sexta-feira, 9 de março de 2012

Obrigado

A nossa história pessoal vai-nos oferecendo memórias, e tempo fora, os lugares, os acontecimentos, e sobretudo as pessoas, constituem-se como as raízes que vão alimentando a nossa identidade e nos dão o carácter único dos seres que somos.
À sombra das laranjeiras deste Pomar, já vos convidei muitas vezes a mergulhar nas raízes das minhas maiores e melhores memórias. Hoje faço-o mais uma vez.
Mas, ao contrário de todas as pessoas que aqui fui revisitando convosco, esta é por certo a pessoa com quem menos privei, que pior conheci, mas que mesmo assim foi decisiva para que eu hoje seja quem sou e viva feliz por sê-lo.
No inicio dos anos oitenta, encontrava-me a terminar os estudos do Secundário em Vila Viçosa, e se as classificações obtidas permitiam sonhar com a frequência de um curso universitário, a bolsa manifestava-se em sentido contrário. A vinda para Lisboa implicava a soma de muitas e gordas parcelas e o orçamento familiar não era farto o suficiente.
É neste contexto que entra em acção a pessoa de que vos falo, o Dr. João Amaral Cabral, presidente da Fundação da Casa de Bragança, instituição onde os meus pais são ainda hoje, orgulhosamente, funcionários.
Na sede da Fundação em Lisboa, então ao Príncipe Real, foi-me preparado um quarto fantástico, onde de forma perfeitamente gratuita eu residi durante todo o tempo em que frequentei a faculdade e onde permaneci até alguns anos mais tarde acompanhando o meu irmão durante o seu tempo de faculdade.
Com afã protector, não falávamos muitas vezes, apenas ocasionalmente sobre os estudos e a sua evolução, mas senti sempre a sua preocupação para que nada me faltasse neste período sempre difícil em que se deixa a casa dos pais e se vem viver sozinho para uma cidade a 200 quilómetros de distância e em que tudo é demasiado grande.
Mantivemos sempre o contacto, sobretudo através dos meus pais, e nos últimos anos, falávamos no Natal e tranquilizávamo-nos mutuamente em relação à saúde e aos projectos pessoais e profissionais.
As suas notícias para nós neste Natal não foram as melhores e a sua recente partida na passada semana, confirmaram os piores prognósticos de então.
Mas os Homens que são grandes e nos são gratos, jamais partem, porque estão marcados de forma indelével na nossa história pessoal.
Homenageio aqui a sua memória, expressando o meu infinito reconhecimento e gratidão pelo muito que a sua generosidade me proporcionou.
Muito obrigado.

4 comentários:

  1. Nunca devemos esquecer quem nos faz bem.
    E quem sempre fez tudo por nós e é sempre bom elogiar.
    Como se costuma dizer Deus é grande e oxalá nunca falte a quem faz bem neste mundo.
    M. Pereira

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  2. Como diz o fado:
    "Há gente que fica na história, da história da gente"

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  3. Maria Helena Lacerda12 de março de 2012 às 13:27

    Como temos em comum 1 amigo - Paulo Caeiro - tomei a liberdade de aqui deixar também algumas palavras. Perdi muito recentemente alguém que era "o meu chão". Ela vive em mim e está comigo durante todo o dia; o difícil de interiorizar é que o está apenas na minha memória. Não há mezinha que a materialize. E é com este facto que temos que, diariamente, passar por um lento processo de aprendizagem.

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  4. Excelente homenagem! Parabéns pelo texto! Um abraço!

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