quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

“Aguenta, aguenta!”


Caro Dr. Fernando Ulrich, sou há muitos anos cliente do seu banco, e por isso um contribuinte activo através de juros, taxas e afins, para o lucro de 250 milhões que a instituição a que preside conseguiu em 2012.
Felicito-o pelo facto de o senhor ser das muito poucas pessoas que neste país se pode orgulhar de ter crescido em termos financeiros no ano que passou, ano marcado por inúmeras falências de empresas de maior ou menor dimensão, e por um consequente e desmesurado aumento do desemprego que atirou muitos milhares de Portugueses para patamares bem abaixo dos limiares da pobreza.
Tem portanto toda a legitimidade para estar feliz nas suas conferências de imprensa.
Porém, permita-me que lhe faça algumas sugestões para que as possa usar, se assim entender, na pose e no discurso.
Aprenda o que é o pudor e aplique-o activamente, evitando assim talvez, essa ridícula soberba de quem fala da riqueza que alcançou e reconhece por legítima a austeridade aplicada aos outros. O “Estado-Colchão” que lhe sustentou o bem-estar e que o privilegia acima de tudo, tem por molas os cidadãos do seu país, esmagados diariamente pelo seu peso e dos seus parceiros e concorrentes, por via de uma carga fiscal de dimensões pornográficas.
Depois, quando afirma que "se os gregos aguentam uma queda do PIB (Produto Interno Bruto) de 25% os portugueses não aguentariam porquê? Somo todos iguais, ou não?", ficava-lhe bem não ser mentiroso. Somos todos iguais? Eu sou igual a si? Só se for aos olhos de Deus. E mesmo assim…
Para além disso, escolha melhores exemplos para nos animar. As comparações com a Grécia não estão muito na moda.
"Se você andar aí na rua e infelizmente encontramos pessoas que são sem-abrigo, isso não lhe pode acontecer a si ou a mim porquê? Isso também nos pode acontecer".
A nós? Senhor doutor, mais uma vez, seja verdadeiro. O senhor sabe que pelo rumo que as coisas levam, é mais provável que me aconteça a mim do que a si. Certo?
E não acha também que lhe ficava bem um pouco de “compromisso social”. Esse assumir da mendicidade como uma natural consequência da vida, é para quê? Tem medo que se lhe acabem os pobrezinhos? É para poder brilhar ao anunciar que oferece 5€ a uma instituição de solidariedade social por cada conta aberta no seu banco?
E a memória? Que jeito lhe daria nem que fosse só um pouco. Desses que não têm casa, quantos as entregaram a si depois de terem sido iludidos pela facilidade publicitada pelo seu banco no acesso ao crédito e depois de por falta de emprego, terem deixado de lhe pagar os juros que alimentam os seus lucros?
"E se aquelas pessoas que nós vemos ali na rua, naquela situação e sofrer tanto aguentam porque é que nós não aguentamos? Parece-me uma coisa absolutamente evidente".
Estou a ver.
O senhor, confortavelmente sentado à mesa e acompanhado pelo Poder, por momentos desvia o olhar do seu bife do lombo, olha pela montra do restaurante de luxo, através da qual vê um sem abrigo na rua, que por acaso ainda respira e se tem em pé, e inspira-se para emitir esta pérola que nos deixa a todos felicíssimos, e sobretudo que expressa o seu carácter de verdadeiro imbecil e mal formado.
Ainda cabe muita gente nas arcadas do Terreiro do Paço. Podemos ir todos para lá. Não acha?
E depois vira-se novamente para o bife do lombo. Muito mais descansado, é claro, pois mesmo que muitos milhares vão para a rua, os “gajos desenrascam-se”. O senhor até oferece 5€ por cada conta aberta…
Para terminar, sugiro-lhe que comece a ir mais vezes ao cinema, se ainda for a tempo de apanhar alguma sala aberta e livre da falência, é que nestas ocasiões citar apenas o Tomás Taveira e o seu “aguenta, aguenta” popularizado num filme caseiro, não me parece coisa digna para um banqueiro, mesmo sabendo que a situação, ainda que em sentido figurado, se aproxima muito da do dito filme, sendo o senhor, é claro, o protagonista.

1 comentário:


  1. Estamos numa época em que o Fim do Mundo não assusta tanto quanto o Fim do Mês
    Rui PEEIRA

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