sexta-feira, 30 de agosto de 2013

As tristes chagas de um país em chamas

No mesmo telejornal, o de ontem à hora de almoço, o destaque para a morte de mais uma bombeira no incêndio do Caramulo, o discurso de Santana Lopes na Universidade de Verão do PSD e a nomeação da nova Secretária de Estado do Tesouro.
O país em três histórias que só na aparência são independentes umas das outras.
Os incêndios são um tormento sempre que chega o verão e se abre a denominada época dos ditos, numa recorrência nunca quebrada pela falta de medidas eficazes de prevenção e combate. No enquadramento actual do “negócio incêndios”, preveni-los com uma campanha de TV apelando ao não atirar de “beatas” para a berma é tão ridículo como querer tratar uma tuberculose com uma Aspirina Pediátrica.
A prevenção efectiva far-se-ia com a implementação de medidas que esvaziassem os interesses comerciais por detrás do fogo, com um aumento da vigilância e sobretudo com o combate à desertificação e ao abandono dos campos.
Quando de fecham escolas e centros de saúde no interior empurram-se as pessoas para a periferia dos grandes centros urbanos onde se gastam milhões em habitação social ao mesmo tempo que milhares de casas estão abandonadas e a ruir por esse país fora nas zonas mais vulneráveis ao fogo.
Ao longo dos anos, directa ou indirectamente, o Estado foi legislando o efectivo abandono dos campos transformando-os em “palha seca” e altamente inflamável.
E não é legitimo exigir aos beneficiários do Rendimento Mínimo de Inserção ou do Subsídio de Desemprego que, como contrapartida ao que recebem da comunidade, disponibilizassem algumas horas que em muitos casos poderiam servir para a vigilância e as limpezas das matas do Estado?
As bermas das estradas que cruzam o interior do país estão uma vergonha e as antigas casas dos cantoneiros estão invariavelmente em ruínas.
E o combate aos incêndios?
Quanto ganha um bombeiro? Quantas horas seguidas de trabalho são exigidas a um bombeiro? Onde estão os milhares de militares que só fazem treinos e simulações de guerra, que vivem sentados nas poltronas estufadas de privilégios das suas luxuosas messes e que só ameaçam com uma revolução quando sentem existir um ataque a esses pérfidos benefícios? O momento não exige que treinem um efectivo combate aos incêndios e os ponham em prática? Um país são as suas pessoas, a sua floresta, os animais… e o país está verdadeiramente em “guerra”.
E a punição efectiva e rigorosa de quem ateia o fogo e de quem manda atear por ter interesse no que resta do fogo ou no pagamento das facturas do combate privado ao fogo?
Lamento muito e entristece-me verdadeiramente a morte de cinco bombeiros só este ano. A sua coragem e a sua abnegação faz deles eternos heróis mas não posso deixar de dizer que a sua morte é uma vergonha nacional. A montra feia da vergonhosa gestão política do país.
Os políticos não estudam no inverno em universidades normais, organizam as suas próprias universidades no verão, o que até é compreensível se pensarmos que é no verão que as cigarras estão mais activas.
E nessas universidades, as incubadoras dos “meninos e meninas”, todos portadores de cartões “Jota”, que daqui a alguns anos vão ver o seu nome gravado no Diário da República em sucessivas e milionárias nomeações, os professores, salvo raríssimas excepções, são as “cigarras” mais velhas que andam por cá há muitos anos a “atear fogo” ao país.
Ontem, Santana Lopes foi teorizar sobre apoios sociais e de caminho abordou os incêndios e a forma de os prevenir e combater. Para quem já foi Primeiro-Ministro, Presidente de Câmara e para quem há anos “anda por aí” pela política, é escassíssima vergonha este tipo de especulações baratas.
Já teve demasiadas oportunidades para fazer algo. Mas fazer é um verbo assaz difícil.
E se os “meninos” é isto que aprendem, não espanta que o ciclo da mediocridade não se rompa.
Foi nomeada a nova Secretária de Estado do Tesouro que até aqui exercia as funções de Directora Financeira do BPI. O anterior, que “morreu” afogado nas memórias das propostas “swaps” vinha do Citigroup.
O poder económico há muito suplantou o poder político.
Políticos de incubadora gerados nas Universidades de Verão são por incompetência os que melhor servem à manutenção deste poder.
E neste contexto, as pessoas, aquelas que são todos os dias chamadas aos slogans e campanhas políticas, não contam mesmo para nada, abandonadas que estão à tristeza de um país em chamas.

1 comentário:

  1. Quando vejo um telejornal e nos chegam aquelas imagens todas....é um nó na garganta que me fica, só de ver aquelas famílias desesperadas a perderem tudo o que construíram ao longo de uma vida.
    Tem que haver penalidades fortes para quem coloca fogo e sem dúvida que os nossos militares podem ter um papel muito mais activo no seu combate.

    Em 2013 – já vamos em 5 mortes....é inadmissível, por vezes somos mesmo um “Portugal dos Pequenitos” com tanto que ainda nos falta aprender.
    PP

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