sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

É o destino!


Um dos traços mais marcados na nossa lusitana forma de ser e estar na vida, é o assumir da predestinação, o inevitável destino e fado, como justificação para tudo o que nos acontece de bom, mas sobretudo de mau, que é sempre bom deixar uma margem para a nossa “genialidade” salvadora.
À semelhança de João Calvino e dos seus seguidores, colocamo-nos comodamente na posição de sujeitos passivos e incapazes de mudar a nossa história, actores no cumprir de um guião supremo que alguém no acto da criação nos colocou na mochila da sorte.
A nossa vontade conta muito pouco perante tão incríveis e insuperáveis bênçãos de Deus ou pragas do diabo.
Olhando para alguns exemplos, rapidamente concluímos que a situação é deveras cómoda, essencialmente porque nos desresponsabiliza.
E até quando falamos de triviais situações do âmbito da “moral” que também apregoamos sempre como nossa.
Por exemplo, todos sabemos que a fidelidade em Portugal foi sempre e só uma companhia de seguros, mas todos assumimos que ela só deixou de ser praticada ao nível conjugal com a chegada das “malvadas” das Brasileiras que nos vieram desviar os “homens” dos caminhos das mais puras virtudes.
E os homens Portugueses limitaram-se a cumprir o seu destino…
Crimes violentos em Portugal? Não havia até à chegada das máfias de leste. Por acaso a minha pacata terra está cheia de cruzes de pedra nas fachadas para assinalar mortes violentas que ocorreram ao longo dos séculos, mas isso… não interessa nada, como diria a outra.
Embalados por esta esquizofrénica atitude, até as instituições vão na avalanche.
Recentemente, os meios de comunicação social noticiaram que o número de mortos nas estradas do país baixou em 2012 para níveis idênticos aos de 1950, numa altura em que o parque automóvel estava em números nos antípodas do que é hoje.
Num ano em que até implementaram portagens nas estradas supostamente mais seguras e se desviaram condutores para estradas de maior risco, todos os comentadores assumiram que este feito se ficou a dever apenas à crise financeira e à diminuição do poder de compra de combustível para alimentar as viaturas.
Não tenho dúvidas de que teve influência mas… e a Brigada de Trânsito da GNR? E as polícias? Trabalharam para quê? Não trabalham supostamente para a segurança das pessoas que circulam nas estradas? Será só para a caça à multa?
É caso para dizer que nem para eles são, pois tinham aqui uma boa oportunidade para justificar a sua existência e se apresentarem aos cidadãos com os objectivos cumpridos, ajudando-nos até a suportar o seu exageradíssimo excesso de zelo que leva a multar sofregamente qualquer condutor que apenas olhe para o telemóvel para ver as horas ou que por uma fracção de segundos passe um semáforo entre o intermitente e o vermelho.
Mas a desculpa com a inevitabilidade do destino, que nestes últimos tempos se confunde com crise e troika, está sempre mais à mão e é mais fácil de usar.
Depois do BPN, o Estado vai despudoradamente injectar dinheiro no BANIF evidenciando que a sua preocupação é a banca e que para que ela sobreviva, nem importa que o povo morra à fome.
E o que se ouve nas ruas e nos cafés enquanto tomamos a bica:
- O que se pode fazer? É sempre assim.
Das coisas mais simples às mais complicadas, somos nós que fazemos o nosso próprio destino pela arte das opções que tomamos e pela força das nossas acções e sobretudo, convicções.
E um Homem com objectivos apenas de passiva sobrevivência, é um fraco.
E um povo em letargia e sem convicções, perde o seu destino e aniquila-se, apagando-se como nação.
Se nos demitirmos de agir e fazer, promovemos a nossa auto-condenação ao desaparecimento.
Antes que nos matem, sejamos nós por obras, convicção e insubmissão, a matar o destino que nos oferecem. 

1 comentário:


  1. O destino.
    E como os dramaturgos, não anuncia as peripécias nem o desfecho.
    Rui Pereira

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