sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Se ao menos eu andasse com castanhas nos bolsos



O táxi tarda e eu vou entretendo o olhar com as cores do Outono que brilham à minha frente.
A casa atrás de mim tem algo de Brideshead, e por momentos eu sou um Charles Ryder / Jeremy Irons revisitando o passado, o dele que influenciou o meu, e acabo a assobiar a música fantástica do genérico da série de televisão.
Atraído pela música, há um esquilo que desenha linhas curvas como ondas sobre o relvado e que se aproxima de mim na esperança de que eu tenha alguma comida para lhe dar para lá do assobio.
Porque é que eu não ando com castanhas nos bolsos...
Brinco com ele um instante junto a uma árvore que me assalta o pensamento com um dos meus sonhos: ter uma casa entre os troncos de uma árvore grande…
Para lá dormir contigo numa noite estrelada, e quiçá escrever uma história que fale de um esquilo assim rebelde como este; que até pode achar-me muito simpático, mas assim, sem nada para roer, despede-se e vai-se embora.
Fico eu e a árvore numa manhã fria que gela as mãos.
Ainda se eu tivesse uma castanha no bolso, assada e quente como as que vendem no Rossio.
O táxi chega e eu despeço-me da árvore.
O meu taxista tem trinta anos, nasceu na Turquia, tem símbolos do Islão na viatura, e um aparelho auditivo que lhe denuncia uma elevada surdez. Percebo que lê os meus lábios no retrovisor para melhor me entender.
Conversamos todo o caminho e no final e enquanto me entrega o recibo, surpreende-me:
- Tenho a certeza de que o seu futuro será feliz.
Agradeço e estendo-lhe a mão.
A mão afinal só aparentemente vazia; porque entre a liberdade de Brideshead, os sonhos de um esquilo e de uma casa na árvore, a tolerância e o afecto...
As nossas mãos vão ganhando o calor e o poder de milhões de castanhas.
Ao ritmo da nossa história e a denunciar a ambição de sermos felizes.

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