quarta-feira, 13 de abril de 2011

O Jorge, o José e a Arte da Pantomina

Aquecem os dias trazendo a Abril um inesperado verão, e também vão quentes as lutas e as campanhas pelo sucesso, quer falemos de taças ou “tachos”.
O Jorge é há muito presidente de um clube de futebol e é nas últimas três décadas, o ícone maior do designado Futebol Português, instituição que apesar de algum sucesso internacional, associamos sobretudo a casos de arbitragem, corrupção, negócios estranhos, actividades ilícitas, etc.
À frente do seu clube, a motivação e a agregação da sua massa de adeptos fá-las com base na existência de dois inimigos: o sul e o maior e mais representativo clube nacional, eleito seu directo rival. Esta perseguição é de tal forma que depois de D. Afonso III ter definido o que são hoje e desde há oito séculos, os limites de Portugal, se trata por certo do maior agente desagregador da unidade nacional.
Instiga ódios, incentiva à violência e é incapaz de afirmar a superioridade do seu clube pela positiva, fazendo-o sempre pela destruição e a agressão ao rival e à região onde ele se insere.
Sendo assim diabo, é no entanto mestre na arte de se apresentar como anjo bom e fiel advogado da razão, praticante de boas obras e exemplo para a humanidade, atribuindo as culpas dos males do mundo, obviamente para o rival e para o sul.
O recente apagão de luzes no estádio rival que o impediu de fazer a festa do campeonato às claras é assim apresentado como o escândalo maior do momento.
Eu reprovo inteiramente este gesto de apagar das luzes, sinónimo de mau perder, mas também não posso deixar de dizer que este acto está para os muitos actos praticados pelo Jorge ao longo dos anos, como a bola atirada pelo Joãozinho ao vidro da janela da D. Maria está para o lançamento de uma bomba atómica sobre uma qualquer cidade do mundo.
O José é há seis anos dirigente de um governo eleito pelo povo com base em promessas de melhor emprego, melhor educação, melhor saúde, enfim, melhor vida.
Passados estes seis anos, quando o desemprego está nas taxas mais elevadas de sempre, a educação e a saúde com deficit de qualidade, e a economia e as finanças públicas obrigam a um programa de “aperto de cinto” que vai comprometer a qualidade de vida de todos durante muitos anos, o José demitiu-se.
Fê-lo não por incapacidade sua, pelo insucesso das suas medidas e da sua governação, fê-lo porque ninguém da oposição o ajudou a ele, ser perfeito e herói dos tempos modernos, na sua luta estóica e supra humana.
É mais uma vez o filme do “Diabo por dentro, anjo por fora”.
É mais uma vez o desfocar do essencial para fazer emergir o acessório, colocando uma capa sobre a responsabilidade.
Para o José, primeiro-ministro há seis anos, o país está na situação em que está por culpa do Pedro que há um ano chegou a líder do maior partido da oposição.
Só no teatro de comédia o ridículo chega a níveis tão sofisticados.
A economia do mundo pode estar mal mas o José esquece-se, neste seu palco feito de telepontos e telegenia, que os heróis não são os que se rendem à inevitabilidade e às circunstâncias adversas, mas são antes os que por cima delas constroem o sucesso, olhando com arte e genica para além apenas do espelho da fama fugaz expressa por sondagens.
Esquece-se o José de que um bom primeiro-ministro não é o que sacode a aba do capote, mas é o que se afirma e assume a responsabilidade pelo tempo em que foi gestor maior dos destinos de um país.
Só para citar um exemplo, direi que o Marquês de Pombal é grande na nossa história, não por ter estado preocupado com a popularidade, que não era o seu forte, ou então por ter feito os melhores relatos da desgraça sofrida por Lisboa na manhã de 1 de Novembro de 1755 atirando as culpas à má sorte e ao triste fado, é grande porque por cima das cinzas e do entulho de uma cidade destruída pelo terramoto, reconstruiu-a e fez dela uma cidade moderna e à altura do seu tempo.
Mas isso foi noutro tempo.
O Jorge e o José, duas histórias e dois actores maiores deste palco em que se transformou o nosso mundo, em que para a taça e para o “tacho”, a regra é a ausência da própria regra e onde os comportamentos são moldados pelo instinto básico de sobrevivência que caracteriza os medíocres de carácter.
Estaríamos nós bem se tudo isto não fosse uma tragédia, chamemos-lhe Portuguesa, mas, por todos os motivos e mais algum, feita à medida de uma tragédia Grega.
E ainda estaríamos melhor se não sentíssemos como a gente se disponibiliza para ser coro desta obra, parecendo querer continuar a apostar cegamente nestes mestres da arte da mentira.
O tempo o dirá.
Com a certeza de que dirá sempre aquilo que quisermos que ele diga.

1 comentário:

  1. Pois é, as nossas grandes personalidades são mesmo assim: complexas, despudoradas, bi-polares. Enfim, é o que temos, felizmente para os humoristas. Então e o João Jardim, não merece uma referenciazita? Olhe que ele fica ofendido por não ser visto em tão boas companhias.

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