparecida.
Não tinha nenhum familiar e por companhia tinha um cão, encontrado morto na varanda da casa.
Só a solidão no seu limite superior possibilita que uma pessoa morra em 2002 e que ninguém dê conta da sua ausência, até 2011.
Esta é a prova de que mesmo vivendo rodeados de milhões de pessoas, vivemos quantas vezes na maior solidão, habitando “andares-gaveta” de prédios gigantes, gavetas onde estamos arrumados e acompanhados apenas por animais de estimação e por nós próprios.
No entanto, e não sei se isto dará algum conforto, há sempre quem nunca se esqueça de nós, e só isso possibilitou a descoberta desta senhora já cadáver há nove anos: as finanças.
Por incumprimento dos deveres fiscais, a casa foi leiloada, e foi o novo proprietário que ao tomar posse da sua nova casa, se deparou com tão macabro achado.
O Cartão de Contribuinte ganhou definitivamente a guerra ao Bilhete de Identidade, para já não falar na goleada sobre o Cartão de Eleitor.
Há alguns anos atrás, acompanhei uma acção de rastreio ao risco cardiovascular em plena Praça do Rossio, em Lisboa. Após divulgação pela TVI tivemos uma afluência tal de público, que tivemos de encerrar a fila cerca de 3 horas antes do final do rastreio.
Colocámo-nos no final da fila e íamos falando com as pessoas que chegavam, na sua maioria idosas, solicitando-lhes que não permanecessem ali porque não iríamos ter qualquer hipótese de lhes avaliar a Pressão Arterial e o Colesterol.
Para nosso grande espanto, ninguém arredava pé e toda a gente se dispôs a ficar ali connosco à conversa, pessoas totalmente desconhecidas, sobre nada e sobre tudo.
Ao fecharmos a tenda à hora prevista, despediram-se simpaticamente de nós, agradecendo a oportunidade de uma tarde diferente na nossa companhia. O não fazer o rastreio era menos importante.
Duas histórias, dois exemplos de solidão, uma certeza de que mais do que a Hipertensão ou o Colesterol elevado, é a solidão e a ausência de amor e afectos, que mais importa, que mais dói e mata, quando falamos do coração.

1 comentário:

  1. O meu bom amigo conseguiu, mais uma vez, fazer de um tema difícil, um poema reconfortante. Deixe-me falar-lhe, não na condição de idoso, mas de fragilizado fiscamente. Tenho duas angústias (futuras?) que me amarguram e ocupam a mente durante noites sem fim: a solidão e a doença incapacitante, ie, duas formas de dependência que eu não desejo mas a que me candidato, sem escolha. É disso que o meu amigo fala, tão simplesmente e tão emotivamente. São, na minha opinião actual, duas maleitas da sociedade que, infelizmente, não têm solução neste mundo transviado em que vivemos, ie, teriam se fossemos diferentes, mas essa é uma questão com que nos debatemos, principalmente nas grandes cidades. Mas deixemos por instantes as tristezas e pensemos que, alguns de nós, possam ajudar a solucionar estes solavancos da vida. Um abraço, sentido.

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