sábado, 2 de fevereiro de 2013

Cinema: do paraíso ao inferno


Os tempos mudaram, e hoje, quase todos temos em casa uma televisão que por obra das operadoras e mérito das nossas mensalidades, em alguns casos nos oferece a disponibilidade de centenas de canais.
Longe estão portanto os tempos que me são narrados pelos meus pais, quando nos anos quarenta do século passado, na minha terra existia uma “barraca de madeira”, improvisada sala de cinema, onde eram projectados os maiores êxitos da sétima arte.
Nessa altura, o cinema chegou para ser a janela que permitia ver muito para lá do sítio que a vista alcançava mesmo quando se subia ao monte mais alto, trouxe as imagens do mar e das pessoas diferentes desses lugares que só por fé nas palavras do mestre-escola, acreditávamos que existiam.
Por culpa dos elevados índices de analfabetismo, não se conseguia manter a sala em silêncio, pois os afortunados, os que sabiam ler, partilhavam a leitura das legendas com todos aqueles que não o podiam fazer.
O meu tio João, que era surdo, exigia dos vizinhos de cadeira um tal volume de voz que muitas vezes era indutor de tumultos.
E existia até há pouco uma senhora a quem o meu pai jura ter ouvido:
- As mais belas mulheres de “Holivonde”.
Sendo “Holivonde”, obviamente, uma interpretação alentejana e livre a partir da palavra Holywood.
Nos anos setenta e oitenta, durante toda a minha juventude passada em Vila Viçosa, a barraca há muito tinha sido deitada abaixo e existia o Cine-Teatro que exibia filmes nas noites de Quinta, Sábado e Domingo. Por vezes, e sempre que o conteúdo dos filmes justificava, existiam sessões especiais à tarde destinadas às crianças.
Estávamos sempre atentos ao cartaz gigante que encostavam a uma árvore na placa central da Praça, mesmo em frente à Farmácia Duarte. Eu, e dado que o meu pai era arrumador e mais tarde projeccionista, tinha acesso em primeira mão, aos títulos do cartaz.
Os filmes que víamos não estariam alinhados em termos de tempo com os que passavam nas grandes cidades, mas, mais mês, menos mês, sempre acabavam por chegar.
Actualmente não há cinema em Vila Viçosa, há muito que também não há em Évora e ficámos a saber que muitas salas fecharão em breve em cidades do interior e nas Ilhas, deixando grande parte do interior sem acesso ao cinema.
A justificação é a ausência de viabilidade financeira da companhia privada que geria estas salas. Razão pertinente e válida. As empresas não existem para perder dinheiro.
É no entanto inadmissível que o Estado e as Autarquias, que se bem me lembro, não deixam passar um dia 10 de Junho sem falar sobre a desertificação do interior e dos meios eminentemente rurais, assistam passivamente a este fenómeno.
Bem prega Frei Tomás…
Fazem-no por desrespeito pelos cidadãos e porque não reconhecem à Cultura, e cinema é Cultura, o estatuto de bem de primeira necessidade, numa perspectiva estúpida e estupidificante da vida, de quem acha que desenvolvimento é sinónimo de redes viárias e rotundas. Caso contrário, criariam condições, sós ou associadas aos grupos privados, para garantir o acesso das pessoas a uma muito nobre expressão de arte.
Senhor Secretário de Estado da Cultura e Senhores Presidentes de Câmara, é para isto que eu pago impostos. E se for para isto, não me custará nunca pagar.
Com esta postura tenhamos a certeza de que andamos efectivamente muitos anos para trás.
Pior que isso, vislumbramos um risco sério associado à privatização de tudo o que nos é essencial.
E se um dia os Chineses acharem que não é rentável levar a electricidade a alguns pontos do país?
Volta candeeiro de petróleo, estás perdoado.

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