domingo, 26 de dezembro de 2010

D. Catarina

É a mãe do meu melhor amigo e conheço-a desde sempre.
Vivia numa casa muito central na Praça da República, em Vila Viçosa, uma casa em que a porta só se fechava à hora de ir deitar. Empurrávamos a porta, chamávamos e entrávamos directamente para a cozinha que era o local onde quase sempre a encontrávamos a fazer as melhores empadas e os melhores bolos secos (as broas alentejanas) que já comi e que, estou certo, nunca mais comerei igualmente boas.
Vendia-as para fora e não chegavam para as encomendas, ou então vendia-as no café do marido, o Sr. Julião, que ficava mesmo ao virar da esquina.
Esta casa de porta aberta era no entanto, e sobretudo, um entreposto de afectos onde ninguém passava sem resistir à tentação de entrar. Era um dos meus locais preferidos para brincar.
Na casa havia um sótão onde sobejava espaço para dar asas à criatividade infantil, terreno ideal para todas as brincadeiras.
E a meio da tarde havia o sempre momento especial do lanche. Comíamos os bolos, as torradas fantásticas e um inesquecível Sumol que vinha directamente do café do Sr. Julião.
Era este o menu ideal de tantas e tantas tardes longas de verão.
Mestra de afectos, a D. Catarina tinha gestos que jamais esquecerei. Recordo-me de em 1981, na altura em que o filho, o Manuel, fazia a festa dos 15 anos e eu me encontrava hospitalizado em Évora devido a uma peritonite, me ter preparado umas dezenas de queques e bolos de arroz, os únicos que a minha dieta permitia, para que apesar de longe, eu pudesse partilhar da festa de aniversário do meu amigo. Fui o rei na enfermaria porque os ditos bolos eram tantos que quase davam para o hospital inteiro.
Também não raras vezes, encontrando-me eu a estudar em Lisboa, me preparava um kit de empadas para eu levar e que tinham sempre para mim, o sabor do melhor manjar, ou não fosse eu um “escravo” das cantinas universitárias.
No dia 24 de Dezembro passado acompanhei o Manuel ao Lar onde a sua doença exige que se encontre para a resgatarmos para um Natal em família.
Vinha feliz, vínhamos felizes, e foi curioso estarmos ali os três, as mesmas três pessoas que tantas tardes passaram juntas. Só que os papéis estavam agora invertidos: a cuidadora de antes é agora o alvo dos nossos cuidados, cumprindo-se assim o ciclo normal da vida.
E hoje, no dia em que se comemora a família, lembrei-me dela e deste momento que vivemos juntos, deste terno momento de família que mais uma vez partilharam comigo.
O amor que o meu amigo dedica à mãe e os cuidados maiores com que a trata, os quais eu pude observar naquele momento, são para mim a prova de que a família é, poderá e deverá sempre ser, uma escola de amor, onde se cultivam e alimentam todos os afectos. É o espaço onde todos vivemos para todos e por todos, porque o todo está sempre acima de nós próprios.
E eu senti-me imensamente feliz por poder estar ali com eles.
Com muito pouco para oferecer, limitei-me a dar um pouco de alegria ao momento, provocando alguns sorrisos à D. Catarina, sentindo-me impotente para dar mais do que estes sorrisos, migalhas tão insignificantes perante o tanto que ela ao longo de tanto tempo me ofereceu.

5 comentários:

  1. Quando descreves as coisas assim, quase parece que vos estou a ver a comer as maravilhosas empadas!
    Ainda hoje, passando pelo café do Julião, pensei: "Desde que o Sr. Julião foi obrigado a deixar este café, por motivos de saúde, este lugar nunca mais foi o mesmo! Chegam uns, vão outros, mas ninguém se aguenta por ali muito tempo..." Será a falta das emblemáticas bifanas? Únicas, sem dúvida!

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  2. Caro amigo, não tenho comentários especiais a fazer a esta sua comunicação sobre o carinho, a amizade e o respeito, a não ser que mostra por onde anda o seu coração. Mas tenho um pedido a fazer: que nos próximos anos nos continue a brindar com a sua excelente prosa, por ser emblemática do seu estado de alma e pelo bem que nos faz lê-la. Um grande abraço.

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  3. Não conheço o manuel c, mas faço minhas as palavras dele. Eu, tal como ele afirma, tenho ainda mais motivos para apreciar estes posts, pois vivi alguns destes momentos com o seu autor. E espero continuar a vivê-los, claro! ;)

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  4. Partilho as opiniões, em especial porque vivi aventuras semelhantes. Outras paragens outros momentos mas, os mesmos sentimentos. No domingo fiquei contente de a ver. Há pessoas que nos marcam, amigos que ficam no coração para sempre. Substitui-los impossivel.

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  5. Obrigado Amigo pela homenagem feita à minha mãe.
    Aquele momento vivido a três foi algo especial.
    Naquela tarde e tendo em conta todas as circunstâncias da vida estava particularmente sensível, foste tu que me acompanhaste "naquele resgate". Tu mais uma vez provaste ser aquele amigo fiel que está sempre presente.
    A minha mãe gostou muito de te rever e como pudemos constatar foi com enorme alegria que te acolheu como o fazia sempre em sua casa.
    Ela foi e continua a ser, apesar da doença, um porto de abrigo.

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