terça-feira, 15 de julho de 2014

Um destino

Eu não acredito no destino.
Não acredito que exista uma inevitabilidade cósmica que faça de nós meros e passivos espectadores assistindo ao desenvolvimento de uma história que é a nossa própria história.
Acredito apenas que existem momentos e pessoas que se aproximam muito dos nossos sonhos e da nossa vontade, e existem cumplicidades que de tão perfeitas parecem ter a marca do divino.
Sonhos, vontade, cumplicidades… e quando tudo é assim tão perfeito e tão nosso, até parece um destino que ultrapassa e esmaga a aparência de um qualquer momento.
Estar em casa sozinho num serão de verão a procurar parede para pendurar um quadro que um amigo fez e me ofereceu; reler alguns trechos de “A mensagem”, contemplar a dedicatória feita por um amigo e colocar o livro na estante na secção / “altar” especial de Fernando Pessoa; arrumar mais três livros na estante, um DVD e colocar um novo livro de receitas numa das gavetas da cozinha; alinhar quatro presépios na colecção; incorporar os “novos” tintos por região e data, contemplando uma “tampa” especial de porcelana com cabeça de pássaro; guardar patês no armário; arrumar as meias novas, a camisola, o pólo, a camisa e até alinhar o novo perfume com as essências disponíveis no móvel do quarto; “colar” na porta do frigorífico, um azulejo que representa São Francisco de Assis; pensar na data em que irei ao “El corte ingles” comprar algo de que necessito usando um cartão presente; arrumar um pião de madeira e um marcador de livros feito de cortiça; escrever a palavra “amor”, para que seja a primeira na primeira página de um bloco com capa de cortiça; acabar a noite a construir um Lego que representa o Big Ben e lutar com o sono por não querer deixar a obra a meio…
E o estar sozinho é apenas um brevíssimo detalhe físico por entre um “destino” onde também ecoam milhares de palavras, um “destino” muito bom e tecido pela amizade de cada pessoa que se faz presente em tudo, e sobretudo na memória activada pelo coração.
E estes objectos todos?
Nem seria preciso que estivessem por aqui para que os amigos fossem lembrados e me fizessem companhia neste serão, mas no fundo estes objectos são beijos e abraços que me confortam e fazem companhia numa aparentemente solitária noite de verão, algures por entre o “destino” da melhor amizade.
A tal amizade que vai tecendo a minha própria história por entre os “sins” e os “nãos” das opções que vou fazendo.

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