quinta-feira, 24 de julho de 2014

O sonho de uma manhã de verão

Há um campo imenso em tons de verde e rasgado por flores, que encaminha inevitavelmente os nossos olhos para o mar que ao longe toca o céu num degradé por entre mil tons de azul.
O sol nasceu não há muito tempo, e o navio imponente que passa a ritmo constante cumprindo o seu destino, tomou desta hora um inédito tom de ouro que brilha intensa e incansavelmente.
Eu vejo o ouro a cruzar e por sobre o azul.
Escuta-se o vento que sopra forte; e o velho pinheiro e a mancha ali à direita de um pequeno canavial que toca o leito quase apagado da ribeira, já se renderam e parecem querer voar aproveitando este impulso do ar que corre veloz dando-nos a sensação de fresco por entre a manhã de verão.
Há uma casa que já foi branca, o que resta da torre sineira da pequena capela de uma quinta que alguém um dia sonhou com vista para o Atlântico, e que é agora uma sombra de cal com buracos de onde nascem e crescem silvas… e amoras.
Passa gente, a pé ou em carros, cumprindo com perícia o labirinto das horas neste ciclo irredutível do tempo; mas és só tu, o meu amor de rosto sereno e perfeito, quem eu vejo encostado à paragem de autocarro a quem estes dias de estio e férias ofereceram uma inédita solidão.
Eu voo por sobre esta manhã e por este sonho que não tem palavras.
Nos sonhos os gestos e os olhares falam muito mais do que aquilo que os lábios possam dizer.
Eu voo por sobre este sonho que talvez nunca venha a ter nome.
Nos sonhos, pouco importa o nome, e o importante mesmo é saber como não acordar.
De repente eu estaciono na paragem, tu abres a porta e entras enquanto eu ouço mais do que nunca, o vento; dás-me então um beijo e seguimos os dois em direcção ao mar.
Os dois felizes, a sorrirmos e sem nunca nos deixarmos acordar.


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