domingo, 6 de novembro de 2016

E a tanta vida que se espreita de ao pé de ti faz-me sentir imortal…



A nossa casa de primeiro andar tinha na sala um móvel onde os vidros tilintavam sempre que passávamos. Recordo-me bem.
Mas nem a estridência desse som me acordava quando ao regressares do cinema me pegavas ao colo transportando-me da tua para a minha cama.
A mãe adormecera-nos depois de rezarmos ao Menino Jesus, enquanto tu estarias de volta da velha máquina de projectar que funcionava bem quando se alinhavam dois pedaços de carvão com a forma de um lápis.
Nas noites simples nessa casa da Rua de Três, em Vila Viçosa, os teus braços deixavam espreitar para o amor a que consigo ser fiel quando sou maior. O amor que transporta em si a força de um castelo de onde se conquista o universo; heróis armados pela vontade, às cavalitas, como num imenso beijo, e com o riso em vez de espada.
Aprendi contigo que o tempo só permite cumprir os sonhos se os nossos passos lhe lembrarem todos os dias qual o sítio para onde queremos ir.
Desfrutámos tantas vezes da agonia dos impossíveis sob o perfume da liberdade; e construímos juntos os papagaios de papel que depois pusemos a voar.
Na mesa da cozinha ficava sempre um bolo em forma de pato que compravas na Pastelaria Azul no regresso do cinema e que eu comia na manhã seguinte ao pequeno-almoço.
O amor mora sempre nas coisas mais simples.
Parabéns pai.
Que bom ter-te aqui para ainda hoje continuarmos a brincar e a ver quem tem mais cócegas.
Continuo a ser um dos teus dois gaiatos, e a tanta vida que se espreita de ao pé de ti faz-me sentir imortal.

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