segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Suas Excelências, os “Ex’s”


Desde sempre me habituei a conviver de perto com o ditado: “se queres ser bom, morre ou ausenta-te”.
É um facto que a morte de alguém nos “adoça” o coração e tem o condão de aliviar os juízos negativos, mesmo em relação a pessoas com que não simpatizávamos muito. Por um lado, porque não nos sentimos bem a “bater em mortos”, no verdadeiro sentido do termo, por outro porque delegamos em Deus, o dito julgamento, e de caminho, por precaução, não vão os finados ter algum poder misterioso e fatal que nós desconhecemos, e venham acelerados das mais profundas trevas para nos infernizar os dias.
A ausência tem efeitos semelhantes mas por não envolver uma componente mística e metafísica, tem sempre menos eficácia e menos impacto de perdão. Passa a ser uma questão de tempo e de alívio da memória.
Nos últimos tempos, tenho-me apercebido que é total a adequação deste ditado à política Portuguesa.
Por intolerância a telenovelas, programas de entretenimento, concursos e “Big Brother’s” ao estilo cabaret da mais ordinária coxa, circulo muito pelos canais de notícias das três estações nacionais, tendo assim o “privilégio” do convívio diário com o saber, a clarividência e a excelência dos “Ex’s”.
A “painelar” em conversas mais ou menos alargadas, os ex-Ministros das Finanças sabem todos como retirar o país da crise e sabem quais as medidas que devem ser tomadas para o conseguir com eficácia e em menor tempo.
Ex-Primeiros-Ministros, ex-Presidentes da República, ex-líderes partidários, ex-Ministros da Saúde, etc., todos sabem sempre o que fazer. E cheios de certezas.
É interessante a forma como os ditos indivíduos são apresentados pelos jornalistas, sempre como ex qualquer coisa, justificando-se por essa via a sua presença e antecipando-se desde logo, a pertinência e a legitimidade das suas achegas.
Este fim-de-semana, o ex-Presidente da República, Jorge Sampaio, deu uma entrevista ao Expresso, e foi ver a forma decidida como opinou sobre todos os assuntos, sobre as suas soluções para a sustentação do Estado Social, ele que em 2004 ouviu tudo e todos para conseguir tomar a decisão de empossar Santana Lopes com Primeiro-Ministro. Então, até os moribundos foram obrigados a subir as escadarias do Palácio de Belém, e para o que se viu...
- Pois… Havia também aquela questão de matar a liderança de Ferro Rodrigues no PS e esperar pela entrada de Sócrates…
- Ok, mas isso não interessa nada.
Este aumento da clarividência e lucidez após a retirada dos cargos, justificará quiçá a facilidade com que os políticos se reformam no nosso país, algo que até deveria ser incentivado, pois todos eles reformados, e talvez a crise se resolva por si só. Mas por favor, com a reforma mínima ao nível da dos trabalhadores rurais.
No fundo, e sabemos que é essa a razão, há um deficit grave na formação dos nossos políticos, muito treinados para a tribuna e para a palavra, e jamais treinados para a competência e para a arte do “fazer acontecer”.
É grave essa discrepância que à semelhança da Gripe das Aves ou da Doença das Vacas Loucas, poderia ser designada por Incompetência dos Papagaios, patologia grave com manifestação de sintomas de amnésia e desonestidade intelectual.
Há não muito tempo, em Julho do ano passado, um famoso “ex” felicitou os médicos pela sua greve, gesto heróico em defesa do Serviço Nacional de Saúde que em seu entender era "uma das conquistas mais importantes na normalização democrática após o 25 de Abril". "Perceberam bem todos o que estava e está em jogo, salvar ou não salvar o SNS, que está ameaçado", afirmou.
Meio ano depois, e na hora de escolher um hospital, este ex-Presidente da República, Mário Soares, exemplifica e manifesta todo o seu verdadeiro respeito pelo Serviço Nacional de Saúde buscando um hospital privado.
A não ser que goste tanto dele, que não o utiliza para não o desgastar, numa atitude mais ou menos ao jeito de quem tem um fato novo e só o veste em ocasiões especiais, não vá ele ganhar algum desgaste e nódoas.  
De facto, isto de ter de fazer algo depois de tão bem opinar, é mesmo uma grande maçada.
Por fim e no momento presente, que o tempo corra veloz, que os actuais ganhem rapidamente estatuto de “Ex’s” que nós até lhe pagamos a “Pensão de Alimentos” só pelo prazer e alívio do divórcio.
E até podem ir para os painéis de opinião ganhar alguns trocos que nós não nos importamos. Afinal de contas, o exercício do zapping é tão relaxante.

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