sábado, 10 de setembro de 2016

Porque enquanto houver Setembro e um Calipolense…


Nem necessitei pisar a rampa, que o tempo era curto e dava apenas para parar o carro e espreitar o arraial ali desde a porta da Igreja de São Tiago; mas vi-os a todos. No muro que ladeia o caminho até à Igreja do convento, vejo sentados os meus avós e os meus tios que conversam animadamente à espera do Fogo Preso.
Vou sempre até lá para lhes dar um beijo e regresso invariavelmente com uma moeda de cinco escudos no bolso:
- Toma lá para ires comprar uma “maravilha”.
O nome mais do que justo que tomam as farturas quando são redondas.
Há rifas na Tômbola e na Quermesse onde às vezes dou uma ajuda porque o meu pai pertence à Comissão de Festas e até fui eu quem escreveu cem vezes o mesmo número em folhas de papel devidamente picotadas para poder alinhar as séries que andam à roda.
O Senhor Julião, pai do Manuel, já fechou o café na Praça e chega sempre a tempo de ganhar os melhores prémios.
- Olha, hoje só ganhei uma garrafa de Anis Escarchado.
A banda toca no coreto e o pai atina com os Pratos, a prima Maria Clara toca Requinta e o Tio António hoje encarrega-se da Caixa.
Não tardará o baile com o “Star Melodia”, os nossos Beatles de Vila Viçosa, mas eles ainda só afinaram os instrumentos. Há dois ou três pares que aproveitam e dançam mesmo ali ao redor do coreto.
Cheira a frango assado e ainda levamos o fumo no nariz quando nos ajoelhamos para rezar à Senhora da Piedade ou para pedir ao São Francisco jazente e aos seus “fradinhos” que nos ajudem até ao próximo Setembro.
A “Pesca ao Pato” já parou, as tômbolas estão meio paradas… É o meu pai que dá ordem para que o fogo comece mas só depois de ter ouvido mil vezes:
- Nem por seres “Foguete” e parente dos demais, os fazes subir aos céus sem mais delongas.
Foi na Terça-feira desta semana durante uma curta visita a Vila Viçosa, um dia quente e com fumo e fogo por perto. Fiz uma foto no arraial e voltei ao carro de onde não saíram a minha mãe e o João.
Mas vi-os a todos mesmo sem descer a rampa, assim como os vejo hoje aqui desde Paris onde escrevo já pela noite fora.
Enquanto houver Setembro e um Calipolense, os Capuchos jamais ficarão às escuras. Porque somos nós e tudo e todos aqueles que nunca deixaremos morrer sob arcos coloridos no redesenhar de um céu tão próximo de nós.
Há milhões de beijos nossos envoltos nas memórias dessas noites que nasceram para que fossemos imensamente felizes.
Num outro dia, uma amiga daquelas que vêm de terras sem muita História e sem memória, que vivem em Vila Viçosa mas que nunca se cansam de denegrir tudo o que temos e somos, confessou:
- Detesto a Festa dos Capuchos.
Se as palavras ditas assim podem ser saliva em jacto sobre a nossa indiferença, espero que as minhas palavras escritas possam ser o convite ao seu respeito pelas nossas memórias.
Porque enquanto houver Setembro e um Calipolense…
Comam um brinhol e bebam uma ginja por mim. Abraços.

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