sábado, 19 de janeiro de 2013

O vento


Toda a noite, o vento soprou forte.
Grito, sussurros, a cumplicidade com a chuva arrastada para a vidraça, e esse desenho dos sons que a nossa imaginação faz parecer palavra.
A voz do vento nascida da sua força, ou o mar perseguindo-me e impondo-se aos meus dias no Alentejo que só o pode sonhar, sendo como é, pedaço perfeito de terra lusa, que mira a nascente e corteja Espanha.
No Terreiro, ao lado da minha janela, o cipreste que compete em altura com a imponência do Paço, agita-se desde a madrugada num estranho bailado que dá movimento à estranha e inédita Banda Sonora que povoa hoje a minha terra, e que nos matou por instantes esse privilégio da companhia do eco dos nossos passos sobre a calçada.
Espreito pela janela, e daqui, do quente da camilha que esconde a braseira que pelo corpo me aquece a alma, vejo que o cinzento que se impôs ao céu, preservou e mantém intacta, a beleza do casario branco que por sob o tijolo dos beirais e numa quadrícula em amarelo e azul feita de rodapés e umbrais, dá corpo à Calipole, de onde sou e a que pertenço.
No ar já cheira a hortelã e de grão-de-bico se fez o cozido que anuncia o almoço.
Que bom é estar em casa, na minha verdadeira casa, num dia assim.
Com o Alentejo, e sempre, com as memórias do mar.

2 comentários:

  1. Como eu
    como eu gosto de ouvir água que desce pelo telhado Formando um só fio de goteira
    Me leva de volta ao passado
    Recordando feliz brincadeira
    RUI PEREIRA


    ResponderEliminar
  2. A força é a mesma e o mar acalmou.
    As lembranças e as palavras perduram ainda no murmúrio do vento manso.

    Mar

    ResponderEliminar