sábado, 21 de janeiro de 2017

A manhã que cheira a tangerina...


Quando a fome destapar o aroma da tangerina, eu seguirei pela manhã, gomo a gomo, como quem te procura vasculhando a memória.

Matámos as convenções logo ali, ao primeiro beijo, deixando depois que o silêncio se fosse impregnando aos poucos das palavras que a ausência de fôlego travou, e não nos deixou dizer.

Mas também, qual será o detalhe de amor que poderá ser soletrado e que este beijo ainda não disse?

As sílabas que os nossos lábios amordaçam quando se dispõem assim, uns de encontro aos outros, diluem-se no desejo, entrelaçam-se na vontade, ficam impregnadas de rosas vermelhas e libertam-se sob a forma de um gesto que sonhámos.

E que bom que é poder saborear as contradições inscritas numa paixão como a nossa…

Os silêncios que falam, o voo de liberdade quando os meus braços se atam aos teus; e o edredão que nos protege do frio parece desenhar o teto de uma casa alta, quente e com janelas, onde se vive de verdade.

A harmonia quando a paixão afinal me desatina, e eu sigo pelo pensamento numa manhã que cheira inevitavelmente a tangerina.

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