domingo, 29 de junho de 2014

Escravos da regra no silenciar da fé

A vela acesa tem o acrescido benefício de me confortar as mãos na noite fria de Fátima.
À minha volta há milhares de outras velas que resgatam rostos anónimos da penumbra da noite, e a vela acesa é assim a expressão de uma fé que nos une a todos.
A mim e aos meus pais, ao casal de Irlandeses que desceu connosco no elevador do hotel e que acabou a falar comigo de Temple Bar, do jovem com a camisola da Selecção de Futebol da Colômbia que grita golo no hall do hotel, da mulher que se descalça à minha frente no santuário quando a procissão se prepara para sair, dos dois meninos americanos de riso incontrolável que passam o terço a tirar fotos com o i-pad do pai, dos Chineses que rezam o quinto mistério em Mandarim fazendo com que eu só entenda a palavra “Maria”, das duas mulheres que há minha direita eu percebo que se namoram….
E quantas mais histórias…
Ali virado para a Capelinha das Aparições, penso também nos Jordanos com quem me cruzei há dias, ajoelhados nos seus tapetes e virados para Meca, penso nas raparigas Açorianas coroadas com a prata e os símbolos do Espírito Santo que vi também há pouco tempo nos Açores, e penso como a fé tem afinal tantos rostos quanto o número de Homens que habitam o universo.
E o epicentro dessa fé será sempre o coração dos Homens, com independência do “altar” ou da latitude para a qual nos viremos ou não na hora de rezar.
Na noite fria de Fátima impera o silêncio por entre as velas acesas até ao momento em que termina o terço e a procissão sai da Capelinha. Há então homens fardados ou homens com uma braçadeira verde que gritam para a multidão, empurram gente para a escravatura de uma linha preta desenhada estrategicamente na calçada, mandam acelerar velhos e coxos com a mesma leviandade com que se organiza um baile num serviço hospitalar de ortopedia… e já ninguém consegue rezar nem mais uma Ave-Maria.
Foi-se a paz e veio a estúpida regra de andar depressa sobre uma linha preta desenhada no chão.
O essencial, rezar, morreu às mãos da norma criada pelo Homem numa circunstância meramente logística em que não hesitou impor-se sobre a fragilidade dos outros fazendo de si um poderoso juiz.
Profético e exemplificativo.
A religião esmaga tantas vezes e inexplicavelmente a própria fé quando se substitui ao essencial na norma estúpida da conveniência de meia dúzia de poderosos.
E se os “operacionais das religiões” tivessem cara de ressuscitados, e palavras e gestos de gente de fé; nós até continuaríamos a rezar.
Mas há linhas pretas no chão de Fátima e um horário rígido a cumprir, há burkas sobre a face das Jordanas, há a moral que assenta mais nas convicções do que da própria fé.
Crucifiquem-me se quiserem, mas mesmo sendo católico e professando portanto uma religião, não tenho quaisquer dúvidas de que os maiores fazedores de ateus são os operacionais emissores e cumpridores de normas absurdas sacralizadas pelas suas conveniências; os que habitam nos templos mais íntimos das religiões a fabricar a moral.
A noite continua fria quando abandonamos o santuário e nos dirigimos de novo de volta ao hotel.
Falamos de quê?
Do homem e dos empurrões que levámos.
A paz à hora do terço?
Já passou.
A fé?
Viverá connosco eternamente e por cima de todas as convenções e meras circunstâncias da moral tantas vezes imbecil.

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