domingo, 7 de julho de 2013

A Cúmplice do Sol

Soa sempre a uma infinita saudade, o triste dobrar dos sinos que sentimos tão demasiado próximo sempre que a morte nos convoca a entrar no Castelo pelas Portas de Estremoz.
A rua estreita amplia o toque metálico e fá-lo acertar com os nossos passos arrastados em direcção à Senhora da Conceição, atrás de quem os Calipolenses fazem questão de se devolver à terra.
É Alentejo e verão, o sol queima nesta manhã de domingo quando entre muros e pedra, um mar de branco cruzamos no jardim que entre muralhas é guardião das memórias do meu “povo”.
O sol reuniu a sua máxima intensidade e está aqui presente como todos nós para um brevíssimo adeus à D. Catarina, uma grande amiga, uma generosa cúmplice do sol que tantas vezes nos ofereceu “luz” aos sorrisos dos nossos dias passados.
No dia 5 de Julho de 1981, fez na passada sexta-feira 32 anos, eu cumpri o meu 15º aniversário. Era domingo e nós vivíamos em casa a dupla tristeza da partida em apenas 12 dias dos meus avós maternos, a Avó Francisca no dia 21 de Junho e o avô Joaquim que tinha sido sepultado na véspera.
A D. Catarina convidou-me para lanchar, como aliás tantas vezes acontecia, colocou sobre um pequeno bolo, as velas do bolo de aniversário da festa que em Março tinha preparado ao filho da mesma idade, o meu inseparável amigo Manuel. E com ela e com o meu amigo, os três juntos e a cantar os parabéns, eu tive uma festa na tarde dos meus 15 anos.
Não foi em vão que falei em sol.
Ontem reuni alguns amigos para que entre conversas e muito riso, eu pudesse celebrar os meus 47 anos. O Rui preparou o bolo de aniversário mais bonito e fantástico que alguma vez já tive, mas na tarde, no cantar dos parabéns e por sobre o partir do bolo, reinou uma saudade imensa nascida da notícia que a manhã triste me trouxera por SMS: “Já partiu”.
Os afectos sobrepõem-se sempre à perfeição de tudo e de todos os momentos.
Na noite quente de Vila Viçosa com muita gente sentada à porta buscando o fresco que insistia em não chegar, no velório, encontro na Igreja de Santo António, o Manuel, o Paulo Geadas e o João Paulo. Há muitos anos que não estávamos juntos.
Tal como antes debaixo da laranjeira em frente à sua casa na Praça, de onde tantas vezes nos chamava para um Sumol, uma broa ou um “Sameiro”, a D. Catarina congregou-nos na sua partida para um serão diferente.
Rezámos juntos, cumprimentámo-nos, conversámos, sentimos a amizade que o tempo e a distância não destruirão nunca, a amizade nascida desta herança e cumplicidade do sol, a amizade que perpetuará entre nós, eterna nos corações de todos, a D. Catarina, definitivamente uma das mulheres mais generosas que a vida me ofereceu conhecer. 

1 comentário:

  1. Nao poderia estar mais de acordo com o texto e em especial a ultima frase. Conheco poucas como ela. Era de facto uma pessoa fantastica.

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