quinta-feira, 30 de maio de 2013

Da Alameda à Aula Magna: uma aventura no País do Betão

Um estudo hoje apresentado contabiliza que Portugal recebeu 9 milhões de euros por dia num total de 81 mil milhões de Euros desde que em 1986 aderiu à União Europeia, então Comunidade Económica Europeia.
Deste dinheiro, para além de embarcações de pesca destruída, cursos de formação profissional e outros, a maior fatia foi utilizada em obras de betão com destaque para as vias rodoviárias que todas somadas em extensão permitiriam ligar Lisboa a Nova Deli.
Se tivermos em conta que no inicio da década de oitenta estivemos nas mãos do Fundo Monetário Internacional e que há dois anos para lá voltámos, poderemos dizer que de pouco valeu este aporte de capital que ocorreu num quarto de século, dinheiro sucessivamente utilizado na construção das fachadas que através de uma ilusão de desenvolvimento foram alimentando as campanhas eleitorais e o perpetuar de uma classe política no assento do poder.
O betão é a marca de um certo novo-riquismo bacoco e vaidoso que com raríssimas excepções apodrece sempre e desemboca na penúria devido à carência das raízes do bom senso e da consequente e incompetente má gestão.
O betão posto ao dispor da vaidade que perpetua os nomes na pedra ou no bronze das placas de inauguração de pontes, rotundas e estádios.
Hoje é quinta-feira de Corpo de Deus e por “sugestão” dos nossos credores e pela primeira vez desde há muitos anos, não é feriado nacional. As estradas perfeitas do melhor alcatrão, antes engarrafadas no inicio de um fim-de-semana prolongado, estão assim tristemente vazias alinhando-se em destino com os chalés do dinheiro fácil que rapidamente se colocam na antecâmara da penhora.
E se os políticos tivessem vergonha viriam pedir desculpa e sairiam de mansinho, mas como não…
Hoje mesmo, o Dr. Mário Soares, ícone maior da nossa política, da adesão à “Europa” e que, entre muitos outros cargos, foi neste quarto de século, Presidente da República durante 10 anos, chamou à Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, os partidos da esquerda para um consenso que tem em vista derrubar o governo.
Há alguns anos fez o mesmo quando subiu à fonte luminosa para derrubar… a esquerda com a inevitável ajuda e inspiração do “amigo americano”.
Se tivesse idade eu teria ido com ele à Alameda D. Afonso Henriques para ajudar a realinhar a liberdade de Abril e matar a tentativa de ditadura de inspiração soviética e cubana que se implantava.
Com esquerda, direita ou centro, eu também gostava de ir à Aula Magna falar de um novo governo com gente mais competente e munida de mais sensibilidade social e menos colagem aos “mandamentos” dos credores.
Mas há algo que definitivamente me distingue do Dr. Mário Soares: entre a Alameda e a Aula Magna eu lutei sempre pelo meu país e ele lutou sempre para manter e reforçar o poder no seu país, que é também o meu país.
E como ele, muitos políticos da esquerda à direita para quem Portugal foi apenas um palco para a vaidade vã do poder e nunca um terreno para cultivar o desenvolvimento e melhorar a qualidade de vida dos cidadãos.
E esta diferença que parece desprezível tem o valor de 81 mil milhões e tem o peso de muita dor, desemprego e fome.
Não basta haver novas políticas, a coerência exige novos agentes na política.

1 comentário:

  1. Excelente reflexão Francisco.
    Parabéns pela lucidez e oportunidade do conteúdo e pela escorreita forma de escrever, como é seu apanágio. Abraço

    ResponderEliminar