segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Estas ruas onde nunca me sentirei só


Vila Viçosa, um sábado de Outubro.
Acordo com o ruído dos pavões no Jardim do Bosque, onde por entre o desenhado buxo se guarda a memória da espera de D. Luísa de Gusmão nos dias de Dezembro de 1640 e da Restauração.
Estamos no final de Outubro mas a aragem é quente e a fazer lembrar Maio, tomo um café na pastelaria do costume e subo depois a Avenida beneficiando da sombra das laranjeiras, tendo aquele cuidado tão Calipolense de me baixar perante os troncos mais rebeldes e que se intrometem no meu caminho.
Entro no Castelo, rezo à Senhora da Conceição, e ali ajoelhado, sinto-me um inevitável herdeiro beneficiário de uma fé que não se apaga. Ajoelhei-me por ali com os meus avós.
Não tardo a devolver-me à Avenida, depois à Praça e mais tarde à Corredora para poder regressar a casa, cumprindo os “mandados” entre o Multibanco na Caixa Agrícola, os Bolos Fintos na Pastelaria, o Expresso na Comercial e o pão na Padaria.
E um trajecto que em condições normais eu faria em vinte minutos, fi-lo em hora e meia, não tendo noção no final, do número e dos nomes das pessoas com quem me cruzei e com quem fui falando do estado de saúde do meu pai.
Quando se tem uma terra como eu tenho a minha, para além do abraço das árvores e do conforto natural das pedras que nos oferecem um eterno chão, para além do ar que é a nossa casa, temos este benefício da gente que nos abraça, que nos beija e que nos envolve de afectos na forma de olhares, gestos e de palavras.
Uma gigantesca e informal família…
E nunca nos sentimos sós.
Os dolorosos silêncios para onde a vida às vezes nos abandona à mercê de pensamentos difíceis, apagam-se assim por entre o brilho da gente que nos cuida e nos conforta, com algo de divino e de recompensa para quem reza; ou não fosse cada Calipolense um porta-voz informal da Senhora da Conceição que no coração de cada um, muito mais do que no Castelo, tem a sua casa.
Da varanda da casa dos meus pais vejo o Palácio, escuto os pavões e apercebo-me que o lilás que me perfuma a Páscoa, este ano e por mérito do sol voltou a florir como que visitando as romãs.
Sorrio, escrevo um poema de amor para quem trago no coração e sinto o abraço da gente.
O sol dos amigos rompe os impossíveis e até faz florir em Outubro aquilo que parece ser de Abril.
E é impossível sentir-me só.

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