sábado, 5 de julho de 2014

JOAQUIM FRANCISCO

Quando me pergunto quem sou, cedo descubro junto aos pés o eco do aroma e da cor da terra lavrada pelos meus avós.
A terra irmã de todos os meus passos, a terra do trigo em dias de estio... ou o barro molhado que nos dias frios agradece de braços abertos, o fruto maduro da oliveira, o prenúncio da luz.
Descubro a fé, herança da oração desprovida de palavras e nascida do ajoelhar da minha avó na carícia às águas límpidas dos ribeiros, oferecendo-lhe o beijo dos tecidos que no regresso do campo sempre traziam em si, o aroma de poejo, o incenso mais nobre do meu povo por sobre o sacrário da mais completa simplicidade.
Reencontro o calor do abraço das tias que todas as noites chegavam para o chá e que nos aconchegavam a elas envoltos no xaile que tinha cadilhos com os quais podíamos brincar nos doces instantes imediatamente antes de adormecer.
Reencontro-me inteiro e imensamente feliz na memória do amor tecido de infinitos beijos do meu pai e da minha mãe; descubro-me forte nesse caminhar lado a lado, privilégio maior de um amor partilhado com o meu irmão; e palpo o futuro que antevejo feliz quando me sorri por entre os beijos e abraços do João e do Luís.
Encontro-me com o querer infinito que sabe que um horizonte é só e apenas a ilusão de um fim, e que mesmo aquele monte muito lá ao longe e para lá da seara imensa, é sempre o ponto de partida para uma nova etapa, um recomeço.
E provo novamente daquele sabor único da liberdade que só conhece quem andou descalço, quem colheu amoras pelas silvas do caminho sem ter medo de se arranhar; e quem bebeu livre, pelas mãos em concha ou por um coxo, a água fresca dada generosamente pelas fontes do campo.
Vejo-me confortável no tudo que sou e em todas as diferenças, porque só a verdade importa à alma, e a nossa liberdade é incompatível com a pré-formatação de todos modelos.
Vejo-me feliz a trabalhar na energia e na bênção de tantos colegas que o tempo foi tornando amigos.
Quando me pergunto quem sou revisito todos os livros que li, as palavras dos poetas que me fizeram sorrir e chorar, os filmes e as peças que vi, as músicas que se me colaram à voz e à alma, todas as viagens que fiz, os quadros por que me apaixonei, aqueles petiscos todos que saboreei iluminados por um copo de um bom vinho tinto…
Quando me pergunto quem sou, descubro também o olhar doce do Manuel, do qual não prescindo nas manhãs de Vila Viçosa, descubro as gargalhadas da Zinha, as palavras sensatas do João Paulo, as cumplicidades todas com a Manuela e o Zé Maria... e todo o infinito amor que todos os amigos generosamente semearam em mim nos dias que de tão grandes nunca terão nome, mas que já hoje me fazem por vezes chorar de saudade.
Vejo-me muito mais novo à medida que os anos passam e deixam ficar aquela acrescida descontracção de quem vive tão bem e confortável com toda a verdade do que é.
Não vejo, porque já esqueci, tudo aquilo que foi mau, porque o que não presta nunca se guarda e cedo se deve deitar fora.
E quando me pergunto quem sou, invariavelmente concluo que sou um tonto e eterno apaixonado, um privilegiado beneficiário do amor de muita gente, e que apenas coloco palavras por cima da poesia desses tantos mestres que me vão tecendo os dias no tear de todos os afectos.
Hoje, o dia em que cumpro o 48º aniversário.

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