domingo, 29 de janeiro de 2017

A poesia vive à superfície das horas…


Os poetas não necessitam escavar galerias e andar pela essência mais subterrânea dos dias; a poesia vive à superfície das horas, mesmo até das que parecem mais banais e previsíveis.

Numa manhã como tantas outras, o meu sobrinho João respondeu ao pai, o meu mano Zé Artur, que a noite não tinha sido grande coisa porque os sonhos não tinham entrado.

Peguei nessa ideia e num dos bonecos preferidos do João e do Luís, aquele que dá gargalhadas quando lhe apertamos a barriga e que se chamava PJ, por ter sido oferecido pelo Paulo Joaquim; e construí o conto "A noite em que os sonhos não entraram" que hoje apresento em Vila Viçosa.

Quando a tarde se aproximava do fim e eu estava na Livraria Escolar da minha amiga Joana Ruivo, chegavam às vezes alguns amigos que ficavam connosco à conversa. Uma livraria é uma casa para as palavras, as escritas ou palavras ditas assim em conversa informal.

Um dos amigos que chegava era o Senhor Francisco Lourinhã, o primeiro presidente da Câmara Municipal de Vila Viçosa eleito após o 25 de Abril de 1974, que ontem partiu.

Aqui no mesmo fim de semana da minha terra sobressaem as minhas palavras mas também as memórias das pessoas que informalmente e sem terem a noção disso, me foram ensinando a contar as histórias, por me terem ajudado a descobrir a excelência que existe nas coisas mais simples.

Porque a poesia vive à superfície das horas e os poetas nunca serão os seres mais inspirados, mas sim aqueles que conseguem despir-se do pudor e dizer tudo aquilo que sentem.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

O tempo é redondo…


Para quê lamentar não ter melancias na horta no mês de Janeiro, se as laranjas maduras se interpõem entre nós e o sol para nos trazerem momentos únicos de açúcar?

Como poderíamos sonhar olhando as estrelas se a noite nunca viesse?

Há tantas palavras que eu escrevo depois de as colher do silêncio.

O deserto é o sítio onde melhor floresce a fé.

Se as minhas mãos não tateassem tristes pela solidão jamais te encontrariam no recanto doce de uma festa só nossa, e contigo ao lado, o melhor sítio para espreitar o céu até pode ser um rés-do-chão.

Como o tempo é redondo e o nosso sonho é eterno, o amor nunca se habituará a viver longe do nosso coração.

 

sábado, 21 de janeiro de 2017

A manhã que cheira a tangerina...


Quando a fome destapar o aroma da tangerina, eu seguirei pela manhã, gomo a gomo, como quem te procura vasculhando a memória.

Matámos as convenções logo ali, ao primeiro beijo, deixando depois que o silêncio se fosse impregnando aos poucos das palavras que a ausência de fôlego travou, e não nos deixou dizer.

Mas também, qual será o detalhe de amor que poderá ser soletrado e que este beijo ainda não disse?

As sílabas que os nossos lábios amordaçam quando se dispõem assim, uns de encontro aos outros, diluem-se no desejo, entrelaçam-se na vontade, ficam impregnadas de rosas vermelhas e libertam-se sob a forma de um gesto que sonhámos.

E que bom que é poder saborear as contradições inscritas numa paixão como a nossa…

Os silêncios que falam, o voo de liberdade quando os meus braços se atam aos teus; e o edredão que nos protege do frio parece desenhar o teto de uma casa alta, quente e com janelas, onde se vive de verdade.

A harmonia quando a paixão afinal me desatina, e eu sigo pelo pensamento numa manhã que cheira inevitavelmente a tangerina.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Há dias que são tão cómodos e perfeitos...


Há dias que são tão cómodos e perfeitos, que não resistimos a transformá-los num sofá onde depois nos sentamos tranquilamente.

Podemos puxar para junto de nós, para nos alumiar, aquele pedaço de lua que nos abraçou num beijo; e na memória, como quem desenha letras no chão de terra de uma rua, vamos aos poucos organizando os versos, mas sem que os ajustemos de forma rígida a uma métrica qualquer.

Por isso, se pensaram ver-me algures por aí, investiguem primeiro, escutem com atenção tudo aquilo que eu disser, não esteja o meu corpo a vaguear por um sonâmbulo instante, "adormecido" que estou, e a sonhar, recostado nesses dias a que podem chamar tudo, mas que são afinal a poesia.

E até podem ver-me sozinho e de mãos vazias, mas acreditem que apenas na ilusão de um fantasma errando por aí; os dias onde me sento têm dois lugares e as minhas mãos tomam o mundo enquanto passeiam por ti.

Por isso, digam o que disserem de mim, vejam-me aqui, ali, seja onde for...

Eu estarei sempre abraçado a ti, comodamente ajeitados aos nossos dias doces, meu amor.

 

domingo, 15 de janeiro de 2017

Mestre, até sempre...


Ao longe, muito para lá da minha janela, o sol pinta o Atlântico de sombras cor de prata e vai disfarçando o frio de Janeiro.

Talvez eu logo vá passear no Chiado, e desça do Camões passando pela Brasileira, levando sempre comigo aquele jeito algures entre o Carlos da Maia, distinto, e o louco João da Ega, de "Os Maias".

Hoje, mais do que nunca, depois da Bertrand, onde as estantes têm os meus livros, e como quem desce para a Rua do Carmo, por certo sentirei saudades daquelas manhãs de 1982 na Escola Secundária de Vila Viçosa, ainda à Porta dos Nós, quando um gira-discos tocava Verdi e nós seguíamos por Camões e Homero à procura da imortalidade na Ilha dos Amores.

E as manhãs também traziam Sophia, Antero, Florbela, Pessoa, Jorge de Sena...

E inevitavelmente o Chiado do Eça.

Hoje, mais do que nunca, eu, o discípulo, sentirei saudades do Mestre que um dia me chamou à parte para me dizer:

- Rapaz, ser bom é curto para quem pode ser excelente.

Soube há pouco que à meia-noite de hoje partiu o Padre Mário Aparício, o meu professor de Português, e aquele que considero sem quaisquer dúvidas, o melhor professor de todos os que se cruzaram comigo nas diferentes etapas do meu percurso académico.

- O mundo é de quem não se senta à sombra da mediania e do destino e se torna exigente buscando o melhor de si.

E um Mestre, mais do que os compêndios que nos apresenta, ensina-nos a caminhar e a não desistir.

Talvez o Rossio hoje não tenha guitarras à janela e o Castelo se apague na sombra de uma noite fria de Janeiro.

Mas lá em baixo, onde o Tejo ressuscita em cada canto com que as ninfas pintam os meus versos, eu, rapaz com meio século a pintar-me a idade, coçarei a barba do tom da tarde e sentirei na brisa o eco de uma gaivota que esvoaça.

Mestre, até sempre, um dia destes voaremos juntos pela eternidade.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

E este cais…


Se tu vivesses para lá do mar, eu juro aqui que não faria outra coisa, para além de aperfeiçoar o meu gesto de nadar.

Poderia também, quiçá, pegar em tudo aquilo que é velho e não interessa, e construir uma jangada atada com os nós mais fortes que a raiva conseguisse colher da minha vontade de te abraçar.

E um dia ao fim da tarde, num instante em tudo transparente, celebraríamos a liberdade num beijo sem biombos ou o disfarce de sermos outra gente.

Seria num cais qualquer entre o repouso das gaivotas ou o seu canto no voo matizado pela maré.

Os dois como quem tomou do sonho a convicção e a raiz, por entre cada palavra nua na condição de ser aquilo que é.

Eu amo-te e existo por poder dizê-lo.

E este cais em forma de liberdade é afinal o meu país.

 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Aquilo que se esconde por detrás de uma tarde de nevoeiro…


Ao contrário, talvez, da grande maioria das pessoas, eu gosto dos dias de nevoeiro. Tal não se deve à esperança de que eles me devolvam um rei perdido em Álcácer-Quibir; mas sim porque o tom cinza que encurta o horizonte nos oferece, simultaneamente, um espelho generoso com vista desafogada para dentro de nós.

E assim ao fim da tarde com a casa envolta em bruma, apagam-se as luzes…

Quando Tom Hulce soltou a primeira gargalhada em Amadeus, de Milos Forman, já nós levávamos de avanço, muitos minutos de riso, tal o impacto e a surpresa do “mergulho” no vazio que as cadeiras do Cinema Londres nos proporcionavam após nos termos sentado tranquilamente.

Ali pela Avenida de Roma, em 1985, onde voltaremos outro dia para espreitar no Roma, a bailarina no armazém da padaria de Era uma vez na América, existiam algumas casas de venda de Croissants onde depois poderíamos jantar. Um de cogumelos, outro de fiambre, e para a sobremesa, talvez um Croissants de chocolate ou de doce de ovos.

Já no início de 1986, quando a Meryl Streep e o Robert Redford voavam apaixonados sobre a Savana em África Minha no écran gigante do São Jorge, o nosso jantar tinha sido antecipado com a compra de uma inéditas sandes gigantes de fiambre, alface e tomate que preparavam no Celeiro, à Rua 1º de Dezembro.

Nunca tínhamos visto por cá estas sandes maiores do que a maior carcaça, e nós, muito modernos, lá íamos subindo a Avenida ao jeito dos protagonistas das séries da TV.

As escadas do Eden são terríveis de subir mesmo quando o balcão só nos leva até ao purgatório. Sim, esse mesmo, o Purgatório do Fado num Querido Lilás em que o Herman foi a mãe do filho e o… filho da mãe, num guião “desenhado” pelo benfiquista da luva preta, o Artur Semedo.

O jantar?

Nesse ano de 1987 talvez tenha sido um hamburger grelhado na chapa e coroado com cebola frita, o avô lusitano do Big Mac, comprado ali na Rua das Portas de Santo Antão numa loja muito pequena quase em frente à Casa do Alentejo.   

E antes que os anos oitenta sucumbissem ao ciclo inevitável do tempo, entre a Faculdade de Farmácia e o Quarteto, na Avenida Estados Unidos da América, existia a Gelataria Pindô na Avenida das Forças Armadas, onde um café com natas ficava sempre bem na antecâmara de qualquer filme menos comercial.

Asas do Desejo ou até o Cinema Paraíso, do qual eu já tivera o meu quinhão muito particular quando o meu pai foi projecionista em Vila Viçosa e trabalhava com uma velha máquina gigante onde era fundamental alinhar dois carvões incandescentes, que às vezes cortava as fitas, e que proporcionava até fenómenos de ressurreição de personagens, sobretudo quando por engano se trocavam as bobines.

Viram onde o nevoeiro hoje me foi encontrar?

Os filmes contam histórias e todos juntos, assim, contam a nossa história, mas sempre com os beijos no lugar certo e nunca cortados.

 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Luís


 
A partir de uma folha branca de papel, com múltiplos recortes, cola em stick e canetas de feltro de quantas cores imaginarmos, fabricamos um autocarro imenso, comprido, com gente muito feliz à janela.
E quando as rodas de papel “rasgarem” o tapete da sala, acelerando ao ritmo dos nossos braços, e sobretudo, da imaginação, já teremos desenhado uma história com um inédito argumento, e uma banda sonora tão inspirada que põe toda a gente a cantar.
Quantos mundos cabem dentro deste mundo que se vê e que se conta por minutos na rigidez previsível dos relógios…
Sei-o eu que alinhavo poemas ao amanhecer, e sabe-o melhor que ninguém, o meu sobrinho Luís que cumpre hoje o seu décimo aniversário.
Por entre o privilégio destes dez anos de dias que ele me pintou de um intenso azul, eu ofereço-lhe aqui um barco desenhado por beijos e palavras para que ele nunca pare de navegar.
Porque os Homens que crescem e marcam a História são aqueles que nunca desistem de brincar.
Luís, um beijo de parabéns do tio Quim.
 
 

domingo, 1 de janeiro de 2017

2017


Na saliência de um segundo que um beijo fez emergir, penduro o meu casaco, e mais à frente, num outro segundo a que a ousadia ofereceu um plano inclinado, sacudo os pés, preparando-me assim para seguir viagem.

Olhar no horizonte, sorriso a meia-lua, o pensamento alado, como usa ser, e as mãos entregues às mãos que as perfumam do gesto verso, sem palavras, que fala de amor.

Não existe um tempo novo, existe apenas a vontade de desmanchar o previsível encolher de ombros que deixa o tempo ser aquilo que for.

Desassossegar a letargia do destino mais apático, anónimo e genérico.

Por estes dias, o Menino fugiu com José e Maria para o Egipto com a ajuda do burro, os reis regressaram a casa, a estrela foi brilhar para outro nascimento, e até os pastores tiveram que ir à sua vida, pois são muitas as ovelhas para apascentar.

No casebre de Belém resta a palha, e a vaca, que pela magreza, ofereceria adjectivo ao ano todo que aí vem

Desarrumar o previsível sem desmanchar a esperança que mora no presépio. Para isso existe Janeiro.

Ano novo?

Tomando os segundos de assalto, de mão dada, “fato” novo… e sabendo que para nos deixarmos acontecer, o amor que nos dita a alma terá de vir sempre em primeiro.

Feliz 2017.